
No Reino Unido, atuou como pesquisador no Royal Free Hospital, vinculado à Universidade de Londres, e como pesquisador convidado no Imperial College London, onde aprofundou o estudo quantitativo do movimento e suas implicações clínicas.
No Brasil, foi pioneiro na implantação do primeiro laboratório de biomecânica na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde lecionou por décadas, formando gerações de profissionais e ajudando a consolidar a área no país.
Autor de mais de quarenta trabalhos publicados no Brasil e no exterior, também participou do desenvolvimento de equipamentos, calçados e dispositivos esportivos baseados em princípios biomecânicos.
Hoje, dedica-se a um movimento complementar, traduzir ciência em consciência. Seu trabalho se volta à prevenção de quedas, à preservação da autonomia e à compreensão do corpo ao longo do tempo, não apenas como objeto de estudo, mas como experiência vivida.
JP – Por que você costuma dizer que a queda começa muito antes da queda?
Porque o momento em que o corpo encontra o chão é apenas o final de uma história que já vinha sendo escrita há muito tempo. A queda é o desfecho visível de um processo invisível.
Ela começa quando o corpo perde eficiência sem que a pessoa perceba. Quando a marcha encurta, quando o equilíbrio passa a depender mais da visão, quando a força deixa de sustentar com a mesma segurança. Pequenas concessões vão sendo feitas. Pequenos déficits vão sendo tolerados. Nada disso chama atenção. Até que um dia chama.
Tropeços frequentes, necessidade de apoio para levantar, um receio sutil ao caminhar em determinados ambientes, redução da velocidade da marcha, dificuldade em mudar de direção. São sinais discretos, quase silenciosos, que muitas vezes são tratados como algo natural da idade, quando na verdade representam perda de capacidade funcional.
O risco não está apenas no evento da queda, mas no acúmulo desses pequenos sinais ignorados.
JP – Por que as quedas são tão negligenciadas, mesmo sendo tão frequentes e perigosas?
Porque elas não pertencem a uma única especialidade. Não são vistas como uma doença específica, mas como um acidente. E acidentes, de certa forma, parecem inevitáveis.
Além disso, existe uma certa banalização. Cair faz parte da vida. Todo mundo já caiu. Essa familiaridade cria uma falsa sensação de segurança.
Mas, em determinadas fases da vida, a queda deixa de ser um episódio banal e passa a ser um evento potencialmente devastador. Pode marcar o início de uma perda de autonomia, de confiança e, em muitos casos, de qualidade de vida.
JP – É possível prevenir uma queda mesmo em pessoas que já apresentam sinais de fragilidade?
Não só é possível, como é necessário.
O corpo é adaptável. Mesmo quando já existe perda de força, de equilíbrio ou de coordenação, é possível recuperar parte dessa capacidade. O que não pode acontecer é a inércia.
A prevenção não está em evitar o movimento, mas em qualificar o movimento. Treinar o corpo para reagir melhor, para sustentar melhor, para corrigir melhor. Isso muda completamente a relação da pessoa com o risco.
JP – Existe uma ideia central que você gostaria que as pessoas entendessem sobre o tema?
Sim. A ideia de recurso.
Saúde não é apenas a ausência de doença. É a quantidade de recurso que o corpo possui para lidar com o imprevisto. Força, equilíbrio, coordenação, tempo de reação, tudo isso constitui um patrimônio funcional.
A queda acontece quando esse patrimônio já está comprometido. Por isso, mais importante do que tratar a queda é construir recursos antes que ela aconteça.
JP – Além da sua atuação como médico e pesquisador, você também escreve crônicas no Diário de Petrópolis e mantém presença ativa no Instagram. Como a literatura e a comunicação ajudam a transformar conhecimento científico em algo que realmente muda a vida das pessoas?
A literatura cria pontes. Ela aproxima, traduz, humaniza. Permite que um conceito deixe de ser apenas entendido e passe a ser sentido.
Quando alguém compreende racionalmente um risco, isso informa.
Quando alguém sente esse risco, isso transforma.
Escrever, nesse sentido, não é um adorno.
É uma forma de cuidado.
É também por isso que desenvolvi um curso sobre prevenção de quedas. Porque o conhecimento precisa sair do campo das ideias e entrar na prática. Cuidadores, familiares e os próprios idosos precisam saber como agir, como orientar, como proteger. Saber como ajudar alguém a se levantar com segurança, como reduzir riscos dentro de casa, como reconhecer sinais precoces.
Esse não é apenas um conhecimento técnico.
É um conhecimento de vida.
E é nessa mesma direção que caminha o livro A QUEDA ANTES DA QUEDA, que será lançado em breve. Ele nasce dessa tentativa de olhar para o corpo antes do evento, de compreender o processo antes do acidente, de trazer consciência antes da consequência.
A queda não termina quando o corpo se levanta.
Ela, em muitos casos, apenas troca de endereço.
Instala-se na memória, infiltra-se nos gestos, negocia com a confiança. Há quem continue de pé, mas já não caminhe da mesma forma. O corpo aprende, mas o medo também.
Curiosamente, quase ninguém teme a queda antes dela acontecer.
E quase todos passam a respeitá-la depois.
Talvez aí esteja um traço curioso da nossa natureza, aprendemos com o impacto aquilo que poderíamos ter compreendido com o aviso.
No fim, o chão nunca foi o problema.
Ele cumpre, com notável disciplina, o seu papel desde sempre.
Nós é que insistimos em chegar até ele despreparados, e, não raro, surpresos
Instagram: @mariodonato.dr




