
A despeito da necessidade de reportar, é de comum acordo entre muitos fotojornalistas que certos flagrantes não deveriam ser vistos. Por mais paradoxal que soe essa afirmação, quem trabalha com fotografia de conflitos, com frequência, se indaga a respeito antes e muitas vezes depois do click. A lembrança do que se vive numa zona de guerra traz-se de volta para casa, como um protozoário que, vez ou outra, ativa a memória de experiências intensas. Trata-se de um trabalho marcante, que deixa cicatrizes e cobra um preço alto. Sob o selo da National Geographic, Amor + Guerra (disponível no Disney+) recorta a carreira de uma testemunha singular de alguns dos momentos mais definidores dos últimos 30 anos. Lynsey Addario, vencedora do Pulitzer em 2009, experimentou, ao longo de sua carreira até aqui, situações que já levaram muitos jornalistas a repensar a continuidade de seus trabalhos na cobertura de guerras. Salvou colegas, foi sequestrada e escapou da morte inúmeras vezes. Segue aturando perguntas feitas por homens sobre por que continua neste trabalho desde que se tornou mãe e ainda tenta lidar com uma vida em que sua cabeça nunca está onde deveria estar. Assim como Margaret Bourke-White, Lee Miller, Gerda Taro, Dickey Chapelle, Catherine Leroy, Yunghi Kim, Paula Bronstein, Anja Niedringhaus, Nicole Tung, Lynsey fincou seu nome na história da profissão e redefiniu o fotojornalismo com registros que transcenderam as diversas primeiras capas do NY Times, jornal em que trabalha. Apontando sua câmera para onde o mundo não está olhando, suas imagens educam e complementam, de maneira singular, estatísticas que muitas vezes são notas de rodapé de algumas notícias. Neste doc bem desenvolvido, que trabalha como sua história pessoal e profissional são indissociáveis, ela partilha como entendeu que sua presença em territórios conflagrados se revelou uma oportunidade de falar sobre os direitos das mulheres se insurgindo contra o que se passa em regiões de fortíssima opressão. Para Addario, dentro de sua rotina, reside a necessidade de seguir se convencendo, todos os dias, de que vale a pena estar onde está, sob tanto risco. Que seu trabalho faz diferença ante tanto sacrifício. Para Lynsey, nenhum click parece o suficiente.






