
Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, organiza o livro “Crônicas que nunca contaram na escola”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor” – Colunista convidado.
Voltei de Ipanema com mais uma história para contar.
Estava sentado num café quando entraram dois meninos. Um devia ter uns dezessete anos, o outro talvez sete ou oito. Eram pretos, mal vestidos. O mais velho estava descalço.
O menor olhou para minha mesa e apontou para o brownie que acompanhava o café. Aquele quadradinho que adoça o amargor do espresso. Não uso açúcar há muitos anos. Entreguei o brownie imediatamente. Era o mínimo que eu podia fazer.
Mal tiveram tempo de agradecer.
Entrou um homem enorme, forte, preto também. Fazia a segurança daquela esquina. Aproximou-se dos dois e indicou a porta.
O mais velho reagiu.
— Nós não somos ladrões. Temos dinheiro.
Abriu a mão e mostrou algumas notas amassadas.
O segurança não quis conversar. Fez um movimento firme para retirá-los.
Foi quando o menor disparou:
— Você está nos expulsando porque somos pretos.
Sem hesitar, o segurança respondeu:
— Eu também sou preto.
E o menino retrucou:
— Mas você é um preto que só gosta de branco.
Tudo aconteceu em segundos. Os meninos foram embora sem comprar nada. Talvez fossem comprar. Talvez não. Nunca saberei.
Estava sentado num café quando entraram dois meninos. Um devia ter uns dezessete anos, o outro talvez sete ou oito. Eram pretos, mal vestidos. O mais velho estava descalço.
O menor olhou para minha mesa e apontou para o brownie que acompanhava o café. Aquele quadradinho que adoça o amargor do espresso. Não uso açúcar há muitos anos. Entreguei o brownie imediatamente. Era o mínimo que eu podia fazer.
Mal tiveram tempo de agradecer.
Entrou um homem enorme, forte, preto também. Fazia a segurança daquela esquina. Aproximou-se dos dois e indicou a porta.
O mais velho reagiu.
— Nós não somos ladrões. Temos dinheiro.
Abriu a mão e mostrou algumas notas amassadas.
O segurança não quis conversar. Fez um movimento firme para retirá-los.
Foi quando o menor disparou:
— Você está nos expulsando porque somos pretos.
Sem hesitar, o segurança respondeu:
— Eu também sou preto.
E o menino retrucou:
— Mas você é um preto que só gosta de branco.
Tudo aconteceu em segundos. Os meninos foram embora sem comprar nada. Talvez fossem comprar. Talvez não. Nunca saberei.
Mas saí dali carregando aquela frase.
No dia seguinte voltei à mesma esquina.
Encontrei o segurança no mesmo lugar, soberano naquele pequeno território entre bares, restaurantes e o café.
Apresentei-me, disse que moro fora do Brasil, mas sou carioca, e contei que gosto de escrever sobre o cotidiano da cidade. Perguntei se ele se lembrava do episódio.
Lembrou.
A conversa começou.
Contou que já foi chamado de macaco muitas vezes.
— Não ligo mais.
Depois falou com orgulho:
— Desde que estou aqui, faz um ano, roubo de celular, cordão de ouro e relógio caiu a zero.
Perguntei quem ele era.
Descobri que não era funcionário de nenhum daqueles estabelecimentos.
Era terceirizado.
Cuidava de três “postos”, como chamava os estabelecimentos comerciais pelos quais era responsável.
Seu patrão, um ex-policial militar, administrava dezoito desses “postos” entre o Leblon e Ipanema.
— Quanto você ganha?
— Dois mil e duzentos reais por mês.
— Trabalho vinte e quatro horas seguidas, duas vezes por semana.
— Tem carteira assinada?
Ele riu.
— Nada, doutor. Recebo um Pix no fim do mês.
Perguntei se podia portar arma.
Disse que não.
Na Zona Sul isso cabe apenas à Guarda Presente.
Então fiz outra pergunta.
No dia seguinte voltei à mesma esquina.
Encontrei o segurança no mesmo lugar, soberano naquele pequeno território entre bares, restaurantes e o café.
Apresentei-me, disse que moro fora do Brasil, mas sou carioca, e contei que gosto de escrever sobre o cotidiano da cidade. Perguntei se ele se lembrava do episódio.
Lembrou.
A conversa começou.
Contou que já foi chamado de macaco muitas vezes.
— Não ligo mais.
Depois falou com orgulho:
— Desde que estou aqui, faz um ano, roubo de celular, cordão de ouro e relógio caiu a zero.
Perguntei quem ele era.
Descobri que não era funcionário de nenhum daqueles estabelecimentos.
Era terceirizado.
Cuidava de três “postos”, como chamava os estabelecimentos comerciais pelos quais era responsável.
Seu patrão, um ex-policial militar, administrava dezoito desses “postos” entre o Leblon e Ipanema.
— Quanto você ganha?
— Dois mil e duzentos reais por mês.
— Trabalho vinte e quatro horas seguidas, duas vezes por semana.
— Tem carteira assinada?
Ele riu.
— Nada, doutor. Recebo um Pix no fim do mês.
Perguntei se podia portar arma.
Disse que não.
Na Zona Sul isso cabe apenas à Guarda Presente.
Então fiz outra pergunta.
— Mas essa função não deveria ser do Estado?
Ele respondeu sem pensar:
Ele respondeu sem pensar:
— A Guarda prende. Os meninos entram por uma porta e saem pela outra.
Depois mudou completamente o tom.
— Vou pedir demissão.
Achei que fosse pelo salário.
Não.
— Os restaurantes que eu protejo não me deixam usar o banheiro. Quando preciso, faço minhas necessidades na praça ou na rua.
Fiquei sem resposta.
Antes de irmos embora, contou que estava fazendo uma rifa para tirar a carteira de motorista.
Queria comprar uma moto e trabalhar com entregas.
Ajudei com algum dinheiro.
Ele sorriu como quem recebe muito mais do que recebeu.
Perguntei sua idade.
Vinte e sete anos.
Mora na favela do Jacaré.
Voltei para casa pensando menos naquela esquina e mais na sorte.
Meu pai dizia que eu e minhas irmãs tínhamos a obrigação de dar certo.
“Levantem as mãos para o céu e agradeçam. Nascer numa família privilegiada no Brasil é como ganhar na loteria.”
Na época eu não entendia.
Hoje entendo.
No Brasil, a vida começa desigual. Quem nasce no CEP certo recebe boas escolas, segurança, redes de proteção e oportunidades. Quem nasce no CEP errado precisa lutar primeiro para ter o direito de sonhar.
Num país onde as oportunidades não são iguais, o acaso do nascimento pesa demais sobre o destino.
Ajudei com algum dinheiro.
Ele sorriu como quem recebe muito mais do que recebeu.
Perguntei sua idade.
Vinte e sete anos.
Mora na favela do Jacaré.
Voltei para casa pensando menos naquela esquina e mais na sorte.
Meu pai dizia que eu e minhas irmãs tínhamos a obrigação de dar certo.
“Levantem as mãos para o céu e agradeçam. Nascer numa família privilegiada no Brasil é como ganhar na loteria.”
Na época eu não entendia.
Hoje entendo.
No Brasil, a vida começa desigual. Quem nasce no CEP certo recebe boas escolas, segurança, redes de proteção e oportunidades. Quem nasce no CEP errado precisa lutar primeiro para ter o direito de sonhar.
Num país onde as oportunidades não são iguais, o acaso do nascimento pesa demais sobre o destino.






