
Por Arlindenor Pedro – Professor de História, Sociologia e Filosofia.
Existe uma imagem da barbárie que já não corresponde ao mundo em que vivemos. Durante muito tempo acreditamos que ela surgiria apenas quando a civilização entrasse em colapso, as instituições deixassem de funcionar e o Estado perdesse a capacidade de impor a ordem. A barbárie seria sempre posterior à civilização. Enquanto a economia produzisse riqueza, os mercados funcionassem e os Estados conservassem sua capacidade de governar, ela permaneceria confinada às margens da sociedade, limitada a guerras, conflitos regionais ou formas residuais de criminalidade. Essa imagem atravessou boa parte do pensamento moderno e tornou-se uma das certezas mais persistentes da cultura política contemporânea.
Essa imagem tornou-se historicamente falsa.
A barbárie não espera o colapso da civilização para manifestar-se. Ela desenvolve-se em seu interior. Não surge apenas quando as instituições deixam de funcionar. Passa a coexistir com elas. Não substitui imediatamente a economia moderna. Integra-se aos seus mecanismos de funcionamento. O que caracteriza o presente não é o desaparecimento da ordem capitalista, mas a transformação das formas através das quais essa ordem continua a reproduzir-se. A violência deixa de ocupar um espaço exterior à vida econômica e passa a desempenhar funções que, durante muito tempo, pertenciam às instituições tradicionais do mercado e do Estado.
Essa mudança possui um significado histórico muito mais profundo do que normalmente se admite. Durante quase dois séculos, o capitalismo apresentou-se como uma força de racionalização da sociedade. Expandiu mercados, unificou sistemas jurídicos, fortaleceu administrações estatais, organizou burocracias, ampliou infraestruturas e submeteu extensas regiões do planeta à lógica da produção de mercadorias. Mesmo quando produzia guerras, destruição e profundas desigualdades, essas experiências eram frequentemente interpretadas como contradições transitórias de um processo histórico cujo horizonte continuava sendo a expansão da modernidade. A violência aparecia como um custo do desenvolvimento, jamais como uma de suas formas permanentes de reprodução.
É precisamente essa representação que deixou de explicar a realidade.
As formas contemporâneas da violência já não podem ser compreendidas apenas como resíduos de um passado pré-moderno nem como simples manifestações da incapacidade dos Estados de exercer plenamente suas funções. Elas participam da própria dinâmica econômica do presente. Em diferentes regiões do mundo, a violência organiza territórios, regula atividades econômicas, disciplina populações, controla recursos naturais, assegura fluxos comerciais e participa diretamente da circulação da riqueza. Já não atua apenas destruindo a ordem existente. Passa a integrar os mecanismos através dos quais essa ordem continua funcionando.
Essa transformação exige uma mudança igualmente profunda na maneira de compreender o capitalismo contemporâneo. Durante muito tempo distinguiu-se com relativa facilidade aquilo que pertencia ao universo da economia daquilo que pertencia ao universo da criminalidade. De um lado estaria a produção legítima da riqueza; de outro, formas ilícitas de apropriação que sobreviveriam nas margens do sistema. Essa distinção tornou-se progressivamente insuficiente. Os circuitos econômicos sempre atravessaram as fronteiras entre o legal e o ilegal. O que mudou foi a escala, a complexidade e a centralidade desse movimento para a própria reprodução do capitalismo contemporâneo. O ouro extraído ilegalmente abastece cadeias industriais globais. Recursos provenientes do narcotráfico retornam ao mercado por meio de investimentos imobiliários, operações financeiras e empresas formalmente constituídas. Mercadorias produzidas sob o controle de organizações armadas percorrem as mesmas redes logísticas utilizadas pelo comércio internacional. A oposição entre economia formal e economia clandestina deixa, assim, de revelar duas realidades distintas e passa a ocultar a unidade de um mesmo processo histórico de acumulação.
Não se trata, portanto, de afirmar apenas que a criminalidade aumentou ou que organizações armadas adquiriram maior capacidade operacional. Esses fenômenos são reais, mas permanecem na superfície do problema. O que exige explicação é outra coisa. Trata-se de compreender por que modalidades de acumulação fundadas na violência, na espoliação, no controle territorial e na dissolução das fronteiras entre legalidade e ilegalidade passaram a ocupar um lugar cada vez mais importante na reprodução da riqueza contemporânea. A questão decisiva já não pertence apenas ao campo da segurança pública ou da criminologia. Ela desloca-se para o terreno da crítica da economia política.
Essa mudança de perspectiva altera inteiramente o objeto da investigação. O problema deixa de ser o crescimento das organizações criminosas. Passa a ser a transformação histórica das formas de reprodução do capital. A violência deixa de aparecer apenas como consequência das contradições sociais. Ela passa a integrar o modo pelo qual essas contradições são administradas, reorganizadas e reproduzidas. A barbárie já não representa apenas a negação da ordem capitalista. Ela começa a participar de sua própria continuidade histórica.
É precisamente essa hipótese que orienta as reflexões desenvolvidas nesta série de ensaios. Não pretendo discutir políticas de segurança pública nem propor estratégias de combate ao crime organizado. Essas questões possuem sua importância, mas permanecem limitadas ao plano dos efeitos. Meu objetivo é outro. Procuro compreender por que a barbárie deixou de representar apenas uma consequência da crise contemporânea para converter-se, progressivamente, em uma das formas através das quais o próprio capitalismo continua a reproduzir-se. Se essa hipótese estiver correta, torna-se necessário revisar não apenas nossa compreensão da criminalidade, mas também a maneira pela qual interpretamos a crise histórica da sociedade da mercadoria.
Essa revisão começa por uma constatação elementar. A maior parte das análises sobre os mercados ilícitos continua procurando respostas no lugar errado. Elas concentram sua atenção nas organizações criminosas, em suas estratégias de expansão, em seu poder econômico e em sua capacidade de corromper instituições. Tudo isso possui relevância, mas permanece na superfície do fenômeno. Nenhuma organização criminosa cria, por si mesma, as condições históricas que tornam possível sua expansão. Essas condições são produzidas por transformações muito mais profundas, que atingem o próprio modo de reprodução do capitalismo contemporâneo.
É exatamente nesse ponto que a investigação precisa mudar de direção. Antes de perguntar por que o crime organizado se fortaleceu, é necessário perguntar o que aconteceu com o próprio capitalismo para que formas de acumulação fundadas na violência, na espoliação e na dissolução das fronteiras entre legalidade e ilegalidade passassem a adquirir um peso econômico cada vez maior. A resposta para essa pergunta não será encontrada nas estatísticas policiais, nem nos relatórios das agências de inteligência ou nos diagnósticos sobre segurança pública. Ela exige uma crítica das próprias categorias através das quais compreendemos o capitalismo.
É justamente essa crise que começarei a investigar nos próximos capítulos. Porque a pergunta decisiva já não é por que a barbárie cresceu. A pergunta decisiva é outra: o que aconteceu com o próprio capitalismo para que a barbárie deixasse de ser apenas uma consequência de sua crise e passasse a integrar suas formas de reprodução?
A barbárie não espera o colapso da civilização para manifestar-se. Ela desenvolve-se em seu interior. Não surge apenas quando as instituições deixam de funcionar. Passa a coexistir com elas. Não substitui imediatamente a economia moderna. Integra-se aos seus mecanismos de funcionamento. O que caracteriza o presente não é o desaparecimento da ordem capitalista, mas a transformação das formas através das quais essa ordem continua a reproduzir-se. A violência deixa de ocupar um espaço exterior à vida econômica e passa a desempenhar funções que, durante muito tempo, pertenciam às instituições tradicionais do mercado e do Estado.
Essa mudança possui um significado histórico muito mais profundo do que normalmente se admite. Durante quase dois séculos, o capitalismo apresentou-se como uma força de racionalização da sociedade. Expandiu mercados, unificou sistemas jurídicos, fortaleceu administrações estatais, organizou burocracias, ampliou infraestruturas e submeteu extensas regiões do planeta à lógica da produção de mercadorias. Mesmo quando produzia guerras, destruição e profundas desigualdades, essas experiências eram frequentemente interpretadas como contradições transitórias de um processo histórico cujo horizonte continuava sendo a expansão da modernidade. A violência aparecia como um custo do desenvolvimento, jamais como uma de suas formas permanentes de reprodução.
É precisamente essa representação que deixou de explicar a realidade.
As formas contemporâneas da violência já não podem ser compreendidas apenas como resíduos de um passado pré-moderno nem como simples manifestações da incapacidade dos Estados de exercer plenamente suas funções. Elas participam da própria dinâmica econômica do presente. Em diferentes regiões do mundo, a violência organiza territórios, regula atividades econômicas, disciplina populações, controla recursos naturais, assegura fluxos comerciais e participa diretamente da circulação da riqueza. Já não atua apenas destruindo a ordem existente. Passa a integrar os mecanismos através dos quais essa ordem continua funcionando.
Essa transformação exige uma mudança igualmente profunda na maneira de compreender o capitalismo contemporâneo. Durante muito tempo distinguiu-se com relativa facilidade aquilo que pertencia ao universo da economia daquilo que pertencia ao universo da criminalidade. De um lado estaria a produção legítima da riqueza; de outro, formas ilícitas de apropriação que sobreviveriam nas margens do sistema. Essa distinção tornou-se progressivamente insuficiente. Os circuitos econômicos sempre atravessaram as fronteiras entre o legal e o ilegal. O que mudou foi a escala, a complexidade e a centralidade desse movimento para a própria reprodução do capitalismo contemporâneo. O ouro extraído ilegalmente abastece cadeias industriais globais. Recursos provenientes do narcotráfico retornam ao mercado por meio de investimentos imobiliários, operações financeiras e empresas formalmente constituídas. Mercadorias produzidas sob o controle de organizações armadas percorrem as mesmas redes logísticas utilizadas pelo comércio internacional. A oposição entre economia formal e economia clandestina deixa, assim, de revelar duas realidades distintas e passa a ocultar a unidade de um mesmo processo histórico de acumulação.
Não se trata, portanto, de afirmar apenas que a criminalidade aumentou ou que organizações armadas adquiriram maior capacidade operacional. Esses fenômenos são reais, mas permanecem na superfície do problema. O que exige explicação é outra coisa. Trata-se de compreender por que modalidades de acumulação fundadas na violência, na espoliação, no controle territorial e na dissolução das fronteiras entre legalidade e ilegalidade passaram a ocupar um lugar cada vez mais importante na reprodução da riqueza contemporânea. A questão decisiva já não pertence apenas ao campo da segurança pública ou da criminologia. Ela desloca-se para o terreno da crítica da economia política.
Essa mudança de perspectiva altera inteiramente o objeto da investigação. O problema deixa de ser o crescimento das organizações criminosas. Passa a ser a transformação histórica das formas de reprodução do capital. A violência deixa de aparecer apenas como consequência das contradições sociais. Ela passa a integrar o modo pelo qual essas contradições são administradas, reorganizadas e reproduzidas. A barbárie já não representa apenas a negação da ordem capitalista. Ela começa a participar de sua própria continuidade histórica.
É precisamente essa hipótese que orienta as reflexões desenvolvidas nesta série de ensaios. Não pretendo discutir políticas de segurança pública nem propor estratégias de combate ao crime organizado. Essas questões possuem sua importância, mas permanecem limitadas ao plano dos efeitos. Meu objetivo é outro. Procuro compreender por que a barbárie deixou de representar apenas uma consequência da crise contemporânea para converter-se, progressivamente, em uma das formas através das quais o próprio capitalismo continua a reproduzir-se. Se essa hipótese estiver correta, torna-se necessário revisar não apenas nossa compreensão da criminalidade, mas também a maneira pela qual interpretamos a crise histórica da sociedade da mercadoria.
Essa revisão começa por uma constatação elementar. A maior parte das análises sobre os mercados ilícitos continua procurando respostas no lugar errado. Elas concentram sua atenção nas organizações criminosas, em suas estratégias de expansão, em seu poder econômico e em sua capacidade de corromper instituições. Tudo isso possui relevância, mas permanece na superfície do fenômeno. Nenhuma organização criminosa cria, por si mesma, as condições históricas que tornam possível sua expansão. Essas condições são produzidas por transformações muito mais profundas, que atingem o próprio modo de reprodução do capitalismo contemporâneo.
É exatamente nesse ponto que a investigação precisa mudar de direção. Antes de perguntar por que o crime organizado se fortaleceu, é necessário perguntar o que aconteceu com o próprio capitalismo para que formas de acumulação fundadas na violência, na espoliação e na dissolução das fronteiras entre legalidade e ilegalidade passassem a adquirir um peso econômico cada vez maior. A resposta para essa pergunta não será encontrada nas estatísticas policiais, nem nos relatórios das agências de inteligência ou nos diagnósticos sobre segurança pública. Ela exige uma crítica das próprias categorias através das quais compreendemos o capitalismo.
É justamente essa crise que começarei a investigar nos próximos capítulos. Porque a pergunta decisiva já não é por que a barbárie cresceu. A pergunta decisiva é outra: o que aconteceu com o próprio capitalismo para que a barbárie deixasse de ser apenas uma consequência de sua crise e passasse a integrar suas formas de reprodução?






