
Nos últimos anos, informações sobre saúde passaram a circular com enorme velocidade nas redes sociais. Embora isso facilite o acesso ao conhecimento, também favorece interpretações equivocadas de estudos científicos, especialmente quando resultados isolados são divulgados sem o devido contexto. Foi o que aconteceu com a oxibenzona, uma substância presente em alguns protetores solares que passou a ser alvo de questionamentos sobre sua segurança. Mas afinal, o que a ciência realmente sabe sobre esse ingrediente?
Conversamos com o médico Guilherme Triches, da Onne Clinic (RJ), sobre o assunto. Confira!
JP – O que é a oxibenzona e qual sua função nos protetores solares?
A oxibenzona é um filtro solar químico utilizado há décadas em fotoprotetores. Sua função é absorver a radiação ultravioleta, especialmente UVB e parte da UVA, reduzindo os danos causados pela exposição solar.
Por esse motivo, ela contribui para a prevenção das queimaduras solares, do fotoenvelhecimento e do câncer de pele.
JP – Por que a oxibenzona passou a gerar preocupação?
A discussão ganhou força após estudos demonstrarem que a substância pode ser absorvida pela pele e detectada na circulação sanguínea. Em um estudo publicado no JAMA em 2019, pesquisadores observaram níveis mensuráveis de oxibenzona no sangue após aplicações repetidas em grande parte da superfície corporal.
A partir desses achados, muitas pessoas passaram a associar a absorção da substância a um possível risco à saúde. Entretanto, essa conclusão exige uma análise mais cuidadosa.
JP – Se a oxibenzona é absorvida pela pele, isso significa que ela é tóxica?
A descoberta de que a oxibenzona pode ser absorvida pela pele foi o principal combustível para a controvérsia em torno da substância. Mas existe um detalhe importante que frequentemente se perde nessa discussão: absorção não é sinônimo de toxicidade.
O fato de uma substância atingir a circulação sanguínea não significa, por si só, que ela esteja causando dano ao organismo. Todos os dias somos expostos a moléculas que são absorvidas, metabolizadas e eliminadas sem produzir qualquer efeito adverso clinicamente relevante.
Por isso, do ponto de vista científico, a questão central não é se a oxibenzona é absorvida, mas se essa absorção é capaz de provocar danos mensuráveis à saúde. Até o momento, os estudos realizados em seres humanos não demonstraram associação consistente entre a absorção sistêmica da substância e efeitos adversos clinicamente significativos. Os únicos efeitos adversos claramente documentados são reações alérgicas e fotoalérgicas em indivíduos suscetíveis.
Em outras palavras, detectar uma molécula no organismo é apenas o começo da investigação científica — não sua conclusão.
JP – De onde vêm então os alertas sobre possíveis riscos?
Grande parte da preocupação em torno da oxibenzona surgiu a partir de estudos laboratoriais e experimentos em animais realizados nas últimas duas décadas.
Algumas dessas pesquisas sugeriram que a substância possa atuar como um potencial disruptor endócrino, com possíveis efeitos sobre os sistemas reprodutivo e tireoidiano. Outros estudos também sugeriram danos ao DNA e interferência na síntese de proteínas.
Esses resultados despertaram preocupação e motivaram novas investigações. Entretanto, existe uma limitação importante: a maior parte desses achados foi observada em estudos in vitro ou em animais expostos a condições que nem sempre reproduzem o uso habitual de protetores solares por seres humanos.
Por esse motivo, esses trabalhos são importantes para gerar hipóteses e direcionar pesquisas futuras, mas não permitem concluir, isoladamente, que os mesmos efeitos ocorram em pessoas.
JP – O que os estudos em humanos mostram até agora?
Quando a oxibenzona foi avaliada em seres humanos, os resultados foram diferentes daqueles observados em alguns modelos experimentais.
Uma revisão sistemática publicada em 2020, considerada um dos níveis mais elevados de evidência científica, analisou 29 estudos e não encontrou associação consistente entre níveis elevados de oxibenzona e alterações na fertilidade, nos hormônios reprodutivos, no crescimento fetal ou na maturação sexual.
Os autores concluíram que as evidências atuais são insuficientes para associar a substância a efeitos sistêmicos deletérios em humanos, apesar dos achados conflitantes observados em estudos experimentais.
JP – O benefício do protetor solar supera os riscos teóricos associados à oxibenzona?
Este é o ponto mais importante da discussão.
Enquanto os possíveis riscos da oxibenzona permanecem teóricos e ainda não foram confirmados em humanos, os benefícios da fotoproteção são amplamente comprovados.
Estudos demonstram redução da incidência de câncer de pele, prevenção de ceratoses actínicas, diminuição dos danos ao DNA e proteção contra o fotoenvelhecimento. O estudo Nambour, por exemplo, mostrou redução significativa na incidência de melanoma e carcinoma espinocelular em indivíduos que utilizavam protetor solar regularmente.
Até o momento, órgãos reguladores como o FDA, nos Estados Unidos, e o Comitê Científico de Segurança do Consumidor da União Europeia continuam autorizando o uso da oxibenzona em fotoprotetores dentro dos limites estabelecidos. Ao mesmo tempo, recomendam a realização de novos estudos para ampliar o conhecimento sobre a substância e monitorar continuamente sua segurança.
JP – Existem alternativas para quem prefere evitar a oxibenzona?
Atualmente existem diversos protetores solares formulados sem oxibenzona. Além disso, filtros químicos mais modernos, como bemotrizinol, bisoctrizole e DHHB, apresentam menor absorção cutânea e vêm ganhando espaço nas formulações.
Outra opção são os filtros solares físicos, que utilizam ingredientes minerais para formar uma barreira sobre a pele e apresentam absorção sistêmica praticamente nula, sendo frequentemente recomendados para crianças e gestantes.
JP – Qual é a principal mensagem para o consumidor?
Nem todo risco observado em experimentos se transforma em um risco real para a saúde humana.
A ciência atual demonstra que a oxibenzona pode ser absorvida pela pele, mas não demonstrou, até o momento, que essa absorção resulte em danos sistêmicos clinicamente significativos em seres humanos. Embora estudos experimentais tenham sugerido um possível efeito disruptor endócrino da oxibenzona, essa associação ainda não foi confirmada de forma consistente em seres humanos.
Por outro lado, os benefícios do uso regular do protetor solar na prevenção do câncer de pele e dos danos causados pela radiação ultravioleta são amplamente comprovados. Para quem deseja evitar a oxibenzona, existem alternativas disponíveis.
O importante é não abandonar a fotoproteção com base em interpretações simplificadas ou alarmistas de evidências científicas ainda inconclusivas.






