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A eleição americana vai passar pelo bolso

A eleição americana vai passar pelo bolso

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Por Henrique Pinheiro –  Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
 Moro nos Estados Unidos há mais de vinte anos.
 Nesse período, vi este país atravessar a crise de 2008, anos de juros próximos de zero, uma pandemia, diferentes governos republicanos e democratas e uma extraordinária valorização do mercado acionário.
 Acabo de voltar a Miami e uma coisa me chamou novamente a atenção: viver nos Estados Unidos ficou caro. Muito caro.
 Wall Street está próxima de seus recordes. Quem possui ações e patrimônio financeiro viu sua riqueza crescer enormemente nas últimas duas décadas.
 Mas essa não é necessariamente a economia que o americano encontra quando sai de casa.
 É preciso olhar para o supermercado, o posto de gasolina, o seguro do carro, o aluguel, o cartão de crédito e, principalmente, para o custo de financiar uma casa.
 A hipoteca de 30 anos está novamente acima de 7%. Os juros americanos já foram muito maiores, especialmente nos anos 1980. Mas os imóveis custavam muito menos.
 Para uma família de classe média, comprar a casa própria tornou-se novamente um enorme desafio.
 Agora, surge outro sinal de alerta.
 A pesquisa de expectativas do Federal Reserve de Nova York mostrou que a inflação esperada pelos consumidores para os próximos doze meses subiu para 3,9%, o maior nível desde maio de 2023.
 A referência é simbólica. Foi justamente em maio de 2023 que a Organização Mundial da Saúde encerrou a Covid-19 como emergência de saúde pública internacional.
 Não significa que a inflação chegará necessariamente a 3,9%. Significa algo politicamente importante: o americano voltou a acreditar que os preços continuarão subindo.
 E, eleição também se decide pela percepção.
 Em novembro, os americanos escolherão uma nova Câmara dos Representantes e renovarão parte do Senado. A disputa pelo controle do Congresso ocorre num momento em que o custo de vida voltou ao centro das preocupações econômicas.
 Talvez a grande questão desta eleição não esteja em Washington.
 Está no bolso.
 O americano pode estar empregado e, ainda assim, sentir que perdeu poder de compra.
 Pode assistir ao S&P 500 bater recordes sem possuir patrimônio financeiro suficiente para participar dessa prosperidade.
 A dívida das famílias americanas já alcança cerca de US$ 18,8 trilhões, algo próximo de 60% do PIB anual dos Estados Unidos. Só as hipotecas representam mais de US$ 13 trilhões.
 É preciso fazer uma ressalva: estamos comparando um estoque de dívida com um ano de produção econômica. Mas a proporção ajuda a mostrar a dimensão do número.
 E, o problema não é apenas quanto o americano deve.
 É quanto custa carregar essa dívida quando o dinheiro voltou a ficar caro.
 O americano talvez não esteja proporcionalmente mais endividado do que há vinte anos. Mas está pagando caro para se endividar.
 E,  aqui surge um paralelo interessante com o Brasil.
 São economias muito diferentes e seria um erro simplesmente equipará-las. Mas o problema termina no mesmo lugar: o orçamento familiar.
 No Brasil, quase 30% da renda das famílias está comprometida com o pagamento de dívidas. Nos Estados Unidos, essa proporção gira em torno de 11%, embora as metodologias sejam diferentes.
 O brasileiro conhece há muito tempo o peso dos juros elevados. O americano voltou a conviver com crédito caro depois de muitos anos de dinheiro abundante e barato.
 Nos dois países, as Bolsas podem subir. Os grandes patrimônios podem se valorizar. Os governos podem apresentar números positivos de emprego e crescimento.
 Mas existe uma economia que nenhuma estatística consegue esconder por muito tempo.
 É a economia da mesa. Quanto custa morar, comer?
 Quanto custa o carro? Quanto custa o crédito?
 E. quanto sobra no final do mês?
 Talvez seja essa a pergunta que acompanhe o eleitor americano até a cabine de votação em novembro.
 Porque Wall Street pode comemorar recordes.
 Mas,  eleição também se decide na hora de pagar as contas.