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Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário Terra Revolta, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
Brasília, janeiro de 1963.
João Goulart finalmente recuperava os poderes da Presidência.
O plebiscito havia enterrado o parlamentarismo imposto em 1961. Mais de 80% dos eleitores disseram não àquele sistema.
Agora era hora de governar.
Jango encontrava um país que atravessara a renúncia de Jânio Quadros, uma grave crise sucessória e três gabinetes parlamentaristas.E, uma economia em dificuldades.
A crise não começara com ele. O governo Juscelino Kubitschek modernizara e industrializara o Brasil, mas deixara pressões sobre a inflação, as contas públicas e o setor externo.
A inflação, em torno de 35%, em 1961, ultrapassara 50% em 1962.
Para enfrentar o problema, Jango chamara um dos maiores economistas brasileiros do século XX: Celso Furtado (1920–2004).
No Ministério do Planejamento, Furtado comandou o Plano Trienal, concebido para 1963–1965.
A missão era difícil: combater a inflação sem mergulhar o país numa recessão.
O plano buscava reduzir o déficit público, disciplinar o crédito, reorganizar as contas externas e preservar os investimentos e o crescimento.
Mas, Furtado também defendia mudanças estruturais. A estabilização deveria abrir caminho para as Reformas de Base. E, começava o impasse.
Trabalhadores pressionavam por salários. Empresários reclamavam das restrições ao crédito. Credores internacionais cobravam equilíbrio fiscal. À esquerda, Leonel Brizola pressionava Jango para acelerar as reformas e resistir às concessões ao FMI e aos interesses estrangeiros.
Jango tentava conciliar forças cada vez mais distantes. Celso Furtado queria estabilizar o Brasil para transformá-lo.
Jango não sabia, mas teria apenas quinze meses para governar com os poderes recuperados.
O relógio já corria.
Na foto: João Goulart formaliza a adoção do Plano Trienal, em 1963. A tentativa de conciliar estabilização econômica, crescimento e reformas acabaria perdendo sustentação diante das crescentes pressões políticas, econômicas e sociais.





