Hoje em !Chico Vartulli Convida” um entrevista exclusiva com a arquiteta Suely Farhi
Minha convida de hoje, nasceu no Rio de Janeiro, em 1957, onde vive e trabalha. É arquiteta, artista e poeta visual. Explora os sentidos que brotam no encontro entre palavras e lugar. Realizou várias exposições individuais no Rio de Janeiro, como no Museu de Arte de Santa Catarina (MASC), Museu da República, no Paço Imperial, entre outros. Participou de mais de 100 exposições coletivas no Brasil e no exterior – Argentina, Bélgica, França, Inglaterra, Portugal, Cuba e Espanha etc.
Suely Farhi tem um livro publicado: “Anotar, Apontar, Apagar!” Recebeu prêmios importantes, como o do Salão Vitor Meirelles e Projéteis de Artes Visuais, e participou de antologias de poesia visual, como “Obra nome”, no Museu de Alcobaça, Portugal, com curadoria Wagner Barja; “Yá sé leer – imagén y escritura en el arte latinoamericano”, no Centro Wifredo Lam y la Galería Rubén Martínez Villena de la Habana Vieja, Cuba, com curadoria Ibis Hernández Abascal, Margarita Sánchez, Sandra Contreras y Elvia Rosa Castro; “Europalia”, em Bozar, Bruxelas, Bélgica, com curadoria de Sonia Salcedo del Castillo e “Visualidades Brasileiras – Funarte 50 anos”, no Palácio Gustavo Capanema, Rio de Janeiro, com curadoria de Luiza Interlenghi. Ela fala sobre a exposição “As Palavras”, sobre o seu “fazer artístico” e muito mais. Confira!
JP- Olá, Suely! Qual é o balanço que você faz da sua trajetória como poeta e artista visual?
Entrei na faculdade de Arquitetura em plena ditadura militar. Vi, e vivi, a importância dos encontros e da criação coletiva na invenção de outros mundos. A arquitetura me deu uma maneira de pensar o espaço, o movimento, os vazios, as relações entre corpos e matéria. A arte me permitiu levar esse pensamento para outros territórios.
Tenho feito, recentemente, uma revisitação dos trabalhos que realizei ao longo da vida, reconhecendo e revalidando os elementos que constituem minha linguagem e minha poética. Percebo que o que realizei em momentos muito diferentes começam a conversar entre si e, nesse encontro, produzem novos significados.
Talvez essa seja uma das questões mais importantes da minha trajetória: o encontro. O encontro entre obras, entre palavras e matéria, entre passado e futuro, entre matéria e linguagem, entre o espaço e quem o experimenta.
JP- Como surgiu o projeto da exposição “As Palavras”?
Quando soube do edital do Centro Cultural da Justiça Federal, que propunha uma reflexão relacionada à defesa de algum direito social, pensei em realizar um recorte que abrangesse uma dimensão feminina e feminista nos trabalhos realizados.
Escolhi obras que tratavam diretamente dessa temática ou que se aproximavam dela e comecei a pensar não apenas nas obras isoladamente, mas no que aconteceria quando elas se encontrassem no espaço. Percebi que esses encontros poderiam potencializar os discursos de cada trabalho.
Foi assim que desenvolvi o projeto de “As Palavras”, contemplado pelo edital do CCJF.
O próprio título já carrega uma dimensão feminina. E a exposição nasce justamente dessa ideia de que as palavras não são neutras: elas carregam memória, experiência, desejo, poder e possibilidades de transformação.
JP- Quais são as produções que você irá exibir?
A exposição ocupa cinco salas, pensadas como atmosferas. Na primeira, uma videoprojeção trabalha a palavra “barriga”. A palavra, quando inteira, contém “ar” e remete à respiração, à expansão e à contração do corpo. Quando se retira o “ar”, sobra “briga”. É uma reflexão sobre respirar para não perder a forma, respirar para não perder o fôlego e respirar para gerar harmonia.
Depois entramos em uma atmosfera escura e brilhante, a “Noite dos Desejos”, construída com velas e estrelas cadentes produzidas por efeitos de reflexão e rotação de acetatos transparentes. É um espaço de desejo, meditação e pulsão vital.
A sala central reúne trabalhos ligados diretamente ao feminino. Entre eles estão “Suspiros Alfabéticos”, um armazenamento coletivo das letras do alfabeto, repetidas e sussurrantes, escritas em papéis dobrados em formas que remetem ao corpo feminino; e “Elogio às Marias-sem-vergonha”, criado a partir de uma pesquisa sobre os adjetivos associados a essas flores. Transformei os termos pejorativos por meio de um processo que chamei de “sinonimização” e os transformei em elogios. Esses elogios foram impressos sobre vasos, taças, copos, todos transparentes contendo água.
O movimento do visitante é fundamental para que o trabalho se complete: as palavras aparecem e desaparecem, são encontradas e perdidas conforme o deslocamento do corpo do espectador leitor.
Há também um trabalho com duas taças, uma com a letra A e outra com a letra Z, que se encontram em posição de brinde, e fazem com que o suporte aparentemente sólido se transforme em um solo instável. É uma reflexão sobre o fechamento dos ciclos, início e fim juntos, um oroborus da linearidade sequencial ordenada. A linha reta se transforma em círculo, em circuito.
Em outra sala está “Geral da Geralda”, uma vassoura que sustenta o próprio espaço que a sustenta. Ela transforma o espaço ao redor em uma espécie de chão, também refazendo o ciclo da linearidade. A vassoura está apoiada no lugar que ao mesmo tempo é apoiado por ela.
Também apresento “O Terceiro Lado”, uma revisitação de um trabalho de 2006, “Os dois lados da mesma moeda”. A partir da antiga imagem da moeda, proponho um terceiro lado: o lado de fora. Um espaço vazio, mas não um vazio de ausência. É um vazio para a invenção de mundos. Desenhos-escrita são distribuídos perto das portas. São pórticos conceituais.
Na última sala, o visitante atravessa a escuridão e encontra uma pequena caixa que funciona como um gargalo espaço-temporal. Ali existe uma palavra capaz de modificar a percepção de tudo o que foi visto anteriormente.
Os “Desenhos-escrita” são frases que coleciono desde o início dos anos 90. Escritas a caneta tinteiro. Reveladas em momentos quaisquer. Tanto no ateliê, tanto na rua, lendo um livro, vendo uma cena cotidiana. Tudo pode ser omotivo para uma nova frase.
JP- Quais são as características do seu “fazer artístico”?
A percepção modifica a palavra e a palavra modifica a matéria. Interessa-me justamente esse limite estreito entre matéria e linguagem, entre hábito e invenção.Trabalho com espaço tátil, espaço mapeado, espaço-memória, espaço social e espaço experimentado. A arquitetura está muito presente nesse modo de pensar. O espaço que habitamos é também um lugar de raciocínio, de movimento e de formação de hábitos.
Gosto de perceber aquilo que normalmente deixamos de perceber: os vazios entre as formas, posições de objetos expressivas que lhe dão expressão, e materiais dos lugares. Tudo que contribui para uma atmosfera que vem a influenciar nossa experiência.
Procuro revelar essas relações. A palavra pode ser escrita, falada, desenhada, construída, deslocada e ou incorporada. O importante não é a técnica em si, mas aquilo que acontece entre. A palavra, o objeto, o espaço, quem os experimenta o encontro desses, definem o que chamo de “metaleitura”.
JP- Como se deu a sua formação como artista visual?
Minha formação aconteceu de maneira muito ampla e atravessada por encontros. Sou arquiteta, filha de arquiteto, e a arquitetura foi fundamental para meu modo de pensar o espaço, a forma e o movimento. Ao me formar fui selecionada para ser a coordenadora de montagens no Museu de Arte Moderna no Rio de Janeiro. Convivi com diversos artistas e curadores, pensadores da arte, projetando e conceituando as exposições. Mas minha formação artística também aconteceu através de aulas, leituras, convivências, amizades e experiências. Alguns encontros foram fundamentais, como as aulas com Hélio Eichbauer, Goldberg e Claudio Ulpiano. Escritores e filósofos como Bergson, Hanah Harendt, Deleuze, Canetti, Borges e Proust e outros me deram base para seguir pensando e observando e agindo. Também foram muito importantes os encontros e trabalhos realizados com amigos e artistas como Xico Chaves, Márcia X, Alex Hamburger, Aimberê César e Mauricio Ruiz, Maria Moreira, Jorge Duarte, o pessoal do Bloco Vade Retro Abacaxi. Com eles fizemos produções coletivas de multi linguagem, muito experimentais.
JP- Quais são as suas referências no campo das artes?
Na literatura, Borges com suas geometrias infinitas e labirínticas no espaço e no tempo, Proust é uma referência muito importante. “Em busca do tempo perdido” me influenciou, particularmente, pela maneira como pequenos objetos podem despertar outro tempo, que de repente se torna presente: as reminiscências. Também fui profundamente marcada por “Massa e Poder”, de Elias Canetti, pela reflexão sobre as ordens, o poder e a necessidade de não simplesmente obedecer a estruturas sem questionar. Deleuze em A Dobra, Leibniz e o Barroco. Bachelard também me acompanha — especialmente a ideia de desconfiar do óbvio. Bergson, pela relação entre vida e memória e matéria, e o I Ching, com sua estrutura de combinações e possibilidades, também fazem parte desse campo de referências. E existe uma referência que não é exatamente um artista ou uma obra: o encontro. As pessoas que atravessam nossa vida também constituem nossa formação.
JP- Como você concilia a poeta e a artista visual?
Uma palavra escrita fica gravada no tempo e na matéria onde foi inscrita. Ela pode revelar, indicar, confundir, provocar. Pode permanecer ali mesmo quando esquecida e, em outro momento, voltar a produzir sentidos. É isso que me interessa: a palavra como matéria e a matéria como linguagem. Na arquitetura, o espaço também é uma forma de escrita. Os vazios deixados pela construção são lugares onde a existência acontece. As formas, alturas, cores e proporções dos ambientes vão modelando nossos hábitos, mesmo quando deixamos de percebê-las conscientemente. Minha poesia nasce também dessa experiência espacial. Talvez eu seja uma artista que pensa poeticamente o espaço e uma poeta que pensa espacialmente a palavra.
JP- Quais são os seus projetos futuros?
Nesse trabalho, reconheço a escrita como um caminho concreto que nos leva a outros tempos — passado e futuro. Continuo interessada justamente nesse movimento: perceber como uma palavra, uma imagem, uma dobra, um objeto ou um espaço podem abrir caminhos inesperados.


