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Lá vem o arrocho salarial

Lá vem o arrocho salarial

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 Por Henrique Pinheiro – Economista e produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
  Como num grande museu de novidades, lembrando Cazuza, ouvi integrantes da equipe econômica do candidato da direita explicarem o plano de ajuste fiscal que pretendem implementar caso vençam as eleições.
 E,  tive a impressão de estar ouvindo uma velha receita, apresentada em nova embalagem.
 Mais de 60 anos depois, voltamos à mesma discussão: conter salários, limitar benefícios previdenciários e prometer que, depois do sacrifício, virão o equilíbrio fiscal, a queda dos juros e o crescimento econômico.
 Entre as propostas em estudo está a desvinculação do salário mínimo dos reajustes das aposentadorias.
 Em outras palavras, mais uma vez, pretende-se fazer o ajuste fiscal no lombo dos assalariados e aposentados.
 A inspiração parece vir da Argentina de Javier Milei, onde o ajuste das contas públicas tem sido acompanhado de profundas restrições aos gastos sociais.
 Meu pai, João Pinheiro Neto, ex-ministro do Trabalho do governo João Goulart, já dizia em 1962:  “salário não é causa de inflação.”
 Uma frase que permanece atual diante da insistência em tratar a renda dos trabalhadores como obstáculo ao equilíbrio econômico.
 O Brasil já enfrentava esse debate há mais de 60 anos, quando Celso Furtado elaborou o Plano Trienal para o governo João Goulart.
 O plano pretendia conciliar estabilidade monetária, crescimento econômico e reformas estruturais. Mas acabou esbarrando nas contradições de uma política de estabilização que também exigia contenção salarial.
 Passaram-se seis décadas e continuamos procurando soluções no mesmo lugar.
 Hoje, o grande problema brasileiro não é o excesso de consumo provocado pelos salários.
 É o custo exorbitante do dinheiro.
 Convivemos com uma das maiores taxas de juros reais do mundo, enquanto milhões de brasileiros estão endividados e comprometem parcelas crescentes de sua renda com o pagamento de juros.
 O crédito caro sufoca o consumo, desestimula o investimento produtivo e limita o crescimento econômico.
 Mas, curiosamente, quando chega a hora de discutir o ajuste fiscal, o salário aparece como problema, enquanto os juros continuam sendo tratados como consequência inevitável.
 Não se trata de negar a necessidade de responsabilidade fiscal. Trata-se de discutir quem paga a conta.
 Uma economia não cresce de maneira sustentável empobrecendo seus consumidores.
 Sem renda, não há consumo. Sem consumo, não há mercado interno forte. E sem mercado interno, não existe desenvolvimento capaz de beneficiar a maioria da população.
 Essa era uma das ideias centrais das Reformas de Base defendidas por João Goulart.
 Talvez esteja na hora de perguntar por que, depois de mais de 60 anos, continuamos recorrendo às mesmas receitas.
 Se o remédio nunca resolveu nossos problemas estruturais, não seria o caso de procurar outro tratamento?
 Ou, continuaremos fazendo do Brasil, como cantava Cazuza, um grande museu de novidades?