
Estreou Mudando de Pele no teatro Sesc Ginástico.
A produção é da Quintal Produções.
O texto de Amanda Wilkin, cuja tradução é de Diego Teza, e dramaturgismo é de Nathalia Cruz, se caracteriza por ser critico, reflexivo, questionador, denso, libertador, transformador, apresenta momentos em que é divertido e outros de tensão, apresenta propostas de conteúdo revolucionário, valoriza as mulheres pretas, antiracista, antipatriarcado, antiopressão, valoriza as ancestralidades, se opõe à sujeição dos corpos femininos pretos, e contemporâneo.
O texto retrata a personagem Mayah, interpretada por Taís Araujo, uma mulher de quase 40 (quarenta) anos, revolucionária, que deseja realizar transformações profundas, quer romper com a reprodução de acordos sociais, emocionais e identitários. Movida por um desejo de ruptura profunda, ela rompe de forma violenta e agressiva
com um ciclo em que precisava se encaixar para manter um trabalho e sustentar um relacionamento desgastado. Resistente, ela explode o ambiente opressivo em que vive, abandona o emprego, o namorado, e parte para iniciar uma travessia de autoconhecimento e transformação, que se realiza a partir do encontro com outras mulheres, Mildred, uma senhora jamaicana de 90 anos que lutou pelos direitos civis, e Kemi, uma jovem que não pede licença para existir. Essas conexões e interações a transformam profundamente, enquanto ela reconhece seu próprio valor e identidade.
Taís Araujo interpreta as três personagens com uma atuação notável e inquestionável. Ela interpreta com qualidade, e emociona, deixando transparecer a postura revolucionária da personagem, transgressora, violenta, transformadora, e radical. Ela não quer mais se adaptar! Ela é uma revolucionária, explosiva, que irrompe de forma surpreendente, causando uma ruptura profunda. Ela não quer mais saber do passado. Passa a desejar viver de uma outra maneira, livre da opressão, olhando do presente em direção ao futuro. Ela contagia! Domina o texto, utilizando uma linguagem de fácil compreensão, uma boa retórica, frases com um ritmo adequado, e usa um vocabulário “violento”, pois sua personagem é violenta, quer causar rupturas. Não se conforma com os acordos sociais vigentes! Domina o palco, preenchendo todos os espaços e se movimentando intensamente pelo mesmo. A atriz realiza um excelente trabalho corporal e de voz, pois além de Mayah, ela interpreta Mildred e Kemi. Estabelece uma boa comunicação com o público. Portanto, uma atuação gloriosa e comovente.
Tais Araujo é a atriz protagonista da peça. Ela domina de forma absoluta. E, para realizar essa apresentação singular, ela é acompanhada por duas musicistas: Dani Nega, que também assina a direção musical, com canções originais, e Layla, responsável por tocar ao vivo instrumentos como a kora africana, uma harpa pouco conhecida no Brasil mas bastante utilizada pelos povos da África Ocidental. Elas complementam e subsidiam Taís com qualidade e contribuem para agigantar ainda mais a apresentação. Layla tem um momento sublime quando toca ao vivo a harpa, dando ao espetáculo um momento de sonoridade agradável e de leveza. O trio forma um louvável “solo coletivo”.
Para uma diretora de teatro, torna-se, praticamente fácil desenvolver um qualitativo trabalho de direção, quando se conta, como dirigida, com uma atriz da magnitude de Taís Araujo . Contudo, não foi só com esse detalhe que contou Yara de Novaes, para conduzir sua importantíssima função. Percebe-se, facilmente, no espetáculo, o dedo de uma mulher e uma profissional de exacerbada sensibilidade, humana e artística, com um olhar aguçado e contemporâneo, que acaba desaguando numa direção de excelência, complexa, correta e bonita. Considero inteligentes as soluções encontradas pela diretora, como a transformação do figurino, e a troca de visagismos, Portanto, uma direção potente e competente.
O figurino de Teresa Nabuco é criativo, elegante, e facilita a movimentação da atriz pelo palco. O figurino sofre uma transformação ao longo do espetáculo, revelando o estado da personagem em camadas, primeiramente desencaixado, com um blazer e calça em tom vinho, para então “mudar de pele” na busca pela plenitude, com collant e calça em dois tons de marrom.
A cenografia criada por André Cortez é adequada, bem solucionada, e distribuída de forma correta pelo palco. Ela inicia com um painel de uma paisagem, que será arrancada e dará visibilidade à mesas com cadeiras, camas, e, ao final, um conjunto de vasos de plantas verdes são dispostos sobre o palco, formando um bonito “jardim”.
A Design de luz Gabriele Souza criou um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação da atriz. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo e dinamismo e complementando as falas.
A Diretora de movimento é Cristina Moura, responsável por criar uma movimentação que auxilia Taís a interpretar três personagens, dando à mesma uma dinâmica intensa e pulsante.
A trilha sonora é adequada, e apresentando uma sonoridade melodiosa e agradável. Músicas em dialetos africanos e o som emitido pela harpa africana são de qualidade. A direção musical de Dani Nega é de qualidade.
A atuação de Taís Araujo e das musicistas acompanhantes, o texto, a direção, cenografia, figurino, iluminação e trilha sonora formam um conjunto coerente e equilibrado, dando um ar de excelência à peça teatral.
Excelente produção cênica!






