
A era do “copiar e colar” rotinas de skincare parece estar com os dias contados. Cresce nas redes sociais, especialmente no TikTok, o movimento de personalização dos cuidados com a pele, impulsionado por consumidores mais informados e cansados de tendências genéricas que prometem resultados universais.
A mudança de comportamento vem após anos de viralização de rotinas padronizadas, muitas vezes sem respaldo científico. Especialistas observam aumento de casos de irritação, acne e sensibilização causados pelo uso indiscriminado de ativos populares, como ácidos e retinoides, sem avaliação individual.
Para os dermatologistas, a nova fase do skincare é mais estratégica do que estética. A personalização passa a ser vista como essencial não apenas para resultados mais eficazes, mas também para a segurança da pele, reforçando o papel do diagnóstico profissional diante da avalanche de informações digitais.
Conversamos sobre o assunto com a dermatologista Marcella Alves, da Onne Clinic. Confira!
JP – A popularização de rotinas virais pode estar contribuindo para um aumento de problemas de pele nos consultórios? Como você enxerga esse impacto na prática clínica?
Sim, isso já é perceptível na prática clínica. Temos observado um aumento de pacientes com irritação, sensibilização da barreira cutânea, acne inflamatória e dermatites desencadeadas pelo uso inadequado de ativos populares nas redes sociais, especialmente quando há combinação excessiva de ácidos, retinoides e esfoliantes sem orientação profissional.
O problema é que muitas rotinas virais são apresentadas como universais, quando, na verdade, a pele é extremamente individual. O que funciona para uma pessoa pode causar um efeito completamente diferente em outra. Além disso, existe uma tendência ao excesso: muitos pacientes acreditam que mais produtos significam melhores resultados, quando, na verdade, equilíbrio costuma ser mais importante do que quantidade.
Também percebemos um aumento da ansiedade em busca de uma “pele perfeita”, impulsionada por filtros e padrões estéticos irreais nas redes sociais. Isso faz com que algumas pessoas negligenciem sinais de intolerância cutânea em troca de resultados rápidos.
JP – Em um cenário com excesso de informação, como o paciente pode diferenciar uma rotina de cuidados eficaz de uma rotina potencialmente prejudicial?
Uma rotina eficaz costuma ser coerente com o tipo de pele, estilo de vida e necessidades individuais do paciente. Já as rotinas potencialmente prejudiciais geralmente envolvem excesso de etapas, associação inadequada de ativos irritativos ou promessas muito imediatistas.
É importante desconfiar de conteúdos que sugerem transformações rápidas, sem contextualizar riscos, frequência de uso ou possíveis contra indicações. Outro sinal de alerta é quando há estímulo ao uso simultâneo de muitos produtos ativos sem avaliação profissional.
Na maioria dos casos, uma boa rotina não precisa ser complexa. Limpeza adequada, hidratação, fotoproteção e alguns ativos específicos bem indicados costumam trazer mais resultados do que protocolos exageradamente elaborados. A orientação dermatológica continua sendo fundamental para evitar danos silenciosos à barreira da pele.
JP – O conceito de skincare personalizado muda a forma como os resultados devem ser percebidos ao longo do tempo?
Sem dúvida. O skincare personalizado traz uma visão mais realista e sustentável sobre resultados. A pele responde em ciclos biológicos, então consistência e adaptação são mais importantes do que mudanças radicais.
Quando o tratamento é individualizado, o foco deixa de ser apenas uma melhora estética imediata e passa a incluir saúde cutânea, prevenção e manutenção da integridade da pele a longo prazo. Isso também reduz o risco de frustrações causadas por expectativas irreais criadas nas redes sociais.
Além disso, a pele muda ao longo da vida: fatores hormonais, alimentação, estresse, sono, clima e envelhecimento influenciam diretamente nas necessidades cutâneas. Por isso, uma rotina personalizada também precisa ser dinâmica e revisada periodicamente.
JP – Existe um risco de a busca por “resultados rápidos” comprometer a saúde da pele a longo prazo? Como equilibrar expectativa e consistência?
Sim, esse risco existe e tem sido cada vez mais comum. O uso excessivo ou inadequado de ativos pode comprometer a barreira de proteção da pele, favorecendo irritações recorrentes, sensibilidade, manchas e até piora de quadros inflamatórios.
Muitas vezes, o paciente até percebe uma melhora inicial, mas depois desenvolve um efeito rebote ou um quadro de sensibilização persistente. A pele saudável costuma responder melhor a estímulos graduais e consistentes do que a abordagens agressivas.
O equilíbrio acontece quando entendemos que skincare é um cuidado contínuo, não uma solução imediata. Resultados seguros e duradouros normalmente vêm de estratégias bem orientadas, associadas à constância, proteção solar diária e respeito ao tempo biológico da pele.






