
Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária’, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
O Brasil aprendeu a imaginar sua Independência sobre um cavalo, às margens do Ipiranga. Mas, cinco dias antes, uma mulher havia presidido no Rio de Janeiro a reunião que deliberou pela separação de Portugal. Seu nome era D. Leopoldina.
Em 2 de setembro de 1822, enquanto D. Pedro estava em viagem, Leopoldina, que exercia a regência, presidiu o Conselho de Estado. Ao lado de José Bonifácio, participou da articulação política que recomendou a ruptura com Portugal. As decisões e as notícias da crise foram encaminhadas ao príncipe.
Leopoldina não foi uma personagem secundária à espera do marido. Compreendeu a gravidade do momento e exerceu um papel decisivo na construção da Independência.
Cinco dias depois, D. Pedro recebeu as correspondências nas proximidades do riacho do Ipiranga, em São Paulo.
A cena real, entretanto, provavelmente foi bem diferente daquela que conhecemos.
D. Pedro vinha do Rio de Janeiro, passara por Santos e subia a Serra do Mar. É provável que estivesse montado numa mula, animal mais adequado aos difíceis caminhos da época. Relatos históricos também mencionam que enfrentava uma indisposição intestinal durante a viagem.
Nada disso combina muito com a imagem de um príncipe impecável, montado num cavalo imponente, cercado por soldados em uniformes de gala.
O quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo, foi pintado em 1888, mais de seis décadas depois do acontecimento. É uma obra monumental, mas também uma construção artística e heroica da memória nacional.
O 7 de Setembro tornou-se o símbolo da ruptura. A Independência, porém, ainda estava longe de ser uma realidade em todo o território.
Na Bahia, Salvador permanecia sob o controle das tropas portuguesas comandadas por Madeira de Melo. No Recôncavo, brasileiros organizaram a resistência. Homens e mulheres participaram de uma guerra que se prolongou por meses.
Em 2 de julho de 1823, as tropas portuguesas deixaram Salvador. A vitória é celebrada pelos baianos como o Dois de Julho, uma das datas fundamentais da Independência do Brasil.
A luta também se estendeu pelo Piauí, Maranhão e Grão-Pará. Nessas regiões, a adesão ao novo Império envolveu conflitos e resistência de forças ligadas a Lisboa. O Ceará, embora dividido politicamente, participou da causa independentista e contribuiu com forças para a campanha no Maranhão.
A incorporação dessas províncias demonstra que a Independência não foi resolvida por um único gesto, nem por um único homem.
Foi um processo político e militar, construído por diferentes regiões e por personagens que a narrativa tradicional frequentemente deixou à margem.
O 7 de Setembro merece ser celebrado. O 2 de Julho também. Um marca a proclamação; o outro, uma das vitórias decisivas que consolidaram a separação de Portugal.
E, D. Leopoldina merece ser lembrada não apenas como a mulher de D. Pedro, mas como protagonista da decisão política que antecedeu o grito.
O Brasil da pintura nasceu sobre um cavalo. O país real, provavelmente, começou sua ruptura sobre uma mula, com a participação decisiva de uma mulher, e ainda precisaria de guerras para consolidar sua Independência.
A história é muito maior do que o quadro que aprendemos a admirar.





