
JP – Olá Ana Paula! Como se deu o processo de criação do Recomeçar é Possível (RéP)?
O RéP nasceu de uma trajetória que venho construindo desde 2016 no trabalho com a população em situação de rua no Rio de Janeiro. Ao longo desses anos, fui aprendendo, errando, ajustando, e percebendo que a reinserção social só é possível quando parte de uma abordagem integral, que considera a pessoa em todas as suas dimensões. O projeto foi cocriado com pessoas que vivem ou viveram nas ruas, porque acredito profundamente que ninguém conhece melhor essa realidade do que quem a viveu.
JP – O que as pessoas precisam entender sobre quem vive em situação de rua?
Precisam entender, antes de tudo, que estamos falando de pessoas. Com história, com afeto, com capacidade e com sonhos. A situação de rua é uma circunstância, não uma identidade. É o resultado de um conjunto de vulnerabilidades que se somaram de forma muito específica na vida de cada um, e que qualquer um de nós, em outras condições, poderia ter vivenciado. O que mais me preocupa é a naturalização do olhar que desumaniza. Quando passamos por alguém dormindo na calçada e viramos o rosto, estamos, de alguma forma, autorizando que aquela pessoa continue invisível. E invisibilidade, no contexto da rua, é violência. Cada pessoa que atendemos tem um nome, uma trajetória e uma vontade de recomeçar. Nossa função é criar as condições para que esse recomeço seja possível.
JP – Quais são as ações que o projeto realiza?
O RéP está organizado em três pilares que se complementam. O primeiro é o Acesso aos Direitos Básicos: oferecemos banho, higiene, roupas, atendimentos individuais com assistentes sociais e psicólogos, encaminhamentos para documentação e saúde. O segundo pilar é o Resgate da Cidadania, que inclui arteterapia, atividades voltadas especificamente para mulheres cis e trans, e o nosso Coral RéP, além de oficinas de direitos humanos. O terceiro pilar é a Geração de Renda: com a criação do COF-PopRua, um Centro de Orientação e Formação, onde oferecemos algumas formações básicas, além de oficinas de empreendedorismo e encontros de inclusão socioprodutiva. São 1.550 atendimentos previstos no total, entre participantes contínuos e eventuais.
JP – Quais são as maiores dificuldades enfrentadas hoje por uma pessoa em situação de rua?
As dificuldades são muitas e, algumas, se retroalimentam. A ausência de documentação, por exemplo, impede o acesso à saúde, ao emprego, ao Cadastro Único. Sem endereço fixo, a pessoa não consegue abrir uma conta em banco. Sem conta, não recebe transferência de renda. É um ciclo muito cruel. Mas além das barreiras estruturais, existe uma barreira que às vezes é ainda mais difícil de romper: o olhar do outro. O preconceito, a desconfiança, a estigmatização. Quando uma pessoa chega para uma entrevista de emprego depois de anos na rua, ela carrega não só a falta de experiência formal, mas também o peso de um julgamento que vem antes de qualquer palavra ser dita. Por isso, no RéP, trabalhamos tanto a dimensão prática da reinserção quanto o fortalecimento da autoestima e da identidade. Recomeçar precisa ser possível por dentro e por fora.
JP – Quais são as instituições que atuam em parceria com o projeto?
Temos uma rede de parceiros que torna o RéP muito mais rico do que qualquer organização poderia ser sozinha. Além da Petrobras, do Instituto LAR e da People’s Palace Projects do Brasil, que executam o projeto, contamos com outros projetos que atuam com a população em situação de rua, o SISEJUFE, as Redes da Maré e a Arts & Homelessness International. Cada parceiro traz uma competência específica e um olhar próprio. Esse é um projeto que existe porque muita gente acredita nele.
JP – De que forma as pessoas podem participar?
É possível apoiar as organizações parceiras do projeto, acompanhar e divulgar o nosso trabalho nas redes sociais, e, para quem tem interesse em atuar de forma mais direta, temos oportunidades de voluntariado junto ao Instituto LAR. Cada contribuição, por menor que pareça, tem um impacto real na vida de quem está reconstruindo o caminho.
JP – O preconceito ainda é um dos maiores obstáculos para quem tenta recomeçar?
Sim, sem dúvida. E ele se manifesta de formas muito sutis e muito explícitas ao mesmo tempo. O preconceito está na recusa de um empregador em chamar para entrevista. Está no distanciamento de vizinhos quando uma pessoa sai de uma situação de rua e vai morar em habitação social. Está na suposição automática de que quem está na rua faz uso de substâncias, em muitos casos como forma de sobrevivência nas ruas. O que aprendi ao longo desses anos é que o preconceito é, em grande medida, produto do desconhecimento. Quando as pessoas têm a oportunidade real de ouvir uma história, de olhar nos olhos, de entender o que levou alguém àquela situação, o olhar muda. Por isso, a comunicação, a visibilidade e o diálogo também fazem parte do nosso trabalho.
JP – No futuro, como você vê o RéP?
Vejo o RéP como um projeto que pode se tornar referência metodológica para o trabalho com população em situação de rua no Brasil e uma grande possibilidade de pautar política pública. Nossa Jornada de Reinserção Social foi desenvolvida a partir de muita escuta, muita prática e muito aprendizado, e acredito que ela tem muito a contribuir para outras iniciativas. No curto prazo, quero ver mais pessoas com moradia, com trabalho e com documentação. No longo prazo, quero que o RéP ajude a construir um entendimento coletivo de que a reinserção social é possível e que ela exige políticas públicas, compromisso institucional e mudança cultural.
9. Por onde as pessoas podem acompanhar o trabalho de vocês?
As pessoas podem nos acompanhar pelo Instagram do RéP (recomecarepossivel.rep) e também pelo site: www.repbrasil.org
Foto Alexandre Loureiro




