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Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza o livro “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades”, é autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor” – Colunista convidado.
Na manhã de 24 de agosto de 1954, um tiro disparado dentro do Palácio do Catete mudou para sempre a história do Brasil. Getúlio Vargas estava morto. O presidente havia sido atingido no peito por um disparo de revólver calibre 32.
A versão que atravessou mais de sete décadas é conhecida: politicamente cercado, pressionado por setores das Forças Armadas e diante de uma crise que parecia não oferecer saída, Getúlio tirou a própria vida. Mas a história raramente consegue impedir que perguntas sobrevivam aos fatos.
Passados 72 anos, ainda existem brasileiros que perguntam se Getúlio realmente se suicidou. O quarto foi adequadamente preservado? Quem entrou primeiro? O corpo foi movimentado? A investigação realizada naquele momento de enorme convulsão política foi suficientemente rigorosa?
São perguntas legítimas. Mas é preciso separar a dúvida da evidência. Ao contrário do que algumas versões repetidas ao longo dos anos sugerem, houve perícia. Existem laudos do local, exame da arma e do projétil, exame cadavérico, fotografias e registros policiais. Até hoje, nenhuma evidência conhecida conseguiu demonstrar que Getúlio Vargas tenha sido assassinado.
Há ainda uma interpretação curiosa, repetida por alguns estudiosos e por pessoas que conviveram com ele. Getúlio era conhecido pelo cuidado com sua aparência e com a imagem que projetava publicamente. Para alguns, isso ajudaria a explicar a escolha de um tiro no peito, e não na cabeça. Mesmo diante da morte, teria preservado o rosto pelo qual seria lembrado. É uma interpretação, não uma certeza histórica.
Talvez a pergunta mais interessante sobre aquela madrugada não esteja propriamente dentro do quarto. Talvez esteja do lado de fora dele.
O Brasil vivia uma crise que se agravara dramaticamente desde o atentado da Rua Tonelero, em 5 de agosto de 1954. Carlos Lacerda sobrevivera ferido. O major Rubens Vaz, da Aeronáutica, fora morto. Quando as investigações chegaram a integrantes da guarda pessoal do presidente, especialmente a Gregório Fortunato, o cerco político se fechou.
A investigação conduzida na Base Aérea do Galeão ganhou enorme dimensão. Era a chamada República do Galeão. Carlos Lacerda, a UDN e setores importantes da imprensa intensificavam os ataques ao governo. Na Aeronáutica e em outros setores militares crescia a exigência de afastamento do presidente. Getúlio estava cada vez mais isolado.
Na noite de 23 para 24 de agosto, o Palácio do Catete tornou-se o centro de uma das madrugadas mais dramáticas da República. Ministros foram convocados. Militares discutiam a permanência do presidente. Familiares acompanhavam a deterioração da situação.
Getúlio admitiu licenciar-se temporariamente, desde que a ordem constitucional fosse preservada. A solução não encerrou a crise. A pressão por sua saída continuou.
Poucas horas depois, Getúlio recolheu-se aos seus aposentos. Na manhã de 24 de agosto, ouviu-se o tiro. Sobre a cama estava o homem que, entre ditadura e democracia, revolução e voto popular, havia dominado a política brasileira por quase um quarto de século.
E então surgiu outro documento que mudaria completamente o sentido daquela morte: a Carta-Testamento. Com ela, o suicídio deixou de ser apenas uma tragédia pessoal e transformou-se imediatamente em um acontecimento político. “Saio da vida para entrar na História” tornou-se uma das frases mais conhecidas do século XX brasileiro.
A reação popular foi explosiva. Multidões foram às ruas. Jornais identificados com a oposição foram atacados. A queda de Getúlio, que parecia iminente algumas horas antes, transformou-se numa derrota política para muitos de seus adversários. O homem estava morto. Mas o getulismo sobreviveria.
Por isso, talvez a pergunta que permaneça não seja apenas se Getúlio Vargas cometeu suicídio. Assassinado? Até hoje, nenhuma prova conhecida derrubou a conclusão de que ele próprio disparou a arma.
Mas teria sido politicamente “suicidado”?
Um presidente pode apertar o gatilho e, ainda assim, ter sido conduzido ao limite por circunstâncias construídas ao seu redor? Essa é uma pergunta que pertence menos à perícia criminal e mais à História.
O tiro pode ter sido de Getúlio. Mas as circunstâncias que o levaram até aquele quarto foram construídas por muitas mãos.
Setenta e dois anos depois, talvez seja justamente por isso que aquela manhã de agosto continue despertando tantas paixões.
Suicídio ou suicidado?
A conclusão, deixo para o leitor.






