×

De Brizola a Erika Hilton, de Amaral Neto a Nikolas Ferreira

De Brizola a Erika Hilton, de Amaral Neto a Nikolas Ferreira

Compartilhe nas Redes sociais
 Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
 Em 1962, nas últimas eleições legislativas antes do golpe militar, Leonel Brizola, do PTB, tornou-se o deputado federal mais votado da Guanabara, com 269.384 votos.   Um resultado extraordinário, que demonstrava a força popular do trabalhismo e sua capacidade de mobilizar a sociedade em torno das reformas de base, da soberania nacional e dos direitos dos trabalhadores.
 Na mesma eleição, Amaral Netto, da UDN, representante da direita conservadora, conquistou 123.383 votos, alcançando a segunda maior votação para deputado federal na Guanabara.
 Sessenta e quatro anos depois, nas eleições de outubro de 2026, dois deputados federais voltaram a demonstrar a força eleitoral de campos políticos opostos.
 Erika Hilton, do PSOL, recebeu 1.596.472 votos em São Paulo, tornando-se a mulher mais votada da história da Câmara dos Deputados e uma das maiores expressões eleitorais da esquerda brasileira.
 Nikolas Ferreira, do PL, conquistou 3.119.318 votos em Minas Gerais, tornando-se o deputado federal mais votado da história do país e consolidando sua posição entre as principais lideranças da direita.
 Os números impressionam. Mas, além dos votos, o que defendiam aqueles políticos de 1962 e o que defendem os de 2026?
 BRIZOLA, 1962, representava o trabalhismo nacionalista, herdeiro de Getúlio Vargas e aliado de João Goulart. Defendia a reforma agrária, a educação pública, os direitos trabalhistas, a nacionalização de setores estratégicos, o controle das remessas de lucros e a soberania econômica.
 Sua atuação estava vinculada a um projeto de transformação das estruturas econômicas e sociais brasileiras.
 AMARAL NETTO, 1962, representava uma direita marcada pelo anticomunismo, pela defesa da iniciativa privada, da ordem pública e pela oposição às reformas propostas pelo governo João Goulart.
 Seu discurso refletia os interesses e os temores de setores conservadores diante das mudanças defendidas pelo trabalhismo.
 ERIKA HILTON, 2026, defende a redução das desigualdades, os direitos civis, a proteção das minorias e a ampliação dos direitos trabalhistas. Entre suas principais bandeiras está o fim da escala 6×1, com redução da jornada de trabalho sem diminuição salarial.
 NIKOLAS FERREIRA, 2026, defende o liberalismo econômico, a redução de impostos, os valores cristãos, a família e posições conservadoras em questões de comportamento.
 Sua atuação também se caracteriza pela oposição às pautas progressistas e pela intensa utilização das redes sociais.
 O QUE MUDOU EM 64 ANOS? Em 1962, o confronto político estava concentrado nas grandes questões estruturais do país: propriedade da terra, industrialização, capital estrangeiro, distribuição da riqueza e direitos dos trabalhadores.
 Discutia-se o modelo de desenvolvimento econômico e, principalmente, quem deveria se beneficiar dele.
 Hoje, embora esses problemas permaneçam, religião, identidade, comportamento e costumes ganharam um protagonismo que frequentemente desloca o debate das questões econômicas fundamentais.
 Mudaram também os instrumentos de comunicação. Brizola mobilizava multidões pelo rádio e pelos comícios. Amaral Netto ganhou projeção utilizando a televisão.
 Erika Hilton e Nikolas Ferreira alcançam milhões de brasileiros pelas redes sociais, onde a velocidade da comunicação nem sempre permite a profundidade da reflexão.
 E, o que permaneceu?
 O anticomunismo continua presente no discurso da direita, assim como a defesa dos trabalhadores permanece como uma das principais bandeiras da esquerda.
 A disputa sobre o papel do Estado, a distribuição da riqueza e a preservação dos privilégios econômicos atravessou gerações.
 Mas, existe uma diferença fundamental.
 Em 1962, o trabalhismo apresentava um projeto nacional de transformação estrutural, com propostas para enfrentar a concentração da terra, da renda e do poder econômico.
 Hoje, grande parte do debate político parece consumida por disputas ideológicas, conflitos pessoais e estratégias de comunicação.
 Enquanto isso, os problemas estruturais brasileiros continuam esperando soluções.
 Não se trata de afirmar que as questões de comportamento e direitos civis sejam irrelevantes. Trata-se de perguntar por que as grandes reformas econômicas e sociais perderam tanto espaço no debate nacional.
 Afinal, um país não supera suas desigualdades apenas com discursos, popularidade eleitoral ou milhões de seguidores.
 Passaram-se 64 anos. Mudaram os personagens, as bandeiras e os meios de comunicação.
 Mas, o Brasil mudou verdadeiramente como sociedade ou apenas modernizou sua aparência, preservando as mesmas estruturas de poder e desigualdade que dividiam o país em 1962?
Fotos Leonel Brizola e Erika Hilton.