
Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor do livro “Crônica de um Mercado sem Pudor” – Colunista convidado.
O Brasil tornou-se uma potência agrícola global sem jamais construir um projeto agrícola nacional.
A notícia de que o país consegue armazenar pouco mais de 60% da própria safra não revela apenas um problema logístico — expõe uma falha estrutural de décadas. Produz-se como campeão mundial, mas planeja-se como periferia exportadora.
Expandiu-se a fronteira agrícola, avançou-se sobre florestas e anunciaram-se recordes sucessivos de colheita, enquanto silos, ferrovias e infraestrutura permaneceram insuficientes.
O latifúndio brasileiro sempre foi eficiente para concentrar terra e renda, nunca para organizar o território.
Grandes propriedades mecanizadas produzem volumes gigantescos destinados ao mercado externo, mas dependem de uma logística precária e de capacidade de armazenagem incompatível com a escala da produção.
O resultado é perverso: a riqueza é privada, o gargalo é público. Esse modelo não surgiu por acaso.
Nos anos 1960, João Goulart tentou enfrentar exatamente essa distorção no âmbito das Reformas de Base. A criação da SUPRA — Superintendência da Política Agrária — previa a desapropriação de terras improdutivas ao longo de rodovias e ferrovias, áreas estratégicas para escoamento e integração econômica. A proposta não era fragmentar a produção, mas racionalizá-la, criando pequenos e médios produtores economicamente viáveis, próximos da infraestrutura e capazes de armazenar e abastecer o mercado interno.
Tratava-se de reorganizar o território produtivo nacional, não de promover caos agrário. Países desenvolvidos fizeram algo semelhante décadas antes. Na França do pós-guerra, reformas fundiárias e políticas territoriais estruturaram a agricultura em unidades produtivas eficientes, apoiadas por cooperativas, crédito e capacidade de armazenamento, integradas ao mercado interno e à indústria alimentar.
O Brasil seguiu caminho oposto. O golpe de 1964 interrompeu qualquer tentativa de reorganização estrutural do campo e transformou a reforma agrária em tabu ideológico. Sessenta anos depois, o país colhe volumes monumentais, mas continua dependente de gargalos básicos. Produzir mais tornou-se sinônimo de progresso, independentemente da capacidade de armazenar ou agregar valor.
O latifúndio contemporâneo não precisa de um Estado planejador — apenas de um Estado permissivo. Desmata-se, planta-se, colhe-se e exporta-se, enquanto investimentos estruturais ficam para depois ou não chegam.
Quando a safra é recorde, celebra-se; quando falta silo, culpa-se o mercado. É a lógica da abundância desorganizada. Não falta terra nem tecnologia; falta projeto nacional.
A concentração fundiária garantiu escala econômica, mas impediu a construção de um sistema equilibrado de produção e armazenamento.
O fantasma da reforma agrária continua sendo invocado como ameaça, quando a verdadeira ameaça é a ausência de qualquer reforma estrutural. O feitiço virou contra o feiticeiro: a estrutura que concentrou terra e poder revelou-se incapaz de sustentar a própria grandeza produtiva. O Brasil colhe como potência, mas administra como periferia. Enquanto a terra permanecer concentrada e o planejamento ausente, cada supersafra será também a prova de um país que produz muito, mas organiza pouco — e transforma abundância em desperdício.
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