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Contagem regressiva: “O senhor, neto de João Pinheiro Neto, metido com essa canalha comunista”

Contagem regressiva: “O senhor, neto de João Pinheiro Neto, metido com essa canalha comunista”

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Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor” , organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
 Rio de Janeiro, julho de 1964.
Naqueles anos, “subversão” era uma das palavras mais utilizadas pela repressão. Em sentido jurídico e político, significava agir para derrubar ou alterar a ordem estabelecida por meios considerados ilegais. Na prática, durante a ditadura, o termo foi empregado de maneira abrangente para perseguir opositores, sindicalistas, jornalistas e defensores de reformas sociais. Uma opinião, uma amizade ou um discurso podiam se transformar em indício de subversão.
Meu pai já completava três meses como “hóspede” da Fortaleza de Santa Cruz. Preso desde 4 de abril, continuava submetido a investigações militares.
Respondeu a três Inquéritos Policiais Militares, todos relacionados à acusação de subversão. O primeiro investigava sua atuação na SUPRA, Superintendência da Reforma Agrária, órgão federal responsável pela política de reforma agrária do governo João Goulart( 1963-1964 ). O segundo examinava sua passagem pelo Ministério do Trabalho ( 1961 ).O terceiro vasculhava sua vida pública e privada, incluindo seus artigos ,amizades e atividades como professor da FGV.
Nesse último, enfrentou o coronel José Maria de Andrada Serpa, ex-combatente da FEB e anticomunista fervoroso.
No Quartel dos Dragões da Independência, o coronel indicou uma cadeira de palha, pequena e esburacada. Sobre a mesa, uma pasta volumosa. Era o dossiê de João Pinheiro Neto.
O interrogatório começou: “Seu Pinheiro Neto, logo o senhor, neto de João Pinheiro, metido com essa canalha comunista, é coisa que me enche de espanto.”
O coronel abriu a pasta e retirou recortes de jornal.
“E além do mais ainda me escreve estas coisas…”
Eram artigos publicados por meu pai no Última Hora. Um elogiava a CGT. Outro, “Boa Sorte, Governador Arraes”, saudava a posse de Miguel Arraes em Pernambuco.
“E o senhor diz aqui, seu Pinheiro, ser amigo desses pelegos!”
Depois de reler os textos, insistiu: “Seu Pinheiro, onde diabo o senhor estava com a cabeça?”
Meu pai permaneceu em silêncio.
Meses de investigação pareciam ter produzido pouco mais que recortes de jornal e referências à sua família.
A pasta era volumosa. As provas, não.

Fonte: “Jango, um depoimento pessoal”, João Pinheiro Neto, Record, 1993.
Foto : João Pinheiro da Silva (1860–1908), avô de meu pai, João Pinheiro Neto. Republicano de primeira hora, foi presidente do Estado de Minas Gerais entre 1906 e 1908 e teve papel relevante na modernização da administração mineira e na defesa da educação.