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Entrevista exclusiva com Luciana Dantas, doutora em Saúde Coletiva

Chico Vartulli 6 de novembro de 2025 6 minutes read
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A minha convidada é Luciana Dantas, doutora em Saúde Coletiva, graduada em Psicologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e mestre em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social (IMS/UERJ). Servidora pública vinculada ao Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2001, exerce cargo de psicóloga clínica no Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE/MS) e de tecnologista do Núcleo de Segurança do Paciente do Instituto Nacional de Câncer (INCA/MS). No momento, voltada mais para os temas de narrativas, experiência, inequidades em saúde e caminhos para a articulação entre arte e saúde. Em nosso bate-papo ela nos fala da trajetória dedicada ao SUS há 30 anos, e sobre como a psicologia e a arte podem (e devem) caminhar juntas. Confira!
JP –  Olá Luciana! Como você caracteriza o trabalho de um psicólogo hospitalar?

O trabalho do psicólogo no hospital é algo relativamente recente, surgiu nas últimas décadas. Surge a partir da concepção de que a experiência de adoecimento e tratamento é algo complexo, que envolve dimensões que extrapolam os aspectos biológicos. Encontra-se, portanto, alinhado à perspectiva de integralidade nos cuidados em saúde.

JP – Por que a escolha do hospital como espaço de atuação na área da psicologia?

Essa foi uma escolha que eu fiz bem no início de minha graduação. Se eu considerar o tempo de estágios, estou há exatos 30 anos trabalhando em hospitais públicos. É um trabalho que realmente me faz sentir muito realizada. Encontro pessoas que estão com suas histórias de vida atravessadas, muitas vezes interrompidas, por limites colocados aos seus corpos e pela necessidade de que os saberes médicos e de outras especialidades em saúde se coloquem em suas vidas, em nome de sua sobrevivência. Então, reinventar suas histórias e reapropriar de seus corpos, desejos e lugares no mundo se torna algo também vital. Trabalhar nesse momento da existência e apostar que ali está o mais radical da experiência humana, na fronteira entre o que pode ser a sua potência e seu limite, é algo que entendo como um trabalho extremamente artesanal e poético.

JP – Quando você começou a se interessar pela área da psicologia?

Minha ligação com o campo da saúde passa pelo exemplo que tive do meu pai, um médico que sempre se dedicou à profissão pela vocação, e manteve até o momento de sua aposentadoria compulsória seu compromisso de trabalhar numa unidade de emergência pública em uma área de risco no Rio de Janeiro. Alguém que me ensinou que o trabalho não deve ser um status, ou exercício de privilégio social. Desde então, compreendo a importância de ser uma servidora pública e me dedicar a uma função a que as pessoas não teriam acesso de forma privativa. Pessoas próximas e queridas me apresentaram a psicanálise como um modo de compreender o humano, seus mistérios e vicissitudes, o quanto podemos escrever e ressignificar as nossas histórias, escolhas e afetos. O trabalho em psicologia hospitalar acabou sendo um grande encontro das muitas influências e perspectivas que me inquietavam desde a adolescência.

JP – Como se deu a sua formação na área?

Ingressei na UERJ em 1993, e desde 1995 comecei a fazer muitos estágios: no Hospital Universitário Pedro Ernesto, Hospital Central da Aeronáutica, Hospital Municipal Jesus. Mergulhei fundo em todas as oportunidades, já estava encantada. Após a realização de cursos de pós-graduação em Psicanálise (USU) e em Saúde do Trabalhador (FIOCRUZ), ingressei como servidora pública no Hospital Estadual Getúlio Vargas em 2001. Desde 2007, trabalho como psicóloga clínica no Hospital Federal dos Servidores do Estado e sou integrante do Núcleo de Segurança do Paciente do Hospital do Câncer 3/INCA. Como parte da minha formação, fiz uma Especialização em Qualidade e Segurança do Paciente (FIOCRUZ), além de  mestrado e doutorado em Saúde Coletiva (IMS/UERJ).

JP – Quais são os seus referenciais teóricas e práticos na área?

Minhas referências passam pela Psicanálise, em especial Freud e, no Brasil na atualidade, gosto das contribuições de um psicanalista chamado Christian Dunker. No entanto, compreendo que a leitura de mundo precisa estar em diálogo com a filosofia, a antropologia e a literatura. Nesse sentido, sou uma eterna estudante, com muitas questões e curiosa por novos autores. Atualmente, não consigo desvincular minha prática às contribuições da arte sobre as infinitas possibilidades do que seja a experiência humana.

JP – Como você aproxima o trabalho do psicólogo hospital do campo da área e da cultura?

O hospital em sua concepção histórica é um lugar de desterro, como se todas as outras questões da vida estivessem relegadas a um segundo plano, pela necessidade de hegemonia de intervenções biomédicas. Algumas experiências de adoecimento são ainda são marcadas por estigmas e alijamento social. Essas são algumas das  frentes para pensarmos como a experiência de adoecer também inclui dimensões sociais e culturais. Como um corpo não idealizado pela cultura pode ser reconhecido como um corpo belo e sua expressão ser legítima? Nesse sentido, eu acredito que a arte e toda a sua possibilidade de subverter a ordem normativa pode ser uma grande aliada às práticas de “humanização” do hospital.

JP – Você também trabalho  em consultório?

Não, minha escolha foi me dedicar ao serviço público.

JP – Quais são os seus planos futuros?

Tenho pensado cada vez mais em como a arte pode penetrar e trazer novos horizontes para o hospital. Apesar de todo o rigor técnico e científico que são necessários para a condução de diagnósticos e tratamentos, a criação humana precisa fazer com que o seu interior, seus muros não sejam tão “acinzentados” e que as pessoas que estão sendo atendidas possam se ver com a possibilidade de criação ou recriação da vida. Então, temos pensado muito nos caminhos para tornar isso viável. Com um grupo do trabalho, realizamos em 2024 uma exposição de fotografias realizadas pelas pacientes sobre os significados do cuidado em seus cotidianos. Atualmente, estamos com um projeto de elaborar junto às pacientes um Cordel sobre Segurança do Paciente. E estamos abertos a diálogos com quem mais puder contribuir com esse processo de “colorir” o hospital. Não para romantizar o sofrimento humano, mas para que novos caminhos sejam abertos.

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