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O efeito Al Capone no sistema financeiro brasileiro

Luiz Claudio de Almeida 5 de março de 2026 4 minutes read
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Por Henrique Pinheiro  – Economista e produtor executivo de cinema, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor – Colunista convidado.

Da Coroa-Brastel ao Banco Master, a história mostra que crises bancárias raramente começam no dia da prisão — e quase sempre revelam falhas acumuladas de mercado e supervisão.

Grandes escândalos financeiros raramente começam no dia da prisão. Quase sempre começam anos antes, quando sinais de alerta passam despercebidos ou são subestimados.

A nova prisão de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, recoloca no centro do debate uma pergunta antiga sobre o sistema financeiro brasileiro. Por que certos episódios parecem sempre se repetir? Segundo as investigações, há suspeitas que envolvem organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção e obstrução de justiça.

Entre os elementos mencionados está também a tentativa de intimidação de jornalistas.

Mas a história mostra que, muitas vezes, o caminho judicial não começa exatamente pelo coração dos problemas. Começa pelo que é possível provar primeiro. Esse fenômeno não é novo.

O exemplo clássico vem dos Estados Unidos. O gangster Al Capone, responsável por uma vasta rede de crimes durante a Lei Seca, acabou condenado não por assassinatos ou contrabando, mas por evasão fiscal. Era o caminho juridicamente viável naquele momento. Investigações complexas frequentemente seguem essa lógica. Quando estruturas financeiras são sofisticadas, provar o núcleo do esquema pode levar anos.

. Enquanto isso, autoridades atuam onde conseguem. O episódio atual também convida a uma reflexão mais ampla sobre a história das crises bancárias no Brasil. O país já atravessou diversos episódios que expuseram fragilidades no sistema financeiro.

Nos anos 1980, o colapso da Coroa-Brastel revelou como estruturas financeiras complexas podiam esconder riscos gigantescos. Nos anos 1990, veio a intervenção no Banco Nacional, marcada pelo episódio das contas fictícias usadas para ocultar prejuízos bilionários. Uma década depois, o caso do Banco Santos voltou a expor fragilidades na governança e nos controles internos do sistema bancário. Em 2012, o colapso do Banco Cruzeiro do Sul repetiu, com novas formas, problemas já conhecidos.

Cada caso tem suas particularidades, mas todos revelam algo em comum: crises financeiras raramente surgem de forma repentina. Elas costumam ser o resultado de processos que se acumulam ao longo do tempo — expansão acelerada, incentivos distorcidos, engenharia financeira sofisticada e, muitas vezes, falhas de supervisão. Esse é um padrão recorrente na história financeira brasileira, tema que também abordo no livro Crônicas de um Mercado sem Pudor, que revisita episódios marcantes das últimas décadas do sistema bancário do país.

Quando o sistema finalmente reage, surge sempre a mesma pergunta. Por que isso não foi percebido antes? Essa pergunta não diz respeito apenas às instituições privadas. Ela envolve inevitavelmente o papel dos órgãos responsáveis pela supervisão e regulação do sistema financeiro. A solidez de um sistema bancário não depende apenas da conduta de seus administradores, mas também da capacidade de vigilância e tempestividade das instituições encarregadas de regulá-lo. Supervisão tardia quase sempre significa custos maiores — para investidores, para depositantes e para a própria credibilidade das instituições.

O caso atual ainda está em investigação, e o direito de defesa é princípio fundamental do Estado de Direito. Mas, independentemente do desfecho judicial, ele reacende um debate necessário sobre como evitar que ciclos semelhantes continuem se repetindo. Porque, no final, o sistema financeiro depende de algo que nenhuma engenharia contábil consegue substituir: confiança. E quando a confiança se rompe, não é apenas um banco que entra em crise. É todo o sistema de supervisão que passa a ser questionado.

 

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