
Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor” organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
Começa mais uma eleição presidencial e, novamente, tenho a impressão de que estamos discutindo os personagens antes de discutir o país.
Fala-se em Lula, Flávio Bolsonaro, ministros da Fazenda, Bolsa Família, salário mínimo, ajuste fiscal, teto de gastos. O mercado pergunta o que cada candidato fará. A esquerda pergunta o que acontecerá com os programas sociais. A direita promete cortar despesas.
Mas a pergunta que me interessa é outra:
Quem pretende mudar a estrutura que nos trouxe até aqui?
Há mais de sessenta anos o Brasil discute praticamente os mesmos problemas.
No governo João Goulart, falava-se nas Reformas de Base: reforma agrária, bancária, tributária, eleitoral e educacional. Falava-se também em disciplinar a remessa de lucros ao exterior.
Jango caiu em 1964.
As reformas ficaram.
Passaram-se mais de seis décadas.
Hoje temos um Congresso extremamente dependente de estruturas caras de financiamento político e de poderosos grupos de interesse. Como realizar reformas profundas sem discutir o próprio funcionamento da representação política?
Temos também o peso extraordinário dos juros.
Nos doze meses encerrados em junho, os juros nominais do setor público chegaram a R$ 1,16 trilhão, ou 8,8% do PIB.
É legítimo discutir responsabilidade fiscal e inflação. Mas também deveria ser legítimo perguntar: é sustentável um país carregar indefinidamente esse custo financeiro?
E, a terra?
Quem fala seriamente em reforma agrária hoje?
E, a tributação? E a concentração de renda? E a remessa de lucros? E, numa questão que Jango obviamente não poderia prever, quem enfrentará o poder econômico das big techs?
Mudaram os nomes. Alguns dos problemas permanecem assustadoramente familiares.
Enquanto isso, acompanhamos capítulos sucessivos do caso Master, discussões sobre Vorcaro, ministros, políticos e empresários. Tudo precisa ser investigado. Mas não podemos permitir que o escândalo da semana substitua a discussão sobre o país que queremos construir.
E, falta aquela que considero talvez a mais importante de todas as reformas: a educação.
Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e, mais tarde, Brizola compreenderam que não existe verdadeira transformação social sem escola pública de qualidade. A escola em tempo integral deveria ter se transformado em projeto nacional há décadas.
Um povo bem educado lê, questiona, compara e cobra.
Talvez por isso a educação seja sempre proclamada como prioridade e tão raramente tratada como verdadeira prioridade.
Olho para as eleições que se aproximam e vejo diferenças entre os candidatos, naturalmente. Existem diferenças em políticas sociais, econômicas, ambientais e institucionais, e o eleitor deverá avaliá-las.
Mas, minha inquietação é anterior a tudo isso.
Quem vai enfrentar as estruturas que atravessam governos e sobrevivem às eleições?
Sem reforma política, tributária, educacional, agrária e uma discussão séria sobre juros, sistema financeiro e concentração de poder econômico, continuaremos administrando sintomas.
Trocam-se os presidentes.
Trocam-se os ministros, os partidos.
E, o Brasil dos privilégios permanece.
É isso que me preocupa nesta eleição.
E, pensar que boa parte dessa discussão já estava sobre a mesa há mais de sessenta anos.





