
Por Henrique Pinheiro – Economista e produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor” – Colunista convidado.
Trinta anos se passaram desde que a Curva do S, em Eldorado dos Carajás, foi tingida pelo sangue de vinte e um trabalhadores rurais.
Em 17 de abril de 1996, o que o Estado apresentou como desobstrução de via transformou-se em um massacre amplamente documentado contra famílias que reivindicavam acesso à terra.
Relembrar esta data em 2026 é recusar o esquecimento e enfrentar a impunidade que ainda marca os conflitos agrários no Brasil.
Na década de 1960, durante o governo João Goulart, a SUPRA, Superintendência de Política Agrária, sob a liderança de João Pinheiro Neto, tentou viabilizar a reforma agrária por vias institucionais e democráticas.
Na década de 1960, durante o governo João Goulart, a SUPRA, Superintendência de Política Agrária, sob a liderança de João Pinheiro Neto, tentou viabilizar a reforma agrária por vias institucionais e democráticas.
O plano era claro: desapropriar latifúndios improdutivos às margens de rodovias federais para assentar famílias e criar polos de desenvolvimento social.
O golpe de 1964 interrompeu esse caminho. Sem a reforma estrutural da SUPRA, o Estado abandonou a política agrária e deixou o conflito no campo ser regido pela força.
A chacina de Eldorado dos Carajás foi a expressão mais brutal desse abandono.
A chacina de Eldorado dos Carajás foi a expressão mais brutal desse abandono.
Laudos periciais comprovaram execuções sumárias, com tiros à queima-roupa na nuca e na testa de trabalhadores já rendidos ou feridos. Policiais militares retiraram identificação das fardas e utilizaram armamento pesado contra manifestantes armados apenas com paus e pedras.
A responsabilização judicial foi tardia e limitada, marcada por poucas condenações efetivas, anos depois do massacre.
Três décadas depois, a violência no campo continua sendo uma ferida aberta.
Três décadas depois, a violência no campo continua sendo uma ferida aberta.
Dados da Comissão Pastoral da Terra mostram que o Brasil ainda registra dezenas de assassinatos anuais em conflitos agrários, atingindo indígenas, quilombolas e trabalhadores sem terra.
A impunidade de 1996 tornou-se símbolo de uma estrutura que ainda tolera a morte como instrumento de repressão social.
Entretanto, onde houve morte, floresceu resistência.
Entretanto, onde houve morte, floresceu resistência.
A antiga Fazenda Macaxeira, centro do conflito, tornou-se o Assentamento 17 de Abril.
O que era latifúndio improdutivo converteu-se em polo de produção agroecológica, abastecendo centenas de famílias e demonstrando, na prática, que a terra democratizada gera trabalho, alimento e dignidade, exatamente como previa o projeto defendido por João Pinheiro Neto.
Honrar os mártires de Eldorado no trigésimo aniversário é reconhecer que reforma agrária não é caso de polícia, mas fundamento de democracia. Enquanto o Brasil continuar ignorando a função social da terra e tolerando a violência no campo, seguirá em dívida com os mortos da Curva do S e com o legado interrompido de João Pinheiro Neto.
Honrar os mártires de Eldorado no trigésimo aniversário é reconhecer que reforma agrária não é caso de polícia, mas fundamento de democracia. Enquanto o Brasil continuar ignorando a função social da terra e tolerando a violência no campo, seguirá em dívida com os mortos da Curva do S e com o legado interrompido de João Pinheiro Neto.
O sangue derramado em 1996 continua a exigir justiça e uma reforma que nunca deveria ter sido adiada.
Foto ( Fiocruz ) Eldorado dos Carajás



