
Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
O Rio quase não tem outono. Então as amendoeiras resolveram inventar um.
Nesta época do ano, suas folhas passam pelo amarelo, pelo vermelho, pelo marrom e cobrem as calçadas. Por alguns dias, o Rio tropical ganha uma paisagem emprestada de outro lugar.
Talvez porque a própria amendoeira tenha vindo de outro lugar.
Originária da Ásia, chegou ao Rio no século XIX e se adaptou tão bem que hoje parece tão carioca quanto o botequim, o calçadão e a praia.
Drummond se encantou por ela. Minha mãe, nem tanto.
Ela reconhece a beleza. O problema começa quando baixa os olhos.
Pragueja contra as raízes que levantam as calçadas e contra os caroços espalhados pelo caminho. Quando encontra um, dá-lhe um chute para a rua.
“Isso transforma qualquer sapato em patins.”
E repete: “No Rio, tem que andar olhando para o chão.”
Um dia descobri que ela tinha razão.
Pisei distraidamente num caroço e, por alguns segundos, experimentei uma modalidade esportiva genuinamente carioca.
Surfei numa amendoeira. Não caí. Mas, nunca mais esqueci.
Minha mãe também implica com as pedras portuguesas e os buracos das calçadas cariocas.
Quase todo ano, quando ia me visitar em Miami, fazia questão de elogiar as calçadas.
Miami, para ela, era mais uma visita ao filho e à nora no caminho de Nova York. Nova York, essa sim, sua paixão.
Mas havia uma coisa em Miami que ela sempre elogiava:
“Que calçadas maravilhosas.” E, são mesmo.
Lisas, regulares, impecáveis e pensadas para a acessibilidade, com rebaixamentos nas esquinas para cadeiras de rodas. Sem pedras portuguesas soltas, sem buracos e sem raízes criando armadilhas para quem passa.
Só existe um problema.
Elas são tão limpas e tão claras que, sob o sol de Miami, parecem espelhos. Refletem a luz de volta para quem tem coragem de estar caminhando.
Porque esse é o paradoxo.
Miami fez calçadas excelentes para caminhar.
Só esqueceu de plantar sombra para quem caminha.
Miami é uma cidade muito mais jovem que o Rio. Durante boa parte do século XIX, o extremo sul da Flórida permanecia pouco desenvolvido, entre manguezais, áreas pantanosas e uma natureza tropical que parecia ter pouca utilidade econômica.
Até que apareceu um daqueles personagens que ajudam a explicar os Estados Unidos. Henry Morrison Flagler (1830–1913).
Empresário e um dos fundadores da Standard Oil, Flagler percebeu que aquela Flórida tropical poderia valer uma fortuna justamente por aquilo que parecia seu maior problema.O clima.
A Flórida, que havia pertencido à Espanha e passado ao controle americano em 1821, tinha algo que o Norte dos Estados Unidos não podia oferecer durante meses: calor.
Flagler levou sua estrada de ferro pela costa. Desenvolveu hotéis e empreendimentos em Palm Beach e, em 1896, os trilhos chegaram a Miami.
A geografia começou a virar negócio.
Enquanto Nova York, Boston e Chicago enfrentavam neve e temperaturas abaixo de zero, a Flórida oferecia sol, praia e inverno de mangas curtas.
Vieram os turistas.
Depois os chamados snowbirds, habitantes do Norte que passam os meses frios na Flórida e voltam para casa quando chega a primavera.
Miami cresceu.
Miami Beach viria depois, e sua famosa paisagem Art Déco seria construída principalmente nas décadas de 1920 e 1930. Hotéis, avenidas, condomínios, piscinas, praias. Construíram uma cidade para viver ao sol. Só esqueceram de uma coisa: a sombra.
No verão de Miami, que parece durar quatro meses sem pedir licença, caminhar algumas quadras pode se transformar numa prova de resistência.
O sol vem de cima.
E as calçadas impecáveis devolvem a luz de baixo.
É quando penso nas amendoeiras do Rio. Nós reclamamos delas.
Reclamamos das raízes que levantam as calçadas, das folhas que caem aos montes e dos caroços que transformam pedestres distraídos em surfistas involuntários.
Mas basta atravessar algumas ruas cariocas debaixo do sol para entender o que elas representam.
São enormes barracas de praia plantadas pela cidade.
Você entra debaixo de uma amendoeira e parece que alguém diminuiu a temperatura.
Miami tem calçadas melhores.
O Rio tem sombras melhores.
Minha mãe provavelmente escolheria uma solução simples: as calçadas de Miami com as amendoeiras do Rio.
Só exigiria uma condição.
Que alguém tirasse os caroços do caminho.
Hoje, quando encontro um deles numa calçada carioca, faço o que aprendi com ela. Dou um chute e mando para a rua. Não apenas para não cair.Para que o próximo também não caia.E, quando caminho sob o sol escaldante de Miami, penso na ironia.
No, Rio, reclamamos da árvore porque ela quebra a calçada.
Em Miami, temos a calçada maravilhosa.
E, daríamos tudo por uma amendoeira.
Nesta época do ano, suas folhas passam pelo amarelo, pelo vermelho, pelo marrom e cobrem as calçadas. Por alguns dias, o Rio tropical ganha uma paisagem emprestada de outro lugar.
Talvez porque a própria amendoeira tenha vindo de outro lugar.
Originária da Ásia, chegou ao Rio no século XIX e se adaptou tão bem que hoje parece tão carioca quanto o botequim, o calçadão e a praia.
Drummond se encantou por ela. Minha mãe, nem tanto.
Ela reconhece a beleza. O problema começa quando baixa os olhos.
Pragueja contra as raízes que levantam as calçadas e contra os caroços espalhados pelo caminho. Quando encontra um, dá-lhe um chute para a rua.
“Isso transforma qualquer sapato em patins.”
E repete: “No Rio, tem que andar olhando para o chão.”
Um dia descobri que ela tinha razão.
Pisei distraidamente num caroço e, por alguns segundos, experimentei uma modalidade esportiva genuinamente carioca.
Surfei numa amendoeira. Não caí. Mas, nunca mais esqueci.
Minha mãe também implica com as pedras portuguesas e os buracos das calçadas cariocas.
Quase todo ano, quando ia me visitar em Miami, fazia questão de elogiar as calçadas.
Miami, para ela, era mais uma visita ao filho e à nora no caminho de Nova York. Nova York, essa sim, sua paixão.
Mas havia uma coisa em Miami que ela sempre elogiava:
“Que calçadas maravilhosas.” E, são mesmo.
Lisas, regulares, impecáveis e pensadas para a acessibilidade, com rebaixamentos nas esquinas para cadeiras de rodas. Sem pedras portuguesas soltas, sem buracos e sem raízes criando armadilhas para quem passa.
Só existe um problema.
Elas são tão limpas e tão claras que, sob o sol de Miami, parecem espelhos. Refletem a luz de volta para quem tem coragem de estar caminhando.
Porque esse é o paradoxo.
Miami fez calçadas excelentes para caminhar.
Só esqueceu de plantar sombra para quem caminha.
Miami é uma cidade muito mais jovem que o Rio. Durante boa parte do século XIX, o extremo sul da Flórida permanecia pouco desenvolvido, entre manguezais, áreas pantanosas e uma natureza tropical que parecia ter pouca utilidade econômica.
Até que apareceu um daqueles personagens que ajudam a explicar os Estados Unidos. Henry Morrison Flagler (1830–1913).
Empresário e um dos fundadores da Standard Oil, Flagler percebeu que aquela Flórida tropical poderia valer uma fortuna justamente por aquilo que parecia seu maior problema.O clima.
A Flórida, que havia pertencido à Espanha e passado ao controle americano em 1821, tinha algo que o Norte dos Estados Unidos não podia oferecer durante meses: calor.
Flagler levou sua estrada de ferro pela costa. Desenvolveu hotéis e empreendimentos em Palm Beach e, em 1896, os trilhos chegaram a Miami.
A geografia começou a virar negócio.
Enquanto Nova York, Boston e Chicago enfrentavam neve e temperaturas abaixo de zero, a Flórida oferecia sol, praia e inverno de mangas curtas.
Vieram os turistas.
Depois os chamados snowbirds, habitantes do Norte que passam os meses frios na Flórida e voltam para casa quando chega a primavera.
Miami cresceu.
Miami Beach viria depois, e sua famosa paisagem Art Déco seria construída principalmente nas décadas de 1920 e 1930. Hotéis, avenidas, condomínios, piscinas, praias. Construíram uma cidade para viver ao sol. Só esqueceram de uma coisa: a sombra.
No verão de Miami, que parece durar quatro meses sem pedir licença, caminhar algumas quadras pode se transformar numa prova de resistência.
O sol vem de cima.
E as calçadas impecáveis devolvem a luz de baixo.
É quando penso nas amendoeiras do Rio. Nós reclamamos delas.
Reclamamos das raízes que levantam as calçadas, das folhas que caem aos montes e dos caroços que transformam pedestres distraídos em surfistas involuntários.
Mas basta atravessar algumas ruas cariocas debaixo do sol para entender o que elas representam.
São enormes barracas de praia plantadas pela cidade.
Você entra debaixo de uma amendoeira e parece que alguém diminuiu a temperatura.
Miami tem calçadas melhores.
O Rio tem sombras melhores.
Minha mãe provavelmente escolheria uma solução simples: as calçadas de Miami com as amendoeiras do Rio.
Só exigiria uma condição.
Que alguém tirasse os caroços do caminho.
Hoje, quando encontro um deles numa calçada carioca, faço o que aprendi com ela. Dou um chute e mando para a rua. Não apenas para não cair.Para que o próximo também não caia.E, quando caminho sob o sol escaldante de Miami, penso na ironia.
No, Rio, reclamamos da árvore porque ela quebra a calçada.
Em Miami, temos a calçada maravilhosa.
E, daríamos tudo por uma amendoeira.





