A política e as redes sociais
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Professor de Direito Digital e Proteção de Dados, sócio do escritório Terra Rocha Advogados, o advogado William Rocha afirma que as redes sociais mudaram a forma de fazer política – Colunista convidado.
“A política sempre dependeu da comunicação. Tivemos o palanque, o rádio, a televisão e agora as plataformas digitais. A diferença é que as redes sociais não modificaram apenas o meio pelo qual o político se comunica. Elas começaram a modificar a própria forma de fazer política. Hoje, o agente político não é estimulado apenas a apresentar propostas ou prestar contas de sua atuação. Ele precisa produzir conteúdo continuamente, reagir aos acontecimentos, disputar atenção e manter uma presença digital quase permanente. Em alguma medida, passa a operar dentro da mesma lógica dos influenciadores digitais”.
Diretor de Inclusão Digital e Inovação da OAB-RJ, William Rocha diz que, hoje, “o político está se transformando em influencer”:
” Existe uma aproximação evidente entre esses dois universos. As plataformas trabalham com uma economia da atenção. Frequência, engajamento, emoção, identificação e capacidade de retenção da audiência são elementos importantes para determinar a circulação de conteúdos. Isso faz com que políticos incorporem estratégias típicas dos influenciadores: mostram viagens, alimentação, exercícios físicos, família, bastidores e momentos de lazer. A própria vida passa a integrar a estratégia de comunicação. Mas é importante fazer uma distinção: comunicar-se bem nas redes não transforma necessariamente alguém em influencer. O problema surge quando a lógica da influência passa a determinar a lógica da representação política”.
De acordo com William Rocha, o lado positivo nessa exposição é o fato de as redes aproximarem representantes e cidadãos:
“Permitiram comunicação direta, reduziram a dependência dos meios tradicionais e possibilitaram acompanhar de maneira muito mais próxima a atuação de autoridades e representantes políticos. Isso pode fortalecer transparência e participação democrática. O problema não está na presença digital. Está na transformação da visibilidade em finalidade. Uma democracia precisa de representantes visíveis, mas precisa, sobretudo, de representantes responsáveis”.
Para o advogado, há, no entanto, um limite para a autoexposição:
“Esse limite é cada vez mais difícil de estabelecer porque muitas vezes é o próprio agente público que promove voluntariamente a exposição de sua intimidade. Quando família, rotina, viagens, residência, relacionamentos e hábitos pessoais são convertidos sistematicamente em conteúdo, ocorre uma espécie de diluição da fronteira entre o público e o privado.Eu chamaria esse fenômeno de política da autoexposição”.
“Isso não significa, naturalmente, que uma pessoa pública perca o direito à privacidade. Não perde. Direitos fundamentais continuam existindo. Mas a exposição voluntária cria uma discussão importante sobre contexto, expectativa legítima de privacidade e autodeterminação informativa”, conclui William Rocha.


