
“Lázár” (Record, R$ 74,90), de Nelio Bidermann, é um paradoxal romance de estreia de um jovem autor, baseado na história de sua aristocrática família e os impactos sociais das reviravoltas políticas na Hungria ao longo do século XX. À parte o interesse nas características de personagens cujos destinos deveriam ser geneticamente traçados, a leitura surpreende pela escolha temática e o estilo narrativo levemente antiquado. Bidermann, hoje com 23 anos, conseguiu trazer frescor a um gênero de narrativa desprezado por escritores de sua faixa etária, mais centrada nas angústias existenciais de sua geração, inquieta entre paixões fugazes que não podem se solidificar em relações duradouras, por temor à perda da liberdade individual.
E é da falta de liberdade e da prisão de convenções que Biedermann aborda. Com segurança, ele retrata épocas e ambientes dos quais só ouviu falar. Não vivenciou os traumas dos que foram aos fronts de batalhas com exércitos de outros países, nem testemunhou o domínio dos soviéticos na administração da Hungria. Quando nasceu, as propriedades da família – mansões e terrenos produtivos – já haviam sido requeridas para uso coletivo (uma das casas virou um hospital psiquiátrico). O enlevo juvenil de Biedermann ao abordar os primeiros amores dos personagens adolescentes é compensado por uma delicada discrição ao descrever as entregas puramente sexuais, bem ao estilo da literatura do século XIX.
Esse exercício de recriação de uma forma literária abandonada começou quando Nelio Biedermann estava com dezesseis anos. Aos vinte, o romance foi lançado. Inicialmente arrebatador, com sugestões da presença de entidades sobrenaturais que acompanham o cotidiano daquela família abastada, logo se desdobra em esclarecimentos realistas para os delírios de cada personagem, recolhidos a uma existência privilegiada, protegidos das ebulições de uma sociedade em transformação acelerada. É naquele ambiente em que o tempo parou que o bebê Lajos impressiona a todos por sua pele “translúcida” e grandes olhos azuis. Ninguém desconfia que o menino, sem qualquer semelhança física com o pai, o poderoso Sándor Von Lázár, seja fruto do envolvimento da insatisfeita adúltera Mária com um cavalariço. Depois da morte acidental do amante, a baronesa tem surtos depressivos frequentes culminando com seu suicídio, uma resposta, talvez, ao isolamento imposto pelo marido, que prefere morar na cidade com a amante. No castelo, além de Mária e dos filhos, vive o irmão mais velho do barão, Imre, que perdeu o título nobiliárquico por sinais claros de demência ao deixar a adolescência.
As alucinações comuns a todos os parentes, por doença mental, fantasia infantil ou consumo de álcool, somam-se aos abalos sofridos pela família diante das transições do país – desde a queda do Império Austro-Húngaro, a ascensão do fascismo e a imposição do regime soviético. Despojados das propriedades, são obrigados a viver modestamente sob o socialismo. A saga familiar, fascinante, devido, talvez, à elegância anacrônica no desenvolvimento da trama, encaminha-se para um epílogo historicamente previsível, indicando o início de uma nova era para os aristocratas decaídos, embora o mundo não se torne socialmente igualitário.
Lília Refle se inspirou em sua própria infância de pobreza extrema e um intenso desejo de estudar para criar a trajetória de Zulmira, menina de 10 anos, protagonista de “A cor da felicidade” (Patuá, R$ 60). Criada em meio a 17 irmãos na cidade baiana de Itamaraju, Lília defende a educação como forma de inclusão social, como dizia sua mãe, que, diante da carência de vagas em colégios de sua região, teve de permanecer na fila do portão da escola por duas noites para matricular a filha na alfabetização. O livro, quarto romance de Lília, será lançado neste sábado, às 17h, no Centro Cultural Recipiente Porongo (Rua Pinheiro Guimarães, 34, Botafogo).
A ironia, o deboche ou o perigoso discurso de ódio, que parecem dominar os comentários em postagens nas redes sociais, servem de matéria prima para 46 poemas da carioca Diana de Hollanda. Reunidos em “Você leu os comentários?” (Teatro da Mente, R$ 40) e inspirado em mensagens diretas, transcrições, tutoriais e outros materiais retirados da internet, os poemas propõe a investigação da linguagem digital contemporânea. Na poesia, Diana aponta a pouca atenção, o vício em dopamina, a espetacularização do cotidiano para obtenção do reconhecimento público, além da violência, poder e pertencimento que permeiam os discursos nas redes. O livro foi patrocinado pelo governo do Estado do Rio de Janeiro, depois de participar de edital de apoio à cultura.
O retorno de um homem à sua cidade natal, às margens do Rio São Francisco, é um resgate de suas lembranças do tempo em que ali morava, junto à família. Em “O solo das águas – Meio século de memórias” (Autografia, R$ 79,90), Jean Mendonça, traça a via-crucis do personagem que, na Semana Santa, aos 50 anos, precisa se entender com o passado, percebendo que sua vida tem passagens semelhantes às do leito do rio, com cheias, secas, assoreamento e piracema. O lançamento será nesta sexta-feira, entre 18h e 22h, no Bistrô e Livraria Autografia (Rua do Rosário 78, Centro).





