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Ganhar e perder

Luiz Claudio de Almeida 6 de fevereiro de 2023 7 minutes read
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Ando meio afastado de assuntos futebolísticos, mas é quase impossível não saber que o Palmeiras está numa fase incrível. Segundo meu sobrinho, parece que nos últimos 90 jogos, o Palmeiras venceu mais de 80 e quase todo o resto apenas empatou. Quer dizer, o Palestra tá por cima da carne seca. Tão por cima, que a Manda-Chuva do time comprou um avião pra transportar exclusivamente o time dela. Pois bem: –  neste sábado, dia 4, meu pai completou 94 anos e teve uma festinha lá em São Paulo. Claro que eu fiz aquele famoso bate-e-volta, Rio/SP, pra dar um beijo nele. Só que meu bate-e-volta foi de ônibus, por dois motivos: não jogo no Palmeiras, não tenho avião e, além disso, como a maré não tá  pra peixe miúdo – e eu sou Peixe desde pequenininho, sou Santos F.C – fui de ônibus para economizar.

O dia em São Paulo foi legal, com muitos beijos no nosso Capo dei Capi e, na parte da manhã, o assunto foi comida e os preparativos para a festinha que haveria de tarde com a chegada dos netos e de todos que viriam para beijar Totó, o membro mais importante da família, não apenas pela idade, mas – e principalmente – pelo peso de sua suave autoridade, conquistada por sua alegria ao longo das décadas. Em resumo: Totó é o Pajé e o Cacique dessa tribo.

O assunto começou a mudar no final da tarde com a proximidade de um jogo do Campeonato Paulista que começava a mobilizar a italianada presente: Palmeiras X Santos! O invencível Palmeiras de 90% dos presentes contra uma minoria de duas pessoas: meu cunhado São-Paulino e eu, um Santista da geração Pelé, que teve a felicidade de ver o Rei jogar.

Apesar de não ter expectativa de vitória diante desse Palmeiras vencedor, fomos acompanhando ao jogo, um tanto distraídos porque a festinha rolava solta, com balões pendurados e línguas-de-sogra sendo sopradas por muita gente, especialmente pelos mais velhos. A juventude, como convém, nos olhava com certo ar envergonhado. Faz parte.

Claro que o Palmeiras venceu, mas eu perdi o horário de um outro assunto que pretendia resolver em São Paulo. Eu iria encontrar amigos do teatro para tentar viabilizar minha peça por lá. (Voltarei ao cartaz em março aqui no Rio, no Teatro Café Pequeno, no Leblon. Trata-se de um lindo monólogo chamado “Pormenor de Ausência”, sobre os últimos anos de vida de Guimarães Rosa).

Enfim, a festinha e o jogo me impossibilitaram de chegar no horário do espetáculo que veria no Masp, mas ainda pretendia falar com meus amigos. Então, acabado o jogo, meu cunhado são-paulino e meu sobrinho palmeirense me levaram até o Metrô. O plano era passar no Masp, conversar com a turma, pegar o Metrô novamente, ir pra Rodoviária e voltar pro Rio naquele ônibus que já peguei centenas de vezes, que viaja a noite toda.

Entrei no banco traseiro do carro e fomos até o Metrô. Ao descer, o cinto de segurança bateu na lataria do carro e meu cunhado disse:

– Que barulho é esse?

Eu disse que era o cinto, peguei minha mochila, me despedi e entrei na Estação. Já estava em vias de entrar no trem quando bati a mão no bolso e percebi que estava sem o telefone.  E aí a gente sente aquele frio na barriga. Não entrei no vagão, vasculhei a mochila, já sem esperança porque não costumo carregar o celular na mochila e já fui me dirigindo pra fora da Estação porque sabia que teria que voltar. Tinha certeza de que o aparelho estava no banco traseiro do carro.

Cheguei de volta, de táxi, porque, sem celular não consegui chamar um Uber, bem mais barato. Até disse ao motorista que esperasse. Tinha certeza de que seria coisa de um minuto. Chamaria meu cunhado, ele abriria o carro, pegaria o telefone, eu entraria de volta no táxi que me levaria de volta ao Metrô.

Mas o pior aconteceu: o celular não estava no carro, não estava em casa, não estava em lugar nenhum.

Meu cunhado, que é um ser bem mais racional que eu, logo concluiu que o celular caíra no chão.

– Aquela hora que você saiu do carro…até falamos sobre um barulho, lembra?

Claro que eu lembrava, mas no momento inicial, logo que dei falta do aparelho, nem me ocorreu procurar no chão em frente à Estação, nada disso.

Então começou a saga de tentar ligar pra mim mesmo – e o telefone chamava, mas ninguém atendia.

Entramos de volta no carro e meu cunhado disse:

–  Esse celular ainda tá lá no chão. Vamos voltar.

E voltamos até o Metrô, mas o celular, claro, não estava no chão. Pedro, meu sobrinho, ligava pro meu número. Chamava e ninguém atendia. Meu cunhado disse que era um bom sinal, mas eu estava apavorado. Há um mês um cara assaltou a Juju, minha filha, levou o celular e fez um empréstimo bancário em nome dela através no aplicativo do banco instalado no telefone – não me pergunte como! Ela está às voltas com essa questão e esse prejuízo até agora.

Meu cunhado, prático, perguntou ao meu sobrinho, filho dele:

– Você tá ligando como?

– Pelo Zap.

Meu cunhado logo concluiu que, pelo Zap, ninguém conseguiria atender. Ele ligou via telefone  e foi atendido na hora.

Ele conversou por dois minutos com uma senhora e ela, muito atenciosa, disse que o marido dela e o neto devolveriam o celular próximo à catraca do Metrô. (Certamente ela marcou esse ponto de encontro pra conseguir alguma dose de segurança num lugar movimentado. Sabe-se lá, deve ter pensado). Nós fomos até o lugar combinado e, em cinco minutos, apareceu um senhor e o neto, muito simpáticos e vestidos com uniforme do Palmeiras. Eles tinham ido ao Morumbi ver o jogo, desceram do Metrô e acharam meu telefone no chão e levaram pra casa.

Eu agradeci tanto, mas tanto, e mesmo assim, me pareceu ter agradecido pouco.

Meu cunhado até tinha sugerido enquanto esperávamos por eles, que eu desse uma recompensa, mas, ao vê-los, ficou claro que isso poderia até soar ofensivo.

O homem e o neto disseram que não era nada, que compreendiam, com um sorriso feliz por terem feito aquilo. Eles tinham a voz absolutamente rouca por terem gritado muito dentro do Morumbi. Além de jogadas lindas do Palmeiras, o avô e o neto gritaram gol três vezes, e gritaram por várias outras ameaças concretas. O homem estava sem voz de felicidade. Aliás, pensando agora, pelo comportamento deles, o avô parecia ser o neto e vice-versa. O garoto era bem mais controlado. Certamente ainda terá bastante tempo para sorrir e sofrer pelo Palestra dele. O avô, calejado, aprendeu faz tempo que a fase boa passa e que é preciso aproveitar.

Já na madrugada, voltando de ônibus aqui pro Rio, sorrindo, pensei na minha sorte e na voz rouca daquela dupla AVÔ-NETO. Gente muito boa e que já se sentia recompensada pela vitória acachapante do Palestra deles sobre o meu Peixe. A dupla de palmeirenses e o próprio time, mostraram, no jogo de ontem, que a gente pode ser categórico ao vencer o adversário, mas que a gente pode, também, ser gentil e generoso. E que é preciso saber ganhar e perder.

Essa é uma lição que devemos exercitar em todos os assuntos da vida.

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