O poder das mídias e os limites da autoexposição: quando o político vira influencer
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Por William Rocha – Sócio do escritório Terra Rocha Advogados, Diretor de Inclusão Digital e Inovação da OAB-RJ, professor de Direito Digital e Proteção de Dados – Colunista convidado.
A política sempre dependeu da comunicação. O palanque, o rádio e a televisão foram, cada qual em seu tempo, instrumentos fundamentais para aproximar candidatos, representantes e cidadãos. As redes sociais, porém, produziram uma transformação mais profunda: não mudaram apenas o meio pelo qual o político se comunica. Mudaram a própria forma de fazer política.
No ambiente digital, já não basta apresentar propostas, prestar contas ou defender ideias. O político é estimulado a produzir conteúdo continuamente, disputar atenção, reagir aos acontecimentos em tempo real e, sobretudo, transformar sua própria vida em narrativa.
É nesse ponto que política e cultura dos influenciadores começam a se confundir.
A lógica das plataformas privilegia engajamento, frequência, emoção, identificação e capacidade de retenção da audiência. O político passa, então, a enfrentar o mesmo desafio do influencer: permanecer visível. Viagens, família, exercícios físicos, alimentação, bastidores, momentos de lazer e opiniões sobre os mais variados assuntos tornam-se parte de uma estratégia permanente de presença digital.
Essa exposição pode produzir efeitos positivos. Humaniza representantes públicos, reduz distâncias, amplia canais de comunicação e permite ao cidadão acompanhar diretamente quem exerce ou pretende exercer funções públicas.
Mas, existe um limite.
Quando a intimidade se transforma sistematicamente em conteúdo, surge aquilo que poderíamos chamar de política da autoexposição. A fronteira entre vida pública e vida privada torna-se cada vez menos perceptível e, paradoxalmente, o próprio agente público contribui para sua dissolução.
Há ainda outro fenômeno importante: o algoritmo passa a interferir na linguagem da política.
Se conteúdos mais emocionais, simplificados, controversos ou pessoais alcançam maior repercussão, cria-se um incentivo para que a comunicação política se adapte a essa arquitetura. O risco é a substituição gradual do debate sobre políticas públicas pela disputa cotidiana por atenção.
Não significa que todo político presente nas redes seja um influencer, nem que a utilização dessas plataformas seja negativa. Ao contrário: hoje elas constituem espaço legítimo e relevante do debate democrático. A questão está em compreender que visibilidade não é sinônimo de representação, seguidores não equivalem necessariamente a apoio político e engajamento não substitui prestação de contas.
Existe também uma contradição difícil de ignorar. Quanto mais alguém transforma voluntariamente sua intimidade em conteúdo, mais complexa se torna a tentativa posterior de estabelecer fronteiras rígidas entre aquilo que considera público e aquilo que deseja preservar como privado.
Isso não elimina, evidentemente, os direitos à privacidade, à proteção de dados e à própria imagem. Autoexposição não significa renúncia geral a direitos fundamentais. Mas exige uma reflexão sobre autodeterminação informativa, contexto e responsabilidade pela construção da própria identidade digital.
Talvez este seja um dos grandes desafios da política contemporânea: utilizar o extraordinário poder das mídias digitais sem se tornar refém de sua lógica.
Porque o político pode aprender com o influencer a comunicar melhor. Pode aproximar-se das pessoas, tornar sua atuação compreensível e estabelecer diálogo direto com a sociedade.
O problema começa quando precisa viver como influencer para continuar existindo politicamente.
Nesse momento, já não sabemos ao certo se as redes estão servindo à política — ou se a política passou a servir aos algoritmos.


