
Estreou História no teatro do CCBB-RIO 2.
Criação da Companhia Brasileira de Teatro.
O texto final de Marcio Abreu, produto de uma criação coletiva, é uma investigação sobre os limites entre memória, sonho e história oficial; cruza memória individual, memória coletiva e história oficial; fragmentado; constituído por várias cenas; não linear; critico; reflexivo; problematizador da “história oficial”; valoriza a história dos indivíduos simples e humildes; poético; musicado; contemporâneo.
O texto questiona as narrativas validadas como “história oficial”, aquelas produzidas pelos que estão no poder, as elites dirigentes, os ditos vencedores, eivadas de ideologias, priorizando fontes governamentais, e exaltando grandes heróis e criando grandes datas.
O texto se opõe e critica as narrativas elitistas e excludentes, e busca dar voz ás pessoas comuns, simples, aquelas colocadas à margem da sociedade, excluídas, como trabalhadores, mulheres, negros, indígenas, e a comunidade LGBTQIA+. O underground, o sub-mundo passa a ser incorporado, trazendo á baila o universo dos homens e mulheres que vivem na sarjeta.
Como teatro é resistência, essas narrativas inclusivas interessam ao universo teatral, que denuncia as violências, as opressões, as lacunas e os silêncios. São as vozes daqueles que são colocados à margem que são recuperadas e lembradas! Eles também merecem ser registrados!
A história é narrada por meio de diversas versões, não havendo uma verdade única e universal. E o texto questiona, conforme já referimos, a “história oficial”, revista de acordo com novas interpretações. Pois são distintas as versões sobre os tempos pretéritos, e o presente também.
O texto incorpora também a dimensão dos sonhos, argumentado que “a vida é sonho”, e não podemos perdê-los.
O elenco é constituído por dois atores, Carolina Virguez e Rafael Bacelar. Eles estão unidos, entrosados, afinados, pulsantes e vibrantes. Eles apresentam uma interpretação refinada, e emocionam também, pois defendem uma história inclusiva, que incorpore os relatos dos grupos minoritários, e cuja memória se mantenha preservada e não silenciada e apagada ao longo do tempo. Eles dominam o texto, apresentando-o com uma linguagem simples, uma boa retórica, e estabelecendo diálogos com ritmos adequados ás cenas. Eles narram um conjunto de vivências e memórias, por meio de um texto não linear e fragmentado. Há momentos em que eles se apresentam individualmente, narrando memórias individuais, e há outros em que se apresentam juntos, interagindo intensamente, e ativando memórias coletivas. Dominam o palco, se movimentando de forma ilimitada e ocupando todos os espaços. Estabelecem uma boa comunicação com o público. Portanto, uma atuação impecável e comovente.
Em cena, junto com os dois atores, está o músico Felipe Storino. Ele é tão protagonista quanto os dois atores, uma vez que o texto é musicado. Carolina e Rafael interpretam, e Felipe canta e toca guitarra. Eles estão juntos e misturados!
A direção de Marcio Abreu é potente e ousada, com marcações precisas que deixam o espetáculo dinâmico e bem conduzido, potencializando a qualidade das interpretações do elenco.
Os figurinos criados por Luiz Cláudio Silva são adequados, de bom gosto, e facilitam a locomoção dos atores pelo palco. Os figurinos dos dois atores são trocados ao longo do espetáculo, com exceção daquele vestido pelo músico que permanece o mesmo.
A cenografia criada por Marcelo Alvarenga é criativa, bem solucionada, e apresentando os elementos dispostos corretamente pelo palco. Visualizamos um amontoado de escombros, que está situado sob um lado do palco e algumas de suas partes penduradas ao teto. Os escombros são restos de um mundo em ruínas, explodido e em movimento.
Os atores interagem com a cenografia, contracenando com pedaços de pedras, galhos secos, entre outros.
Ao fundo do palco há uma parede branca, e visualizamos estruturas com caixas de som, que emitem sons de vozes gravadas.
A trilha sonora original criada por Felipe Storino é funcional, adequada, e se encaixa com as cenas.
Key Sawao é a responsável pela intensa movimentação corporal dos atores pelo palco, dando agilidade e dinamismo aos mesmos durante o espetáculo.
No nosso ponto de vista o momento marcante da apresentação se dá, já nos finalmentes, quando os dois atores (Carolina e Rafael) e o músico Felipe recitam palavras de forma rimada e com acompanhamento musical “construindo um tabuleiro de palavras souvenirs”. Momento emocionante e poético!
Texto, elenco, direção, figurinos, cenografia e trilha sonora constituem um conjunto coerente e equilibrado, dando o tom de excelência da apresentação.
Excelente e Imperdível produção cênica!






