
Por Arlindenor Pedro – Professor de História, Sociologia e Filosofia, editor do Blog Utopias Pós Capitalistas.
Como vou fazer uma viagem à China, junto com a família e os amigos, ocorreu-me uma reflexão que queria dividir com quem quiser aqui .
No Ocidente, sobretudo na Europa, nos Estados Unidos e também em partes da América Latina, existe um pessimismo que ultrapassa as dificuldades econômicas imediatas. É um pessimismo histórico: muita gente já não acredita que seus filhos viverão melhor, que a democracia resolverá os grandes problemas, que o progresso tecnológico produzirá necessariamente bem estar ou que o futuro será melhor que o presente. A própria ideia moderna de progresso perdeu credibilidade. Isto está visível nas pesquisas eleitorais dos últimos meses .
No chamado Oriente, porém, precisamos separar situações muito diferentes. China, Índia, Japão, Coreia do Sul, Vietnã, Indonésia e países árabes não formam um único bloco cultural ou econômico. Tenho visto isto nos vídeos de YouTube de analistas dali .
A China é particularmente interessante. Ali também existem sinais importantes de desencanto: desemprego juvenil, dificuldades no mercado imobiliário, pressão competitiva, jornadas extenuantes e fenômenos como neijuan (内卷), a sensação de competir cada vez mais para obter cada vez menos, e tang ping (躺平), a recusa de participar dessa corrida. Portanto, seria errado imaginar uma juventude chinesa simplesmente otimista.
Mas existe uma diferença fundamental. O pessimismo chinês convive com uma percepção bastante concreta de transformação histórica.
Uma pessoa chinesa de 30 anos cresceu num país radicalmente diferente daquele conhecido por seus pais e avós. Ferrovias de alta velocidade, metrôs, urbanização, infraestrutura digital, indústria avançada, automóveis elétricos, exploração espacial e crescimento da presença internacional chinesa são experiências materiais, não apenas promessas.
Isso cria uma situação quase contraditória: pode haver pessimismo individual e confiança coletiva simultaneamente. Alguém pode estar preocupado com emprego, moradia, casamento ou futuro pessoal e, ao mesmo tempo, acreditar que seu país continuará avançando.
No Japão a situação é diferente. Depois de décadas de crescimento baixo, envelhecimento populacional e estagnação relativa, encontramos algo mais próximo de uma sociedade que aprendeu a viver sem a antiga promessa de crescimento acelerado. Alguns acham que o Japão fez uma parada estratégica. Na Coreia do Sul, por sua vez, existe forte ansiedade entre os jovens, associada à competição educacional, habitação, trabalho e baixíssima natalidade.
E a Índia oferece outro contraste. Apesar das enormes desigualdades, existe uma narrativa poderosa de ascensão nacional, industrialização, tecnologia e aumento da importância geopolítica do país. Algo semelhante, embora em escalas diferentes, pode ser observado em partes do Sudeste Asiático.
Isso nos leva a uma hipótese que considero particularmente interessante.
É esta: o pessimismo contemporâneo talvez não seja simplesmente mundial. Ele parece estar relacionado à posição que cada sociedade ocupa na trajetória da modernização capitalista.
O Ocidente vive algo que poderíamos chamar de crise do futuro. Durante dois séculos, ele se representou como o lugar para onde o restante da humanidade caminhava. Desenvolvimento significava, em grande medida, tornar se parecido com Europa Ocidental e Estados Unidos. Hoje essa certeza desapareceu.
A China encontra se numa posição quase inversa. Ela ainda consegue apresentar crescimento tecnológico, infraestrutura e expansão das forças produtivas como evidências de que há um futuro sendo
Mas eu penso que o fato de uma sociedade conservar confiança no desenvolvimento não significa que tenha escapado da crise da modernidade capitalista. Pode significar apenas que ocupa outra posição temporal dentro dela.
China, Índia e outros países podem experimentar como ascensão aquilo que sociedades ocidentais já começam a experimentar como esgotamento.
Há então uma pergunta ainda mais radical:
será que o Oriente é realmente mais otimista ou simplesmente ainda acredita numa promessa de modernização que perdeu credibilidade no Ocidente?
Estava pensando em perguntar aos chineses, ao contrário se estão otimistas ou pessimista a seguinte questão :
“Você acredita que daqui a vinte anos sua vida será melhor do que é hoje?”
E, depois:
” Você acredita que a China estará melhor daqui a vinte anos?”
Minha hipótese é que as respostas às duas perguntas podem ser surpreendentemente diferentes. E justamente nessa distância entre futuro individual e futuro coletivo pode estar uma das chaves para compreender a China contemporânea.
Pois tenho uma preocupação: este banho de capitalismo torna o indivíduo chinês mais solidário ?
No Ocidente, sobretudo na Europa, nos Estados Unidos e também em partes da América Latina, existe um pessimismo que ultrapassa as dificuldades econômicas imediatas. É um pessimismo histórico: muita gente já não acredita que seus filhos viverão melhor, que a democracia resolverá os grandes problemas, que o progresso tecnológico produzirá necessariamente bem estar ou que o futuro será melhor que o presente. A própria ideia moderna de progresso perdeu credibilidade. Isto está visível nas pesquisas eleitorais dos últimos meses .
No chamado Oriente, porém, precisamos separar situações muito diferentes. China, Índia, Japão, Coreia do Sul, Vietnã, Indonésia e países árabes não formam um único bloco cultural ou econômico. Tenho visto isto nos vídeos de YouTube de analistas dali .
A China é particularmente interessante. Ali também existem sinais importantes de desencanto: desemprego juvenil, dificuldades no mercado imobiliário, pressão competitiva, jornadas extenuantes e fenômenos como neijuan (内卷), a sensação de competir cada vez mais para obter cada vez menos, e tang ping (躺平), a recusa de participar dessa corrida. Portanto, seria errado imaginar uma juventude chinesa simplesmente otimista.
Mas existe uma diferença fundamental. O pessimismo chinês convive com uma percepção bastante concreta de transformação histórica.
Uma pessoa chinesa de 30 anos cresceu num país radicalmente diferente daquele conhecido por seus pais e avós. Ferrovias de alta velocidade, metrôs, urbanização, infraestrutura digital, indústria avançada, automóveis elétricos, exploração espacial e crescimento da presença internacional chinesa são experiências materiais, não apenas promessas.
Isso cria uma situação quase contraditória: pode haver pessimismo individual e confiança coletiva simultaneamente. Alguém pode estar preocupado com emprego, moradia, casamento ou futuro pessoal e, ao mesmo tempo, acreditar que seu país continuará avançando.
No Japão a situação é diferente. Depois de décadas de crescimento baixo, envelhecimento populacional e estagnação relativa, encontramos algo mais próximo de uma sociedade que aprendeu a viver sem a antiga promessa de crescimento acelerado. Alguns acham que o Japão fez uma parada estratégica. Na Coreia do Sul, por sua vez, existe forte ansiedade entre os jovens, associada à competição educacional, habitação, trabalho e baixíssima natalidade.
E a Índia oferece outro contraste. Apesar das enormes desigualdades, existe uma narrativa poderosa de ascensão nacional, industrialização, tecnologia e aumento da importância geopolítica do país. Algo semelhante, embora em escalas diferentes, pode ser observado em partes do Sudeste Asiático.
Isso nos leva a uma hipótese que considero particularmente interessante.
É esta: o pessimismo contemporâneo talvez não seja simplesmente mundial. Ele parece estar relacionado à posição que cada sociedade ocupa na trajetória da modernização capitalista.
O Ocidente vive algo que poderíamos chamar de crise do futuro. Durante dois séculos, ele se representou como o lugar para onde o restante da humanidade caminhava. Desenvolvimento significava, em grande medida, tornar se parecido com Europa Ocidental e Estados Unidos. Hoje essa certeza desapareceu.
A China encontra se numa posição quase inversa. Ela ainda consegue apresentar crescimento tecnológico, infraestrutura e expansão das forças produtivas como evidências de que há um futuro sendo
Mas eu penso que o fato de uma sociedade conservar confiança no desenvolvimento não significa que tenha escapado da crise da modernidade capitalista. Pode significar apenas que ocupa outra posição temporal dentro dela.
China, Índia e outros países podem experimentar como ascensão aquilo que sociedades ocidentais já começam a experimentar como esgotamento.
Há então uma pergunta ainda mais radical:
será que o Oriente é realmente mais otimista ou simplesmente ainda acredita numa promessa de modernização que perdeu credibilidade no Ocidente?
Estava pensando em perguntar aos chineses, ao contrário se estão otimistas ou pessimista a seguinte questão :
“Você acredita que daqui a vinte anos sua vida será melhor do que é hoje?”
E, depois:
” Você acredita que a China estará melhor daqui a vinte anos?”
Minha hipótese é que as respostas às duas perguntas podem ser surpreendentemente diferentes. E justamente nessa distância entre futuro individual e futuro coletivo pode estar uma das chaves para compreender a China contemporânea.
Pois tenho uma preocupação: este banho de capitalismo torna o indivíduo chinês mais solidário ?




