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Quando a Avenida Fala Mais Alto

Arlindenor Pedro 19 de fevereiro de 2026 9 minutes read
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Por Arlindenor Pedro –  Professor de História, Filosofia e Sociologia, editor do Blog, Revista Eletrônica e canal YouTube Utopias Pós Capitalistas.
       Ao final do carnaval, já na quarta-feira, fui tomado por uma sensação de que este tão importante evento tem que ser percebido além da festa. Já no momento em que via os desfiles das Escolas de Samba e os blocos ocupando as ruas, percebi que ali não se tratava apenas de música, fantasia e espetáculos. Na verdade, é algo muito maior: Trata-se de narrativas que vão sendo afirmadas, com força estética e política. Nos enredos, nos cantos, nos corpos que dançavam, estava presente uma afirmação consciente da herança africana, da resistência negra e da memória histórica que durante muito tempo foi silenciada ou suavizada. Foi, portanto, diante dessa cena que compreendi com mais nitidez que o Brasil atravessa uma disputa profunda de visões de mundo, e que essa disputa se manifesta cristalinamente na cultura. E, com certeza, o carnaval é um dos palcos desta disputa!
Nos últimos anos, tenho observado também uma mudança que salta aos olhos, ao observar o ambiente nas universidades brasileiras. Os corredores que durante décadas refletiram majoritariamente a presença de estudantes brancos de classe média alta passaram a revelar uma composição social muito mais próxima da realidade demográfica do país. Essa transformação não é meramente simbólica. Ela está ligada diretamente à consolidação da política de cotas raciais, instituída nacionalmente, após muitas lutas, pela Lei n.º 12.711 e atualizada pela Lei n.º 14.723, além de programas como o Programa Universidade para Todos. Juntas, essas políticas já beneficiaram milhões de estudantes ao longo das últimas duas décadas.
Ora, a chegada das comunidades negras e dos povos originários à universidade não é apenas um fenômeno estatístico. Ela representa a entrada de experiências históricas, linguagens, referências culturais e memórias coletivas que estavam ausentes ou sub-representadas nesses espaços. Precisamos entender que, quando o primeiro membro de uma família periférica ingressa em um curso superior, não é apenas um indivíduo que atravessa o portão da instituição. É uma comunidade inteira que se projeta naquele gesto. Sem dúvidas, a política de cotas abriu caminho para que jovens negros e indígenas se tornassem pesquisadores, professores e profissionais qualificados, modificando gradualmente o horizonte de expectativas nas periferias urbanas e nas pequenas cidades.
E, com certeza, essa presença produz efeitos concretos: Amplia o capital cultural nas comunidades de origem, fortalece redes de solidariedade e altera a percepção do que é possível alcançar. O jovem que retorna ao bairro com diploma universitário torna-se referência, rompe ciclos de autorregulação e reconfigura narrativas familiares marcadas por exclusão histórica. Mas, ao mesmo tempo, essa inclusão ocorre em um contexto econômico marcado por precarização do trabalho, automação e financeirização. O diploma já não garante inserção estável como no passado. Assim, a ampliação do acesso ao ensino superior convive com a crise estrutural do mercado de trabalho. Estes são os fatos!
A questão racial no Brasil não pode ser compreendida sem considerar o peso histórico da escravidão e a ausência de políticas de integração após a abolição. O país encerrou formalmente o regime escravocrata em 1888, mas não implementou reformas estruturais que garantissem acesso à terra, à educação ou ao crédito para a população negra libertada. O resultado foi a consolidação de um racismo estrutural que se manifesta não apenas em atitudes individuais, mas na distribuição desigual de oportunidades e recursos. O acesso ao ensino superior público tornou-se, ao longo do século vinte, um dos principais mecanismos de reprodução das elites, legitimado pela retórica da meritocracia.
A meritocracia, porém, sempre operou sobre bases profundamente desiguais. O desempenho acadêmico está condicionado ao acesso prévio a boas escolas, estabilidade familiar e capital cultural acumulado. Ao reconhecer essa assimetria, a Lei de Cotas alterou a lógica de ingresso nas universidades federais, reservando metade das vagas para estudantes oriundos de escolas públicas com recortes de renda e raça. Desde sua implementação plena, estima-se que entre um milhão e meio e dois milhões de estudantes tenham ingressado nas instituições federais por meio desse sistema, além de milhões de bolsas concedidas pelo Prouni em instituições privadas.
Vemos, então, que este movimento de inclusão também começa a produzir efeitos simbólicos nas instituições culturais de maior prestígio. A maior visibilidade de intelectuais indígenas e negros em espaços tradicionalmente elitizados revela uma mudança lenta, porém significativa, no reconhecimento público das matrizes culturais do país.       Um exemplo: A eleição de autores indígenas para a Academia Brasileira de Letras e Academias Regionais sinaliza uma inflexão histórica em instituições que durante décadas refletiram predominantemente a elite branca letrada. Ainda que esses avanços sejam pontuais e insuficientes diante da dimensão da exclusão histórica, eles indicam que a disputa por representação alcança também o campo simbólico das letras e da memória nacional.
É claro, porém, que a resistência às cotas acompanha esse processo desde o início. Em estados como Santa Catarina, o mais radicalizado da União em relação a enfrentamentos raciais, houve episódios de parlamentares que votaram contra políticas afirmativas, mesmo sabendo que isto fere a política inclusiva da Federação. A oposição costuma invocar a igualdade formal perante a lei e a defesa do mérito individual. No entanto, por trás desses argumentos está também a percepção de competição crescente por posições sociais num cenário de estagnação econômica. O medo ronda as famílias de classe média! Quando as oportunidades se tornam escassas, políticas redistributivas são vistas por parcelas da classe média tradicional como ameaça simbólica e material. A reação não é apenas ideológica, mas expressão de insegurança social.
É importante notar aqui que o debate brasileiro insere-se ainda num cenário internacional marcado pelo avanço de discursos nacionalistas e sacralizados. Nos Estados Unidos, o movimento associado ao presidente Donald Trump difundiu retóricas sobre defesa da civilização ocidental e temor de substituição demográfica, numa clara postura de supremacia branca. Na Europa, partidos de direita exploram a narrativa de que o crescimento da população não branca representaria um risco civilizacional. Esses discursos deslocam as tensões econômicas para o campo étnico-cultural e oferecem respostas excludentes à crise global.
Porém, o contraste com o Brasil é evidente. Aqui, a política de cotas não altera a composição demográfica nem promove substituição populacional. Ela busca corrigir desigualdades históricas numa sociedade já marcada pela miscigenação e pela maioria negra e parda. Ainda assim, ambos os contextos respondem a um mesmo pano de fundo: a crise contemporânea da modernização capitalista e a intensificação das disputas por reconhecimento e recursos. A guerra de reordenamento mundial não se dá apenas no campo geográfico. Ela opera claramente no campo político e cultural!
A cena do carnaval com que iniciei esta reflexão retorna então com ainda mais força. A afirmação de uma cultura de origem negra na música, no cinema, nas artes visuais e especialmente nos enredos das Escolas de Samba não é apenas expressão artística. É parte dessa guerra de narrativas. Quando um desfile celebra heróis negros, religiões de matriz africana e episódios de resistência, ele reivindica lugar central para uma história que foi marginalizada. Quando blocos ocupam as ruas com repertórios que falam de periferia, identidade e memória, eles também disputam o imaginário nacional.
Essa guerra de visões de mundo atravessa a universidade, o parlamento, as instituições literárias e a avenida do samba. De um lado, forças que defendem uma identidade nacional homogênea e despolitizada. De outro, movimentos que reivindicam reconhecimento histórico e pluralidade cultural. No entanto, é preciso reconhecer que essa disputa ocorre num horizonte maior que condiciona suas possibilidades e seus limites. A ampliação do acesso à educação, a visibilidade cultural e os avanços institucionais se realizam em meio a uma crise estrutural do sistema capitalista, marcada pela precarização do trabalho, pela financeirização da vida social e pela erosão das promessas de mobilidade e prosperidade universais.
Veja bem: O capitalismo brasileiro, inserido na dinâmica global, mostra sinais claros de esgotamento enquanto modelo capaz de integrar de forma estável as maiorias sociais. A competição por posições escassas, a intensificação das desigualdades e a transformação de direitos em mercadorias alimentam tanto as reações conservadoras quanto as frustrações populares. Nesse contexto, políticas de inclusão, embora necessárias e historicamente justas, encontram limites objetivos impostos por um sistema cuja lógica central é a acumulação e não a realização plena da diversidade humana.
O fato é que, se desejamos uma sociedade verdadeiramente plural, onde a diversidade racial, cultural e histórica não seja tolerada apenas como expressão estética, mas integrada de forma material e igualitária, é preciso ir além dos mecanismos compensatórios. E isto precisa ser deixado bem claro! A construção de um país plural exige superar a lógica que transforma educação, cultura e trabalho em instrumentos de concorrência permanente. Exige pensar formas de organização social onde a riqueza produzida coletivamente seja orientada pela satisfação das necessidades humanas e pelo reconhecimento da dignidade de todos.
A afirmação cultural que vejo no carnaval, a presença ampliada nas universidades e o ingresso de vozes indígenas e negras nas instituições literárias são sinais de transformação.          Mas a consolidação de uma sociedade plural, de seres humanos emancipados, dependerá da capacidade de enfrentar a crise do sistema que estrutura nossas desigualdades. Somente fora dos limites do capitalismo, poderá emergir um horizonte em que pluralidade não seja concessão, mas fundamento da vida social. São minhas, então, estas reflexões de mais um carnaval que acaba na quarta-feira de cinzas.
contato@utopiasposcapitalistas.com

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