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O Fim da Política e a Nova Oligarquia Global: Entre Biden, Trump e a Crise do Valor

Luiz Claudio de Almeida 12 de julho de 2025 6 minutes read
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Redes Sociais
           
 Por Arlindenor Pedro  – Professor de História e Sociologia, coordenador do blog Utopias Pós Capitalistas.
   “Hoje, uma oligarquia está se formando na América — de riqueza, poder e influência extremos — que realmente ameaça toda a nossa democracia, nossos direitos e liberdades fundamentais, e a chance justa de todos progredirem”.
— Joe Biden, discurso de despedida, janeiro de 2025.
   A  frase de Joe Biden, proferida ao entregar o cargo à administração de Donald Trump, ecoa não somente o famoso alerta de Eisenhower contra o “complexo industrial-militar”, mas revela, involuntariamente, um sintoma mais profundo: A auto dissolução da política na era do capital em crise.
   Está mais do que evidente que a política estatal moderna, fundada na mediação entre trabalho, valor e cidadania, entrou em colapso porque os próprios fundamentos do capital perderam sua capacidade de regeneração histórica.
Quando Biden fala em “oligarquia”, descreve uma concentração inédita de poder que não se limita a bilionários ou corporações específicas. Trata-se de uma autonomia cega do capital transnacional, que submete Estados, governos e sociedades inteiras a uma lógica abstrata de valorização que já não consegue mais incluir as massas no jogo da participação econômica ou política.
   A oligarquia que ameaça a democracia burguesa moderna não é um desvio do sistema, mas sua expressão mais pura quando este atinge seus limites históricos.
  A política dos Estados Nacionais não seguiria e dividiriam, então, os interesses das classes dominantes como um todo, conforme a sua influência em um determinado contexto, mas sim à submissão draconiana de todos ao grupo que se assenhorou do poder. Em última instância, tratar-se-ia aqui de uma mera política de rapina.
Isso ajuda a entender por que as empresas de Donald Trump agem com tanta força na política externa dos EUA — como na ocupação de Gaza, onde há projetos de resort naquela orla, ou nas atividades da World Liberty Financial, empresa da família do presidente que vende criptomoedas. A política externa americana se tornou, assim, uma simples extensão dos seus interesses comerciais.
É nesse cenário que se insere a recente ameaça do presidente Donald Trump de impor uma tarifa de 50% ao Brasil, sob o pretexto de represália política pela tentativa de distanciamento do governo Lula como aliado tradicional dos EUA e de iminente prisão de seu aliado no Brasil, o ex-presidente Bolsonaro.
  A chantagem geoeconômica, justificada com termos nacionalistas, revela a fusão entre interesse privado, tecnologia e política imperial, típica do que Biden chamou de “complexo industrial-tecnológico”.
 Mas é importante frisar que essa fusão não representa uma degeneração, e sim a forma contemporânea da própria dominação capitalista: um sistema que, ao dissolver os limites entre Estado e mercado, transforma toda forma de política em administração tecnocrática de crises insolúveis.
Nesse sentido, verificamos que o indivíduo burguês — antes simultaneamente cidadão e ator econômico — agora tem sua identidade diluída: O componente político (Cidadania) perde relevância frente à lógica econômica, resultando num sujeito “totalmente abstrato” incapaz de mediação social.
   Essa cisão revela uma “esquizofrenia estrutural” entre razão instrumental (econômica) e racionalidade política ou social. Essa inversão estrutural representa o colapso da polaridade mercado versus Estado, marcando o “fim da política” como campo autônomo de decisão e democratização.
  Dessa forma, a própria jurisprudência de ordenamento do capital, os tratados de comércio, os tribunais internacionais e a própria ONU perdem qualquer significado, imperando a lei da força da barbárie generalizada.
O Brasil, nesse tabuleiro, não é sujeito, mas sim objeto.
 As relações diplomáticas, os acordos comerciais e as escolhas políticas internas tornam-se reféns da volatilidade dos capitais e dos humores do império em crise.
 A tentativa de Trump de usar tarifas como arma geopolítica reafirma que, sob a lógica do valor global, a política externa é somente um prolongamento da guerra econômica por outros meios — e os governos locais, sobretudo na periferia, operam como executores terceirizados do capital transnacional.
Vejamos que aqui não se leva em consideração se a aplicação de tal política tarifária irá prejudicar o comércio entre segmentos econômicos do próprio EUA e do Brasil.
 Contratos serão desfeitos e empregos irão desaparecer, de lado a lado , se houver retaliação .
  Mas, isto não interessa. O que prevalece são os objetivos imediatos das famílias que detém o poder, tanto do lado americano , quanto da família Bolsonaro que não teve o menor pudor de colocar seus interesses imediatos em primeiro lugar . Mesmo que isto afete compatriotas seus .
Queremos advertir aqui que será um erro se ficarmos observando esta crise somente dentro da ótica dos atores nela envolvidos: O governo Trump e as ações de retaliações do governo Lula .   Temos que olhar além das aparências.    É preciso  constatar que os governos nacionais deixam de ser capazes de formular ou de impor alternativas reais, pois estão submetidos à lógica do lucro global, provocando competição entre Estados por benefícios e empresas, com consequências sociais e ambientais negativas.
  Não existe aqui interesse de Estado e sim os interesses imediatos da trupe que está no poder.
Assim, o “fim da política” não é uma metáfora, mas uma constatação: As formas modernas de governo — democracia, soberania, representação — foram esvaziadas de conteúdo histórico, tornadas obsoletas pela própria autonomização do capital. As oligarquias a que Biden se refere são somente os rostos visíveis de um processo estrutural, no qual a política já não decide, somente gerencia o inadministrável.
A única alternativa real, como apontamos sempre, no Blog Utopias Pós Capitalistas,  não é o retorno a formas idealizadas de política democrática, que já não cabem mais, mas uma ruptura radical com as formas sociais fetichistas que sustentam o capital — o próprio Estado em decomposição, a mercadoria, o dinheiro, o trabalho abstrato.
  Enquanto isso não ocorre, os Trump e seus aliados locais, como Bolsonaro e aqueles que o seguem, continuarão a encarnar essa fusão tóxica entre mercado, autoritarismo e ressentimento, enquanto o planeta e a democracia seguem desmoronando sob a tirania do valor.

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