A voz do Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Jornalista, Relações Públicas, Atriz, Locutora e Bailarina. Aos 23 anos, Cláudia Tisato já reunia cinco registros profissionais. Natural de Porto Alegre, é moradora do Rio de Janeiro há quase três décadas. A profissional de televisão que dividiu a bancada do Observatório da Imprensa na TV Brasil com o papa do jornalismo brasileiro, Alberto Dines, além de fazer dezenas de participações em novelas e séries da TV Globo vivendo o papel de jornalista, há sete anos é assessora de imprensa do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e em 2026 voltou a exercer mais um dos seus talentos: é locutora oficial da programação artística da Instituição.

JP – Olá, Claudia! Antes de falarmos da função de locutora oficial do TMRJ, gostaria que você falasse um pouquinho de sua trajetória e sua vinda para o Rio.
Oi, Luiz Cláudio! Tudo bem? Em primeiro lugar, agradeço o convite para esta entrevista. É uma honra! Lembro que, há alguns anos, quando nos conhecemos pessoalmente no antigo Teatro Bradesco, pensei: deve ser muito legal cuidar de um teatro. Aquela ideia ficou na minha cabeça. Quem diria que, muitos anos depois, eu estaria à frente de um dos mais importantes teatros do país, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro? Além de ser uma extensão da minha casa, foi aqui que conheci o meu amor, antes mesmo de começar a trabalhar na instituição. Incrível, não?
Cheguei ao Rio de Janeiro em 25 de agosto de 1998, formada em Jornalismo e Relações Públicas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Também já tinha os registros profissionais de bailarina, atriz e locutora. Em Porto Alegre, estudei balé com a russa Marina Fedossejeva, integrei o Ballet Phoenix e dei aulas de dança na Academia de Tony Seitz Petzhold. Mas percebi que minha maior vocação estava na comunicação.
Durante a faculdade de Jornalismo, tive a oportunidade de estagiar na RBS TV e, desde então, a televisão passou a fazer parte da minha vida. Quando me formei, fui a única da turma a sair com um emprego diante das câmeras. Já fazia comerciais e vídeos institucionais e seguia o desejo de ser apresentadora. Comecei como repórter do programa A Escola Te Vê, do Governo do Estado de Santa Catarina. Depois, graças à excelente avaliação no estágio da RBS TV de Porto Alegre, fui trabalhar na emissora de Florianópolis, como repórter do Jornal do Almoço, durante as férias, mostrando as belezas das praias catarinenses. Em seguida, assumi o programa Ecologia, no qual acumulava as funções de repórter, editora e apresentadora, além de cuidar da finalização mensal. Paralelamente, trabalhava como locutora da Rádio Itapema FM. Mais tarde, assumi oficialmente a reportagem do Jornal do Almoço e deixei a rádio para me dedicar aos dois programas.
Quando estreou a TV Com, a primeira TV comunitária do país, em Porto Alegre, fui convidada pela diretora Denise Liège para apresentar o Panorama Imobiliário, voltado ao mercado de imóveis da capital gaúcha. Aceitei o desafio e voltei à minha cidade natal. Vieram outras oportunidades, até chegar ao programa cultural Palco, uma área que sempre esteve no meu DNA. A partir daí, comecei a emplacar reportagens em telejornais da TV Globo, por meio do núcleo da emissora liderado por Monica O’May, com matérias para o Jornal da Globo, Jornal Hoje e Bom Dia Brasil, além de uma reportagem e uma entrada ao vivo no Programa do Faustão.
Com um bom portfólio, tirei férias decidida a vir para o Rio, que representava o caminho que desejava seguir. Cheguei e, em apenas uma semana, consegui uma oportunidade no Caderno 2, da TVE, um dos melhores programas de cultura que o Brasil já teve. Curiosamente, pouco antes de vir, havia feito a cobertura do Festival de Cinema de Gramado, onde conheci a apresentadora do programa, Simone Zucolotto, e seu diretor, Wagner Corrêa de Araújo. Não chegamos a trocar contatos, mas esse encontro acabou facilitando minha aproximação quando soube, por uma amiga jornalista, que precisavam de um repórter. Procurei Socorro, produtora do programa, e, no mesmo dia, saí para gravar uma matéria. Gostaram do trabalho e acabei ficando.
No Rio, conheci de perto a cena cultural carioca, ampliei meus conhecimentos, fiz amigos e tive a certeza de que estava no caminho certo. Foi na TVE que construí minha carreira na televisão carioca, participando de diversos programas. Um dos momentos mais marcantes foi conquistar meu próprio telejornal, o Repórter Brasil. Também me senti muito honrada quando fui escolhida para dividir a bancada do Observatório da Imprensa, na TV Brasil, com Alberto Dines, após a saída da jornalista Lúcia Abreu, que estava se mudando para Brasília. Foram três anos ao lado desse grande mestre. Também com o editor-chefe Rafael Casé e toda a equipe do Observatório, tive a oportunidade de me aprimorar em todos os sentidos, tanto como profissional quanto como pessoa.
Com a mudança de direção, Dines passou a apresentar o programa sozinho e assumi a editoria de Cultura da TV Brasil. Foi uma experiência incrível. Também me tornei apresentadora das chamadas da emissora e locutora da TV Brasil Internacional. No fim de 2013, cerca de 1.200 funcionários foram desligados da TV com a entrada dos concursados, e precisei repensar meus caminhos profissionais.
Passei por experiências temporárias no Projac, na GloboNews e em uma multinacional, até que uma amiga assessora de imprensa, Eni, que infelizmente já faleceu, me convidou para ajudá-la em alguns trabalhos. Foi quando comecei a descobrir o gosto pela assessoria de imprensa. Outras oportunidades surgiram: trabalhei com Ivone Belém, da Baden Powell, em diversos espetáculos; com Elisandro de Aquino, na assessoria de Eu Amarelo, com dramaturgia e direção dele; e com o produtor João Luiz Azevedo em shows de artistas como Angela Maria e The Fevers. Também passei a fazer a assessoria de imprensa da Cia. Bachiana Brasileira, do maestro Ricardo Rocha.
Minha chegada ao Theatro Municipal aconteceu por intermédio de um amigo, George Patiño, que havia assumido a instituição. Dez dias depois, ele recebeu outra proposta e, como não seguiria no cargo, perguntou se eu teria interesse em substituí-lo na função. Claro que aceitei! Fiz uma entrevista, gostaram de mim e entrei. Estou lá até hoje. São sete anos.
Fiz muitos amigos, inclusive entre os artistas dos corpos artísticos, e o Theatro se tornou minha casa. Agora, como locutora, estou ainda mais próxima da Orquestra, do Coro, do Ballet e da direção. Tenho um carinho enorme pelo pessoal da cabine, que sempre me incentiva. O Marcelo, coordenador de palco, também cuida muito de mim e me orienta sobre o momento certo de subir para a cabine, antes do segundo sinal. Sinto que essa nova função fortaleceu ainda mais minha conexão com a equipe e com o Theatro.
Agradeço à direção da instituição e à nossa patrocinadora oficial, a Petrobras, pela oportunidade. Tenho muito orgulho de fazer parte dessa equipe.
JP – Além de locutora, você trabalha na assessoria de comunicação do Theatro. Como fez para conciliar as funções?
Quem trabalha com assessoria sabe bem como é: estamos sempre conectadas. Escrevendo, respondendo, criando notas, entendendo os conteúdos e pensando na melhor maneira de levar a informação aos veículos (e também de receber a imprensa). Nas temporadas, cuido dos convites para os jornalistas, além de receber e conversar com os convidados e verificar se está tudo ok. Acredito que a formação em Relações Públicas, somada à de Jornalismo, realmente me deu uma visão ampla para executar esse trabalho que realizo no Municipal.
JP – Como o público reagiu a sua chegada?
Só posso agradecer a todos. Fui muito bem recebida pela equipe da cabine de áudio, pelos artistas, convidados e jornalistas que já me conheciam da TV, e também pelos amigos. Inclusive pelo patrocinador, pois apresentei muitos eventos para a Petrobras durante a minha carreira como apresentadora e mestre de cerimônias. Me sinto em casa, literalmente.
JP – Como surgiu o convite para ser a locutora oficial do TMRJ?
Durante muitos anos, o locutor oficial do Theatro Municipal foi o Neilton Ferreira. Ele era querido por todos e um excelente profissional, mas, infelizmente, faleceu. O Theatro ficou sem locutor por um bom tempo, até que, em setembro de 2024, a Carol Passos — jornalista que trabalhava com a gente na assessoria de comunicação — assumiu a voz oficial da casa.
Porém, no início de 2026, ela se mudou para Belém do Pará com o noivo, e a vaga foi aberta. Como trabalhei por mais de 20 anos na televisão, sendo âncora de telejornais e trazendo toda essa bagagem na área, me chamaram para fazer a locução do início da temporada. Deu certo e acabei ficando!
É um grande desafio, porque é tudo ao vivo e exige muita concentração para não errar. Mas tenho muito orgulho de ser a voz do Theatro Municipal desta cidade tão maravilhosa que é o Rio de Janeiro, além de continuar como assessora de imprensa desta instituição que amo tanto.

JP – Você foi profissional de TV. Isso ajudou de alguma forma na nova função?
Com certeza. A televisão é sinônimo de trabalho em equipe, então você precisa pensar em tudo: na ideia, na pauta, no texto, no desenvolvimento, nos enquadramentos e no que não pode faltar no contexto. É preciso sugerir que o cinegrafista capte imagens fundamentais para o texto e para a edição, ouvir depoimentos importantes, ter jogo de cintura e ser ágil para colher todo o material e garantir um bom resultado.
E, assim como na TV, o locutor de teatro precisa estar muito preparado. Afinal, falo para 2.300 pessoas — é muita responsabilidade! Quanto mais você domina o assunto, melhor. Eu utilizo muita técnica no roteiro: sempre coloco a locução em várias folhas, com espaçamento correto, número de páginas e, quando a pronúncia é complicada, costumo escrever foneticamente para evitar o erro ao vivo.
Gosto também de chegar um pouco antes para treinar a respiração e hidratar as cordas vocais com água em temperatura ambiente. Cuidar da voz é fundamental também. De qualquer maneira, a bagagem de mais de 20 anos de televisão me deixa mais segura e me dá um bom jogo de cintura — embora o friozinho na barriga esteja sempre presente!
JP – Quais as mensagens que são transmitidas por você na locução?
Só de dar um “boa noite” (ou boa tarde, de acordo com o horário da apresentação), a gente já cria uma conexão imediata com o público. Tento falar de forma pausada, dando ritmo, para que o conteúdo fique bem claro e todos entendam as informações. Adoro dar ênfase aos artistas, à nossa Orquestra, ao Coro e ao Ballet. Depois de explicar os detalhes importantes, finalizo com um “bom espetáculo a todos”, que é o que realmente desejamos no fim.
JP – Ao longo dos anos o TMRJ se aproximou muito de todos os públicos, com espetáculos mais populares e oportunidades da população visitar o espaço. Como você avalia essa mudança tão significativa?
A proposta da nossa direção é a democratização do acesso. Nos últimos anos, todos os espetáculos da nossa temporada têm ficado lotados. Os preços são acessíveis, as produções são muito bem trabalhadas e contamos com equipes estruturadas em todas as áreas: Orquestra Sinfônica, Ballet e Coro, formados por artistas de altíssimo nível técnico. Todos são importantes e fundamentais para que o resultado seja o melhor possível. Me sinto realizada em fazer parte desta equipe e torço para que o Theatro Municipal do Rio de Janeiro seja sempre a grande estrela, reafirmando sua vocação como um dos mais importantes palcos da cultura brasileira e mantendo viva sua missão de aproximar a arte de todos os públicos.



