O Agro não é Pop. E, a Reforma Agrária ficou onde
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Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
Em 1964, João Goulart tentou iniciar uma reforma agrária dentro da lei. Queria criar milhões de pequenos proprietários, formar uma classe média rural, ampliar o mercado consumidor e distribuir oportunidades. Sessenta e dois anos depois, somos uma potência agrícola. Exportamos soja, milho, carnes e outras commodities. Mas quem ficou com essa riqueza?
O Plano Safra 2026/2027 revela nossas prioridades: 86% do crédito anunciado destina-se à agricultura empresarial e apenas 14% à agricultura familiar. Parte desses financiamentos conta com juros subsidiados pelo Tesouro Nacional.
São mais de R$ 525 bilhões para a agricultura empresarial, beneficiada também por décadas de investimentos públicos em pesquisa, especialmente pela Embrapa.
Nos Estados Unidos, com um PIB próximo de US$ 30 trilhões, a produção agropecuária primária representa menos de 1% da economia. A riqueza americana está principalmente na indústria, tecnologia e serviços.
No Brasil, modernizamos o campo, mecanizamos a produção e ampliamos as exportações. Mas não democratizamos suficientemente o acesso à terra.
Milhões de brasileiros deixaram o campo nas últimas décadas. Muitos foram parar nas periferias das grandes cidades, onde faltam moradia, saneamento e oportunidades.
Era justamente esse destino que Jango pretendia evitar.
Uma classe média rural produziria alimentos, consumiria produtos industriais, movimentaria o comércio e fortaleceria o mercado interno.
Não era comunismo. Era uma proposta de modernização do capitalismo brasileiro.
O agro pode ser moderno, rico e exportador. Mas isso não significa prosperidade compartilhada.
De que adianta sermos uma potência agrícola se não conseguimos transformar a riqueza do campo em prosperidade para mais brasileiros?
Sessenta e dois anos depois, continuamos pagando pela reforma que não fizemos.
Foto: Trabalhadores rurais e integrantes das Ligas Camponesas, década de 1960. A reforma agrária que o Brasil não realizou.


