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O dia seguinte ao golpe

Luiz Claudio de Almeida 31 de março de 2026 3 minutes read
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Redes Sociais
           
Por Henrique Pinheiro  – Economista e produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária” – Colunista convidado.
      O golpe de 31 de março de 1964 costuma ser lembrado como o dia em que um presidente, o presidente João Goulart, caiu.
     Mas foi no dia seguinte que tudo ficou claro.
      Em 1º de abril, o Brasil já não tinha comando civil.
      O Congresso, sob a condução de Auro de Moura Andrade, declarou vaga a presidência enquanto João Goulart ainda estava no país.
     Tentava-se dar aparência de legalidade a uma ruptura que, na prática, já estava consumada.
Chamaram de legalidade. Chamaram de “Revolução”. Chamaram de redentora — porque todo golpe precisa de um nome que o justifique.
O poder deixou de estar nas urnas e passou para os quartéis.
      E,  o mais impressionante, quase não houve resistência organizada.
Havia tropas legalistas no Sul.                  Brizola insistia em reagir. Havia caminho. Mas Jango decidiu não levar o país a uma guerra civil. Evitou o confronto imediato e abriu espaço para algo que viria depois: uma repressão longa, organizada e silenciosa.
Os dias seguintes mostraram que não se tratava de uma transição, mas de uma mudança profunda. Sindicatos foram fechados, lideranças presas, estudantes perseguidos. A política foi sendo substituída pela ideia de “inimigo interno”.
A partir daí, não havia mais adversários. Havia “subversivos”. E contra eles, tudo passava a ser permitido.
No dia 2 de abril, a Marcha da Família voltou às ruas. Já não era mais pressão — era apoio.
      Empresários, parte da imprensa, setores da classe média e da Igreja viam naquele movimento uma solução para a crise. Enquanto uma parte do país comemorava, outra começava a ser calada.
      Prisões arbitrárias se tornaram comuns. A violência deixou de ser exceção e passou a ser método.
Poucos dias depois, veio o Ato Institucional nº 1.
      Ali, a exceção ganhou forma. Cassações, suspensão de direitos, afastamentos. O Estado passou a decidir quem podia ou não participar da vida pública.
Entre os atingidos estava meu pai.
João Pinheiro Neto, que acreditava em reformas dentro da legalidade, foi cassado sem julgamento, sem defesa, apenas por decisão política. Como tantos outros, teve sua trajetória interrompida.
Esse é o ponto central de 1964. Não foi apenas um golpe militar. Foi o início de um sistema baseado na exceção. As instituições continuaram existindo, mas esvaziadas.
Nada disso aconteceu por acaso.            Houve organização, narrativa e apoio. Os Estados Unidos acompanharam de perto, dentro do contexto da Guerra Fria, e estavam preparados para sustentar o novo regime, se necessário.
O Brasil não virou Cuba. Mas pagou um preço alto. O que se prometia como uma solução rápida durou 21 anos.
       Ao longo desse período, o regime se aprofundou, trazendo censura, perseguição e violência.
Por isso, entender o dia seguinte ao golpe é fundamental. Foi ali que a ruptura deixou de ser um fato isolado e passou a ser um sistema.
A chamada “redentora” não redimiu. Apenas interrompeu a democracia.
E, talvez o ponto mais incômodo seja este: o golpe não venceu apenas pela força. Ele venceu porque foi aceito.
E, no Brasil, quando a ruptura é aceita, ela sempre encontra caminho para voltar.

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