Skip to content

JpRevistas

Revista eletrônica de informação, cultura e entretenimento.

Primary Menu
  • Home
  • Quem somos
  • Boa Leitura
  • Carnaval
  • Colunistas
  • Contato
  • Entrevista
  • Publicidade
Light/Dark Button
Contato
  • Home
  • 2023
  • outubro
  • Um encontro com Madre Teresa De Calcutá
  • Colunistas
  • Ricardo Cravo Albin

Um encontro com Madre Teresa De Calcutá

Luiz Claudio de Almeida 3 de outubro de 2023 6 minutes read
WhatsApp Image 2023-10-03 at 14.25.19
Redes Sociais
           

Há dias vi um anúncio modestíssimo no jornal a convidar para uma missa em preito à hoje Santa Teresa de Calcutá, falecida no mês de setembro de 1997.
Fui. E pude reviver os momentos em que tive o privilégio de estar com ela, quando em viagem de um mês para tentar, insisto no verbo “tentar”, conhecer a grandeza espiritual deste inesquecível país asiático. (que me rendeu o livro de crônicas “Índia, um roteiro bem/mal-humorado).

A legenda de Teresa de Calcutá se consolidou lentamente, como só os trabalhos meritórios e permanentes são capazes. Pela década de 30, a jovem noviça da Albânia foi parar ali porque se perguntou qual a cidade do mundo com maior número de pobres. Fez-se missionária e fundadora da Ordem das irmãs pela Caridade, hoje espalhada por boa parte do mundo, inclusive no Brasil. Por mais de setenta anos ininterruptos, essa extraordinária albanesa tanto trabalhou pelos pobres que se considerava feliz quando era vista como parte integrante da cidade. Ela era mais. Teresa não só representava Calcutá aos olhos do mundo: ela foi, na verdade, a transfiguração da solidariedade e da compaixão humanas, elevadas à última consequência da doação e da persistência. Portanto, deferências honrosas, como o Prêmio Nobel da Paz, ainda são inferiores à consagração e crédito pessoais de que ela foi receptora em Calcutá e em qualquer outra parte do mundo.

Estive com Madre Teresa por cerca de 2 horas em sua morada de Calcutá, uma das cidades mais sombrias do mundo. Um quase pesadelo.
Abaixo dou o testemunho do que vi. E senti.

A entrada da Obra das Servas de Deus – numa das muitas ruas escuras e tristes da cidade – me deu a imediata dimensão da modéstia e das dificuldades do trabalho empreendido. Uma portinha- que podia ser de uma quitanda qualquer num subúrbio carioca – dá entrada ao hall, estreito e acanhado, de poucos metros quadrados. O chão de cimento esburacado me era familiar: lembrou-me de imediato, os pátios semelhantes em orfanatos pobres que visito no Rio, às vésperas do Natal.
O ambiente da sala também me era familiar dos orfanatos: muitas orações nas paredes e algumas frases como “Jesus é meu pastor e nada me faltará” ou “Quem dá aos pobres empresta a Deus”. Num canto, do lado esquerdo, algumas fotos da dona da sala, a maior das quais mostrando-a abraçada pelo Papa João Paulo, foto rabiscada por uma extensa dedicatória em latim, feita pelo próprio Pontífice. Durante dez minutos aguardamos a religiosa, dentro de um silêncio inesperado. Como se houvéssemos combinado, instalou-se entre nós, um pequeno grupo de 8 brasileiros, um ciciar só produzido em igrejas. A tensão, se existia e certamente existia, ficou contida. Uma aparição de mais uma freira, que informava serem proibidas fotos durante a entrevista, anunciava a imediata chegada. Com efeito, um minuto depois, amparada por uma terceira freira de aparência chinesa, adentrou a sala a figura muito pequena e magra, encurvada e olhando para o chão como se acompanhasse seus próprios passos, firmes e decididos. Todos nos levantamos. Ela sentou-se em frente à sua mesa, ao mesmo tempo em que pediu que nos sentássemos, com um gesto de mão impaciente, mas cordial. Olhou-nos, então, um a um, com um firme olhar, emitido por dois olhinhos apertados, sinceros e claros. E nos disse: “Vocês, brasileiros, são muito bons e generosos. Eu sou muito grata por esta visita inesperada de vocês”.
As palavras iniciais nos emocionaram ainda mais e derreteram, de imediato, o gelo da solenidade que envolve um mito. Durante alguns minutos, Madre Teresa de Calcutá prosseguiu, sozinha, seu pequeno e terno discurso. Falou das dificuldades de sua obra, falou da miséria e do amor, falou, sobretudo, da importância da fé em fazer alguma coisa, quando se acredita naquilo que se faz.
Com certo ceticismo, pedi-lhe, ao final do pequeno sermão pouco formal que acabara de ouvir, que ela me resumisse o que ainda poderia ser feito pelos pobres de Calcutá, tal a desolação do quadro que tinha conhecido naquela manhã. Teresa me lançou um olhar fulminante, muito firme e muito profundo: “Enquanto houver um pobre, um só, que possa melhorar com um benefício qualquer, qualquer ajuda terá valido a pena. E quanto aos pobres, na enormidade do conjunto de Calcutá, eles nos merecem três coisas: lágrimas, algumas, trabalhos, muitos e persistentes; e dinheiro, todo o que puder chegar da caridade dos mais ricos”.
Agora me dou conta, tantos anos depois, de que o discurso de Madre Teresa teve um sabor de originalidade de que nem apercebi à época. Não que fosse nada excepcional, não que as imagens utilizadas fossem literalmente sedutoras, nada disso. A fala da freira, emitida por uma voz já debilitada, tinha uma força que emanava do seu interior.
É algo que não se explica muito bem, mas – perdoem-me o lugar comum – se sente com o coração. Ao menos foi o que eu intuí do inexplicável carisma daquele ser tão pequeno, tão frágil e tão magnético. Santo? Até pode ser. Como de fato foi consagrada pelo Papa há poucos anos.
Com isso a entrevista se encerrou. Ela levantou da cadeira e autorizou as fotos. O silêncio se transformou em alarido. Todos nos postamos ao seu lado, e durante mais de cinco minutos foram feitas as poses mais diversas, algumas até insistentes, quase recalcitrantes. Ela portou-se estoicamente, atendendo a todos com paciência e bom humor. Até que alguém teve a ideia de deixar uma nota de dinheiro na mesa. A freira olhou, tomou na mão e agradeceu. Foi um sinal sutil e mágico. Todos os que a envolvíamos em círculo abrimos atabalhoadamente carteiras, bolsas e sacolas. E a mesa se encheu de dinheiro, das rupias desvalorizadas da Índia. Madre Teresa juntou todas as notas, uma a uma, e finalizou: “Eu não disse, ao início, que os brasileiros eram generosos?” E, antes de tomar a direção da porta, por onde entrara, ainda pediu, em voz mais alta: “E não deixem de dizer às minhas irmãs do Brasil que vocês estiveram aqui”. Os olhinhos apertaram-se ainda mais e, jogando a mão direita à frente, como a nos abençoar, despediu-se: “Deus lhes pague, Jesus esteja com vocês, vão em paz”.

Saímos da salinha e logo deixamos a casa modesta. Demos de imediato com os pedintes e miseráveis de Calcutá. Só que ali, naquele momento, eu não senti a mesma opressão quando entrara. Ao olhar aqueles miseráveis, eles me pareceram protegidos.
Aquele par de olhinhos persistentes e severos, que ainda guardava comigo, certamente estava olhando por eles. Mesmo sem eles se darem conta.

About the Author

Luiz Claudio de Almeida

Administrator

View All Posts

Post navigation

Previous: Cristo Redentor anuncia o Outubro Rosa
Next: Homenagem póstuma

Postagens Relacionadas

WhatsApp Image 2026-07-15 at 13.29.01
  • Colunistas
  • Vicente Limongi Netto

Amor do filho

Vicente Limongi Netto 15 de julho de 2026
Screenshot_20260713_184503_Gmail
  • Alex Gonçalves Varela
  • Colunistas

“Alegria é Resistência”

Alex Varela Gonçalves 15 de julho de 2026
images (4)
  • Arlindenor Pedro
  • Colunistas

Em busca de um novo programa para além da sociedade da mercadoria

Arlindenor Pedro 14 de julho de 2026

Recent Posts

  • Peptídeos: nem tudo o que viraliza está realmente pronto para ser usado de forma ampla e segura
  • Charge do Dia
  • Amor do filho
  • “Alegria é Resistência”
  • Rio Scenarium recebe a primeira celebração oficial do Dia da Gafieira

Recent Comments

Nenhum comentário para mostrar.

Archives

  • julho 2026
  • junho 2026
  • maio 2026
  • abril 2026
  • março 2026
  • fevereiro 2026
  • janeiro 2026
  • dezembro 2025
  • novembro 2025
  • outubro 2025
  • setembro 2025
  • agosto 2025
  • julho 2025
  • junho 2025
  • maio 2025
  • abril 2025
  • março 2025
  • fevereiro 2025
  • janeiro 2025
  • dezembro 2024
  • novembro 2024
  • outubro 2024
  • setembro 2024
  • agosto 2024
  • julho 2024
  • junho 2024
  • maio 2024
  • abril 2024
  • março 2024
  • fevereiro 2024
  • janeiro 2024
  • dezembro 2023
  • novembro 2023
  • outubro 2023
  • setembro 2023
  • agosto 2023
  • julho 2023
  • junho 2023
  • maio 2023
  • abril 2023
  • março 2023
  • fevereiro 2023
  • janeiro 2023
  • dezembro 2022
  • novembro 2022
  • outubro 2022
  • setembro 2022
  • agosto 2022
  • julho 2022
  • junho 2022
  • maio 2022
  • abril 2022
  • março 2022
  • fevereiro 2022
  • janeiro 2022
  • dezembro 2021
  • novembro 2021
  • outubro 2021
  • setembro 2021
  • agosto 2021
  • julho 2021
  • junho 2021
  • maio 2021
  • abril 2021
  • março 2021
  • fevereiro 2021
  • janeiro 2021
  • dezembro 2020
  • novembro 2020
  • outubro 2020
  • setembro 2020
  • agosto 2020
  • julho 2020
  • junho 2020
  • maio 2020
  • abril 2020
  • março 2020
  • fevereiro 2020
  • janeiro 2020
  • dezembro 2019
  • novembro 2019
  • outubro 2019
  • setembro 2019
  • agosto 2019
  • julho 2019
  • junho 2019
  • maio 2019
  • abril 2019
  • março 2019
  • fevereiro 2019
  • janeiro 2019
  • dezembro 2018
  • novembro 2018
  • outubro 2018
  • setembro 2018
  • agosto 2018
  • julho 2018
  • junho 2018
  • maio 2018
  • abril 2018
  • março 2018
  • fevereiro 2018
  • janeiro 2018
  • dezembro 2017
  • novembro 2017
  • outubro 2017
  • setembro 2017
  • agosto 2017
  • julho 2017
  • junho 2017
  • maio 2017
  • abril 2017
  • março 2017
  • fevereiro 2017
  • janeiro 2017
  • dezembro 2016
  • novembro 2016
  • outubro 2016
  • setembro 2016
  • agosto 2016
  • julho 2016
  • junho 2016
  • maio 2016
  • abril 2016
  • março 2016
  • fevereiro 2016
  • janeiro 2016
  • dezembro 2015
  • novembro 2015
  • outubro 2015
  • setembro 2015
  • março 2015

Categories

  • Agenda
  • Alex Cabral Silva
  • Alex Gonçalves Varela
  • Arlindenor Pedro
  • Arte Moderna
  • Boa Leitura
  • Carlos Monteiro
  • Carnaval
  • Category
  • Charge
  • Chico Vartulli
  • Cinema
  • Cinema
  • Civil Society
  • Cláudia Chaves
  • Climate
  • Colunistas
  • Conflict
  • Crônicas
  • Cultura
  • Democracy
  • Desfile das Campeãs
  • Divaldo Franco
  • Elda Priami
  • Entrevistas
  • Flávio Filipe
  • Gastronomia
  • Geopolitics
  • Geraldo Nogueira
  • Giuseppe Oristanio
  • Grande Rio
  • IMpério da Tijuca
  • Internacional
  • João Henrique
  • livro
  • Livros
  • Lu Catoira
  • Luis Pimentel
  • Luisa Catoira
  • Mangueira
  • Miguel Paiva
  • Mocidade Independente
  • Mostra
  • Musica
  • Negócios
  • News Analysis
  • Nosso Camarote
  • Odette Castro
  • Olga de Mello
  • Paraiso do Tuiuti
  • Patrícia Morgado
  • peça
  • política
  • Political Trends
  • Portela
  • Power
  • Ricardo Cravo Albin
  • Rogéria Gomes
  • Salgueiro
  • Samba
  • São Clemente
  • Sapucaí
  • Saúde
  • Show
  • Society
  • Teatro
  • Uncategorized
  • Unidos da Tijuca
  • Variedades
  • Vicente Limongi Netto
  • Vila Isabel
  • Viradouro
  • Viviana Navarro

Top News

  • image (3)
    Peptídeos: nem tudo o que viraliza está realmente pronto para ser usado de forma ampla e segura
  • WhatsApp Image 2026-07-15 at 00.33.36
    Charge do Dia
  • (sem título)
  • (sem título)

Meta

  • Acessar
  • Feed de posts
  • Feed de comentários
  • WordPress.org

O que você perdeu...

image (3)
  • Cultura
  • Variedades

Peptídeos: nem tudo o que viraliza está realmente pronto para ser usado de forma ampla e segura

Luiz Claudio de Almeida 15 de julho de 2026
WhatsApp Image 2026-07-15 at 00.33.36
  • Charge
  • Miguel Paiva

Charge do Dia

Miguel Paiva 15 de julho de 2026
WhatsApp Image 2026-07-15 at 13.29.01
  • Colunistas
  • Vicente Limongi Netto

Amor do filho

Vicente Limongi Netto 15 de julho de 2026
Screenshot_20260713_184503_Gmail
  • Alex Gonçalves Varela
  • Colunistas

“Alegria é Resistência”

Alex Varela Gonçalves 15 de julho de 2026

Recent Posts

  • image (3)
    Peptídeos: nem tudo o que viraliza está realmente pronto para ser usado de forma ampla e segura15 de julho de 2026
  • WhatsApp Image 2026-07-15 at 00.33.36
    Charge do Dia15 de julho de 2026
  • WhatsApp Image 2026-07-15 at 13.29.01
    Amor do filho15 de julho de 2026

Tags

Arte beija-flor Blocos de Carnaval Brasil Brasília Carnaval Carnaval de Rua Carnaval Rio 2026 Carnaval SP Centro Cultural Correios Cinema crime Cultura eleição Espetáculo Exposição Filme Flamengo Folia food Futebol Imperio Serrano Justiça LGBTQIA+ literatura Livro livros Lula Mangueira Mostra Natal OAB-RJ Política Portela Rio Rio de Janeiro RiodeJaneiro samba Sapucaí Senado sports teatro tech TJRJ travel

Site Produzido por Infomídia Digital | MoreNews by AF themes.