Bastou falar em reduzir os juros para o mercado reagir
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Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta” autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
2 de novembro de 2026
André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, resolveu enfrentar um dos maiores tabus da economia brasileira: a política de juros do Banco Central.
A reação foi imediata.
Bastou apresentar uma proposta de redução gradual da Selic para que gestores de grandes bancos e economistas ligados ao mercado financeiro começassem a apontar riscos de fuga de capitais, desvalorização cambial e inflação.
A comparação com a Turquia de Recep Tayyip Erdoğan apareceu rapidamente.
Mas será que estamos falando da mesma coisa?
Na Turquia, Erdoğan pressionou o Banco Central a reduzir os juros em meio a uma inflação elevada, sustentando que juros altos eram responsáveis pela própria inflação.
O resultado foi desastroso: desvalorização da lira, perda de confiança e uma escalada inflacionária.
André Lara Resende apresenta outro diagnóstico.
Para ele, os juros brasileiros atingiram um patamar tão elevado que passaram a alimentar o próprio desequilíbrio fiscal que supostamente deveriam combater.
É uma discussão que o Brasil não pode continuar evitando.
Segundo os números apresentados na reportagem da Folha de S.Paulo, o custo médio da dívida pública chegou a 12,68% ao ano.
Sobre uma dívida bruta de aproximadamente R$ 10,9 trilhões, isso representa uma conta teórica de quase R$ 1,4 trilhão em juros anuais.
Não se trata de uma despesa qualquer.
Estamos falando de recursos equivalentes a várias vezes o orçamento federal da educação.
Enquanto isso, economistas defendem cortes de despesas, contenção de investimentos e novos sacrifícios fiscais.
Mas quem propõe enfrentar o custo financeiro da dívida imediatamente encontra resistência.
Lara Resende sugere uma nova coordenação entre as políticas fiscal e monetária, com redução gradual da Selic até 7,5% em doze meses.
A proposta merece exame rigoroso.
É evidente que não se pode simplesmente determinar juros baixos por decreto, ignorando inflação, câmbio e expectativas.
A experiência turca está aí para demonstrar os riscos.
Mas, também, não podemos aceitar que qualquer tentativa de discutir a política monetária seja tratada como uma ameaça à estabilidade econômica.
O Brasil precisa responder a uma pergunta fundamental:
Os juros são tão elevados porque a dívida pública é excessiva ou a dívida cresce também porque os juros são excessivos?
Provavelmente, os dois fenômenos se alimentam.
O desafio é romper esse círculo sem comprometer a estabilidade da moeda.
André Lara Resende não é um aventureiro. Participou da construção do Plano Real e conhece profundamente os mecanismos da política monetária.
Suas propostas podem ser contestadas, mas precisam ser enfrentadas com argumentos, não com alarmismo.
A independência do Banco Central não pode significar que suas decisões estejam acima do debate público.
Afinal, a conta dos juros não é paga apenas pelo Tesouro Nacional.
É paga por toda a sociedade brasileira.
O verdadeiro risco é transformar uma política monetária excepcionalmente restritiva em uma condição permanente, sem discutir seus custos econômicos e sociais.
O Brasil não precisa repetir a experiência da Turquia.
Mas também não pode continuar acreditando que juros elevados são a única resposta possível para todos os seus problemas.


