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    • Luisa CatoiraFormada em  fonoaudiologia no Rio de Janeiro, morou  em São Paulo por 17 anos, onde fez  pós graduações em psicomotricidade, psicanálise, motricidade oral, cursos de especialização em bebê de alto risco, acupuntura sistêmica e auricular. de volta ao Rio de Janeiro, em 2010, fez uma pós em audiologia clinica, para entender como estava o mercado de fonoaudiologia no Rio. Nessa época, entrou em seu consultório, uma atriz, dubladora e locutora, que precisou cuidar da voz, pois teria uma peça no final de semana, várias locuções e dublagens para fazer, mas ficou impedida por ter ficado subitamente rouca. Ela, sendo muito disciplinada, fez tudo o que foi orientado  e, no dia seguinte conseguiu cumprir suas funções vocais. Como era uma pessoa bem famosa, acabou  apresentando Luisa para o mundo da arte, o que  mudou o rumo de  sua vida. A partir daí, fez cursos na área de voz, com as melhores fonoaudiólogas do Brasil, além de 2 cursos em eletroestimulação, laser, ultrassom e uma pós graduação em fisiologia do exercício. Acompanhava as aulas de dublagem que ela dava, deu  várias palestras em cursos de teatro e dublagem e acabou montando um método de trabalho que dura 5 semanas, para trabalhar com…
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O que se tentou enterrar no deserto sírio — mas não morreu

João Henrique 10 de fevereiro de 2026 8 minutes read
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Arlindenor Pedro

  • Professor de História, Filosofia e Sociologia, editor do Blog, Revista Eletrônica e canal YouTube Utopias Pós Capitalistas.

    Acompanhei e vi com inquietação crescente, o que se passou no início de 2026 no nordeste da Síria. Acontece que uma a uma, as cidades sob controle curdo foram se rendendo ao cerco metódico do governo central de Bashar al Assad. O que vimos foi uma rendição sem alarde, sem manchetes, sem indignação internacional. A grande imprensa, tão veloz em outros tempos para celebrar o heroísmo das combatentes curdas contra o Estado Islâmico, calou-se. Como se nada tivesse acontecido.
    Mas eu sei e faço questão de dizer a vocês leitores, o que ali tombou não foi apenas um território. Na verdade, foi uma das experiências mais ousadas de reinvenção social e política de nosso tempo. O que se se tenta enterrar sob o silêncio da mídia ocidental é um projeto que ousou dizer não ao Estado, ao capital e ao patriarcado.
    E, ousou fazê-lo simultaneamente, com radicalidade e profundidade hoje, agora, na modernidade. A verdade é que, durante mais de uma década, o povo curdo construiu, no Rojava, algo que só posso chamar de insubmissão encarnada.
    Conselhos populares tomaram o lugar da soberania estatal. Milícias femininas protegeram aldeias e cidades. Cooperativas tentaram suplantar a lógica da mercadoria. Escolas formaram crianças em línguas negadas e em ideias emancipadoras. Influenciados pelo pensamento de Abdullah Öcalan e pela ecologia social de Murray Bookchin, os curdos organizaram uma estrutura política baseada no confederalismo democrático, onde o poder era partilhado, o território era comum e o patriarcado era confrontado desde a raiz. A crítica à dominação masculina não era um adendo superficial, mas uma das colunas mestras da nova ordem social que ali se tentava instituir.
    Ali, a mulheres tinham o protagonismo central. Em meio ao fogo cruzado das potências imperiais, das milícias islamistas e da indiferença calculada do Ocidente liberal, o Rojava se ergueu como uma anomalia viva, como um campo de possibilidade real. Por isso, quando agora tentam apagar sua memória com a poeira do deserto, me recuso a aceitar. E repito a vocês: Aquilo que ali floresceu, mesmo que por um tempo curto, não pode ser esquecido. A tentativa de enterrá-lo no esquecimento só mostra o quanto ele foi e continua sendo perigoso para a ordem estabelecida.
    Quando olho para o Rojava, não o vejo isolado. Reconheço nele ecos de outras experiências históricas que me ensinaram a acreditar na possibilidade de mundos alternativos. Em 1994, os zapatistas em Chiapas desafiaram o neoliberalismo armado e criaram suas Juntas de Bom Governo. Em meio à selva mexicana, os indígenas maias estabeleceram autogoverno, educação autônoma, cooperativas comunitárias e uma proposta política centrada no “mandar obedecendo”. O mundo ouviu seu grito no primeiro dia do NAFTA e esse grito continua ecoando, mesmo abafado.
    Vejo também a lembrança viva da Revolução Espanhola, quando operários e camponeses catalães e aragoneses socializaram fábricas e terras, instauraram conselhos e milícias populares, instauraram uma nova ordem coletiva por um breve mas inesquecível momento, até serem esmagados pelas forças fascistas com a conivência dos comunistas stalinistas.
    Recordo também as comunas chinesas, surgidas durante o Grande Salto Adiante, onde milhões foram mobilizados em torno da ideia de superação da propriedade privada. Ainda que ali o impulso de emancipação tenha sido rapidamente absorvido e distorcido pelo poder central do Partido Comunista, houve um movimento popular que buscava caminhos outros.
    Essas experiências, assim como o Rojava, se conectam por um fio subterrâneo que atravessa a história moderna. Elas não são repetição mecânica nem mito fundacional. São momentos em que a forma mercadoria, o Estado moderno e o patriarcado estrutural foram colocados sob tensão real. Nenhuma delas venceu. Todas foram, em alguma medida, derrotadas,é verdade. Mas, é dessas derrotas que nasce a memória ativa. Aos poucos vamos entendendo como realmente funciona este sistema abstrato de dominação que é o valor e a mercadoria, e vamos criando modelos que nos ajudarão a vencer a barbarie e moldar um outro tipo de sociedade. A sociedade dos seres humanos emancipados.
    O Rojava se distingue pela clareza com que nomeou seus inimigos estruturais e pela forma com que organizou sua luta: um projeto que combinava democracia radical com autonomia local, produção cooperativa com crítica ao trabalho abstrato, combate patriarcal com protagonismo feminino real. Mulheres armadas não apenas para proteger aldeias, mas para comandar conselhos, legislar sobre seus corpos, forjar novas subjetividades. Essa imagem, a mais potente e insuportável para o olhar colonizado da modernidade, talvez explique o silêncio cúmplice que se seguiu à sua queda.
    Silêncio da mídia burguesa e da esquerda cooptada para o projetos da civilização liberal, que ora naufraga mundialmente. Não tenho ilusões quanto ao pacto firmado entre os curdos e o regime sírio.
    Sei que ele foi amplamente desfavorável. Representou o esvaziamento institucional de uma experiência autônoma e a reintegração forçada a um aparato estatal autoritário e centralizador. Abandonada e isolada, a resistência curda teve que se render. Ou isso ou marchar para o massacre, o genocídio, de todo um povo, com a complacência da opinião pública mundial, envenenada pelas grandes potências capitalistas.Mas, também , sei que acordos feitos sob cerco e exaustão não definem o destino de um povo.
    O povo curdo está vivo. Viveu sua experiência, construiu saberes, acumulou práticas que está na memória de gerações, que nunca esquecerão.Essa experiência molda consciências e resiste. A memória de uma década de autogoverno e insurgência antipatriarcal não se dissolve com decretos.Não desaparece de uma hora para outra simplesmente!
    Ora, não vivemos tempos de estabilidade! Ao contrário. Vivemos numa era em que o capitalismo global atravessa uma crise civilizatória de longo curso. Uma crise que não é apenas econômica, mas ecológica, social, subjetiva e simbólica. Vivemos a guerra de reordenamento mundial do capitalismo.Como placas tectônicas em fricção, as potências se rearranjam continuamente. Nenhum pacto é duradouro. Nenhum domínio é garantido. Por isso insisto que nenhuma rendição é final. Nenhuma derrota é absoluta. A história gira, às vezes em silêncio, às vezes em fúria. Onde estará o atual governo Sírio, daqui a alguns anos? Onde estará o governo autoritário da Turquia? Não sabemos. Tudo é frágil e se dissolve no ar!
    Aprendi, com a crítica do valor, que o capitalismo não é só um sistema de produção. Ele é uma forma de vida total. Funda-se na abstração do trabalho, na circulação impessoal do dinheiro, na lógica do valor como critério de existência social. Ele esconde suas violências por trás das coisas, das mercadorias, das formas. E sustenta tudo isso sobre uma estrutura de dissociação patriarcal que relega o cuidado, o corpo, o emocional, o não quantificável, às mulheres e à sombra. Por isso, superar o capitalismo exige mais do que tomar fábricas ou controlar o Estado. Exige desarticular as formas sociais que nos constituem. E por isso considero o Rojava um momento de ruptura, ainda que parcial. Um laboratório vivo onde se tentou, em meio às ruínas da guerra, criar uma forma de vida outra. Estudar essa experiência não é nostalgia. É tarefa política. É responsabilidade histórica. Como diria Robert Kurz: longo e doloroso será o processo de colapso do capitalismo contemporâneo!
    Recuso-me a deixar que o Rojava seja esquecido. Porque sei que novas explosões virão. Sei que a crise do capital abrirá novas fendas. Sei, também, que aquilo que parece enterrado pode germinar. Porque a história não é linear. E quando vier a rachadura, será preciso lembrar o que já foi tentado. Para não repetir erros. Para não temer o novo. Para que, da memória do Rojava, se possa extrair fermento. E não cinzas.

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