Skip to content

JpRevistas

Revista eletrônica de informação, cultura e entretenimento.

Primary Menu
  • Home
  • Quem somos
  • Boa Leitura
  • Carnaval
  • Colunistas
  • Contato
  • Entrevista
  • Publicidade
Contato
  • Home
  • 2025
  • outubro
  • A Paz como Intervalo da Guerra: Gaza e o Capitalismo em Colapso
  • Arlindenor Pedro
  • Colunistas

A Paz como Intervalo da Guerra: Gaza e o Capitalismo em Colapso

Arlindenor Pedro 15 de outubro de 2025 8 minutes read
WhatsApp Image 2025-10-15 at 16.53.20
Redes Sociais
           
Por Arlindenor Pedro  –  Professor de História, Sociologia e Filosofia, editor do Blog, Revista Eletrônica e canal YouTube Utopias Pós Capitalistas.

A recente trégua em Gaza, intermediada pelos Estados Unidos e apoiada por organismos internacionais, foi celebrada como um sinal de esperança após meses de massacres e bloqueios. No entanto, à medida que os caminhões de ajuda humanitária atravessam os escombros e os diplomatas posam para as câmeras, torna-se evidente que o conflito não cessa, apenas muda de forma.

  Cada cessar-fogo é uma pausa no ruído das bombas, mas não no funcionamento da engrenagem que as produz. O problema não é apenas político ou religioso, é estrutural.
  Como observa o professor Marildo Menegat, a guerra contemporânea tornou-se uma modalidade de gestão da crise capitalista, uma forma de reciclar destruição em acumulação. Converteu-se  no ramo mais rentável de um capitalismo em colapso de sentido.
  O complexo militar-financeiro-industrial funciona como o motor de uma economia global que já não consegue se sustentar pela produção de valor, mas apenas pela produção de ruínas. Israel é, nesse sentido, não apenas um Estado em guerra, mas um modelo de sociedade em que a violência se tornou princípio de organização.
  Cada míssil lançado, cada muro reconstruído, cada bairro reerguido em Gaza movimenta cadeias financeiras, contratos de reconstrução e tecnologias de vigilância que são exportadas como produtos de sucesso. O mercado da guerra opera como um setor estratégico: transforma o provisório em método, o medo em ativo e o território em mercadoria.
A fundação de Israel, nascida do trauma do Holocausto e do imperativo da sobrevivência, transformou-se gradualmente em um paradigma de militarização permanente. Desde 1967, com a ocupação dos territórios palestinos, a exceção tornou-se norma. O Estado social ruiu diante da privatização e da financeirização, e a ocupação virou política de governo. Os colonos, antes movidos por ideais nacionalistas, passaram a ser atraídos por incentivos econômicos, infraestrutura e proteção estatal. Hoje, fundos internacionais e corporações imobiliárias, em parceria com grupos religiosos, administram assentamentos como investimentos rentáveis. A guerra não destrói o capital: Ela o reorganiza. A reconstrução pós-bombardeio, vendida como humanitária, é também uma operação de mercado.
Como ensina Menegat, a guerra moderna já não é uma interrupção da normalidade civil, mas sua extensão lógica. É o modo pelo qual o capitalismo, incapaz de expandir-se pela produção, passa a expandir-se pela devastação. Em Gaza, esse processo é visível: cada ataque gera contratos, cada ruína cria oportunidade de reconstrução, cada trégua renova o ciclo de endividamento e dependência. A paz, nesse contexto, é apenas o intervalo contábil da guerra.
  O capitalismo de guerra tornou-se o modelo geral de uma economia que precisa destruir para continuar existindo. No interior desse ciclo, o sionismo converteu-se numa ideologia de poder estatal e financeiro que aprisiona o próprio povo judeu num destino trágico. O que nasceu como resposta ao extermínio transformou-se em projeto de dominação territorial e religiosa. Em consequência, cresce o isolamento de comunidades judaicas em várias partes do mundo, forçadas a conviver com a identificação entre judaísmo e militarismo, entre memória e ocupação.
   A política expansionista do governo israelense, ao usar o Holocausto como justificativa permanente, alimenta involuntariamente a reativação de formas modernas de antissemitismo. Esse ressentimento difuso, que se propaga em redes e movimentos populistas, volta a converter o judeu em bode expiatório de um sistema que é, na verdade, capitalista e global. O antissemitismo contemporâneo não é resistência ao sionismo, mas seu espelho distorcido: ele transforma as vítimas da história em culpados, enquanto absolve o capital que produz a guerra.
Do outro lado, a situação palestina também foi sequestrada por elites políticas e burocráticas. A Autoridade Palestina, em especial seu núcleo instalado em Ramallah, tornou-se um instrumento de mediação entre a ocupação israelense e as potências internacionais. Muitos de seus dirigentes administram fundos de reconstrução, segurança e infraestrutura em troca de estabilidade, participando da engrenagem que perpetua o bloqueio. A corrupção e o autoritarismo interno substituíram o ideal de libertação por um sistema de clientelas e privilégios. Essa captura política do sofrimento palestino é o outro lado do mesmo processo: a mercantilização da resistência.
Por isso, falar em “solução de dois Estados” é insistir em uma ficção. Tanto o Estado de Israel quanto o Estado Palestino, moldados segundo o paradigma do Estado-nação, estão presos a uma lógica esgotada. O que se torna necessário é pensar um espaço político radicalmente novo: um Estado único, multinacional e provisório, que não se fundamente na soberania territorial, mas na coexistência emancipatória. Esse arranjo seria uma ponte e não um destino. Em vez de delimitar fronteiras, dissolveria o vínculo entre cidadania e etnia, entre terra e propriedade, entre segurança e militarização. Seria o primeiro passo concreto rumo a uma sociedade pós-estatal e pós-capitalista, baseada na partilha dos recursos essenciais e na desmercantilização da vida.
A atual trégua pode representar um pequeno alívio humano, mas ela também expõe o cinismo de um sistema que transforma cada destruição em oportunidade de negócio. Israel exporta tecnologia de vigilância e segurança como quem exporta café ou soja; os Estados Unidos renovam contratos bilionários de armamento; o mundo árabe se divide entre o cálculo geopolítico e a impotência. Gaza, convertida em campo de experimentação, é o espelho mais cruel de uma era em que a barbárie se tornou racional.
Se Israel nasceu como defesa extrema contra o extermínio, sua verdadeira contribuição à humanidade só poderá se realizar quando transformar essa defesa em princípio universal, não mais a defesa de um Estado, mas da própria vida contra a lógica do valor e da guerra permanente. Antes da fundação do Estado de Israel, a Palestina histórica era uma terra de convivência múltipla, onde judeus, muçulmanos e cristãos partilhavam cidades, mercados e festas. Essa tessitura social, complexa e imperfeita, foi rompida não apenas pela violência colonial britânica e pelo nacionalismo europeu, mas pela emergência de um capitalismo que precisou fragmentar o comum para sobreviver. O sionismo político e o pan-arabismo nasceram ambos das cinzas de impérios e sob a sombra de um mundo que trocava a comunidade pela propriedade, a vizinhança pela soberania. A tragédia que se seguiu foi a tradução concreta da utopia liberal em ruína: a promessa de liberdade individual dissolveu-se em fronteiras armadas.
Hoje o planeta revive essa ruína. Os Estados-nação promovidos pelas burguesias liberais estão em colapso, corroídos pela financeirização e sitiados pela extrema direita. O pacto social que sustentava as democracias ocidentais desmorona diante da globalização do medo e da obsolescência do trabalho. Sem uma base material para o progresso, a identidade se torna mercadoria e o ódio, substituto da esperança. Israel e Gaza são o espelho ampliado do mundo: territórios onde a política já não regula a economia, mas é regulada por ela; onde o Estado já não é mediador de direitos, mas gestor da escassez.
Pensar um Estado único, provisório e multinacional na Palestina não é mera utopia orientalista, mas a antecipação simbólica de uma tarefa histórica global: reconstruir a comunidade humana além das fronteiras e dos valores que a destruíram. Se, no passado, judeus e árabes compartilharam ruas, ofícios e celebrações, é porque havia uma experiência concreta de coexistência que o capitalismo moderno dissolveu. Recuperar esse fio, mesmo que como horizonte, é recusar a ideia de que o destino da humanidade é escolher entre a barbárie autoritária e o mercado sem alma. Um novo espaço político, pós-estatal e comunal, poderia converter a trégua em Gaza num gesto inaugural: o primeiro sinal de que ainda é possível habitar o mundo sem possuir a terra, conviver sem vigiar e reconstruir sem destruir.

About the Author

Arlindenor Pedro

Editor

View All Posts

Post navigation

Previous: Advogada Alessandra Balestieri participa do Global Youth Leadership Fórum (GYLF), na Espanha
Next: Treinamento Permanente em Recuperação de Empresas

Postagens Relacionadas

SjpS5rEU-brasil-marrocos-1181x768
  • Colunistas
  • Vicente Limongi Netto

Começo medonho

Vicente Limongi Netto 14 de junho de 2026
Bom astral
  • Colunistas
  • Vicente Limongi Netto

Bom astral

Vicente Limongi Netto 13 de junho de 2026
Screenshot
  • Colunistas

Riocentro: a bomba que explodiu no colo da ditadura

Luiz Claudio de Almeida 13 de junho de 2026

Recent Posts

  • “O Vampiro Cotidiano”: A cineasta e escritora Maria Letícia lança seu primeiro livro de ficção para o público adulto
  • Nova idade
  • Começo medonho
  • Luiz Carlos Lacerda vai participar do III Festival de Cinema e Política de Maricá
  • Novo acordo de reciprocidade entre OAB Nacional e Ordem dos Advogados de Portugal

Recent Comments

Nenhum comentário para mostrar.

Archives

  • junho 2026
  • maio 2026
  • abril 2026
  • março 2026
  • fevereiro 2026
  • janeiro 2026
  • dezembro 2025
  • novembro 2025
  • outubro 2025
  • setembro 2025
  • agosto 2025
  • julho 2025
  • junho 2025
  • maio 2025
  • abril 2025
  • março 2025
  • fevereiro 2025
  • janeiro 2025
  • dezembro 2024
  • novembro 2024
  • outubro 2024
  • setembro 2024
  • agosto 2024
  • julho 2024
  • junho 2024
  • maio 2024
  • abril 2024
  • março 2024
  • fevereiro 2024
  • janeiro 2024
  • dezembro 2023
  • novembro 2023
  • outubro 2023
  • setembro 2023
  • agosto 2023
  • julho 2023
  • junho 2023
  • maio 2023
  • abril 2023
  • março 2023
  • fevereiro 2023
  • janeiro 2023
  • dezembro 2022
  • novembro 2022
  • outubro 2022
  • setembro 2022
  • agosto 2022
  • julho 2022
  • junho 2022
  • maio 2022
  • abril 2022
  • março 2022
  • fevereiro 2022
  • janeiro 2022
  • dezembro 2021
  • novembro 2021
  • outubro 2021
  • setembro 2021
  • agosto 2021
  • julho 2021
  • junho 2021
  • maio 2021
  • abril 2021
  • março 2021
  • fevereiro 2021
  • janeiro 2021
  • dezembro 2020
  • novembro 2020
  • outubro 2020
  • setembro 2020
  • agosto 2020
  • julho 2020
  • junho 2020
  • maio 2020
  • abril 2020
  • março 2020
  • fevereiro 2020
  • janeiro 2020
  • dezembro 2019
  • novembro 2019
  • outubro 2019
  • setembro 2019
  • agosto 2019
  • julho 2019
  • junho 2019
  • maio 2019
  • abril 2019
  • março 2019
  • fevereiro 2019
  • janeiro 2019
  • dezembro 2018
  • novembro 2018
  • outubro 2018
  • setembro 2018
  • agosto 2018
  • julho 2018
  • junho 2018
  • maio 2018
  • abril 2018
  • março 2018
  • fevereiro 2018
  • janeiro 2018
  • dezembro 2017
  • novembro 2017
  • outubro 2017
  • setembro 2017
  • agosto 2017
  • julho 2017
  • junho 2017
  • maio 2017
  • abril 2017
  • março 2017
  • fevereiro 2017
  • janeiro 2017
  • dezembro 2016
  • novembro 2016
  • outubro 2016
  • setembro 2016
  • agosto 2016
  • julho 2016
  • junho 2016
  • maio 2016
  • abril 2016
  • março 2016
  • fevereiro 2016
  • janeiro 2016
  • dezembro 2015
  • novembro 2015
  • outubro 2015
  • setembro 2015
  • março 2015

Categories

  • Agenda
  • Alex Cabral Silva
  • Alex Gonçalves Varela
  • Arlindenor Pedro
  • Arte Moderna
  • Boa Leitura
  • Carlos Monteiro
  • Carnaval
  • Category
  • Charge
  • Chico Vartulli
  • Cinema
  • Cinema
  • Civil Society
  • Cláudia Chaves
  • Climate
  • Colunistas
  • Conflict
  • Crônicas
  • Cultura
  • Democracy
  • Desfile das Campeãs
  • Divaldo Franco
  • Elda Priami
  • Entrevistas
  • Flávio Filipe
  • Gastronomia
  • Geopolitics
  • Geraldo Nogueira
  • Giuseppe Oristanio
  • Grande Rio
  • IMpério da Tijuca
  • Internacional
  • João Henrique
  • livro
  • Livros
  • Lu Catoira
  • Luis Pimentel
  • Luisa Catoira
  • Mangueira
  • Miguel Paiva
  • Mocidade Independente
  • Mostra
  • Musica
  • Negócios
  • News Analysis
  • Nosso Camarote
  • Odette Castro
  • Olga de Mello
  • Paraiso do Tuiuti
  • Patrícia Morgado
  • peça
  • política
  • Political Trends
  • Portela
  • Power
  • Ricardo Cravo Albin
  • Rogéria Gomes
  • Salgueiro
  • Samba
  • São Clemente
  • Sapucaí
  • Saúde
  • Show
  • Society
  • Teatro
  • Uncategorized
  • Unidos da Tijuca
  • Variedades
  • Vicente Limongi Netto
  • Vila Isabel
  • Viradouro
  • Viviana Navarro

Top News

  • Rosamaria Murtinho e Roberto Athayde
    “O Vampiro Cotidiano”: A cineasta e escritora Maria Letícia lança seu primeiro livro de ficção para o público adulto
  • Ana Paula Barbosa, Maninha Barbosa e Dandynha Barbosa
    Nova idade
  • (sem título)
  • (sem título)

Meta

  • Acessar
  • Feed de posts
  • Feed de comentários
  • WordPress.org

O que você perdeu...

Rosamaria Murtinho e Roberto Athayde
  • Boa Leitura
  • Cultura
  • Variedades

“O Vampiro Cotidiano”: A cineasta e escritora Maria Letícia lança seu primeiro livro de ficção para o público adulto

Luiz Claudio de Almeida 14 de junho de 2026
Ana Paula Barbosa, Maninha Barbosa e Dandynha Barbosa
  • Cultura
  • Variedades

Nova idade

Luiz Claudio de Almeida 14 de junho de 2026
SjpS5rEU-brasil-marrocos-1181x768
  • Colunistas
  • Vicente Limongi Netto

Começo medonho

Vicente Limongi Netto 14 de junho de 2026
IMG-20260614-WA0027
  • Agenda

Luiz Carlos Lacerda vai participar do III Festival de Cinema e Política de Maricá

Luiz Claudio de Almeida 14 de junho de 2026

Recent Posts

  • Rosamaria Murtinho e Roberto Athayde
    “O Vampiro Cotidiano”: A cineasta e escritora Maria Letícia lança seu primeiro livro de ficção para o público adulto14 de junho de 2026
  • Ana Paula Barbosa, Maninha Barbosa e Dandynha Barbosa
    Nova idade14 de junho de 2026
  • SjpS5rEU-brasil-marrocos-1181x768
    Começo medonho14 de junho de 2026

Tags

Arte Blocos de Carnaval Bolsonaro Brasil Brasília Carnaval Carnaval de Rua Carnaval Rio 2026 Carnaval SP Cinema crime eleição Espetáculo Exposição Filme Flamengo Folia food Futebol Imperio Serrano Justiça LGBTQIA+ literatura Livro livros Lula Mangueira mulher NetFlix OAB-RJ Política Portela rapper Rio Rio de Janeiro RiodeJaneiro samba Sapucaí Senado sports teatro tech TJRJ travel violência

Site Produzido por Infomídia Digital | MoreNews by AF themes.