
Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo de cinema e autor de Crônica de um Mercado sem Pudor – Colunista convidado.
Há 62 anos, em 13 de março de 1964, o Brasil viveu um dos momentos mais marcantes de sua história política.
Em frente à Central do Brasil e diante do Ministério do Exército, no Rio de Janeiro, mais de 200 mil pessoas lotaram a praça para ouvir o presidente João Goulart e manifestar apoio às chamadas Reformas de Base.
Para os padrões demográficos da época, aquela multidão equivaleria hoje a milhões de pessoas nas ruas.
O país atravessava um período de forte tensão política e econômica, mas também de intensa mobilização social. Trabalhadores, estudantes, sindicatos e amplos setores da sociedade defendiam mudanças estruturais capazes de enfrentar desigualdades históricas que marcavam o Brasil.
No centro daquele debate estavam as Reformas de Base — um conjunto de propostas que incluía reformas agrária, urbana, educacional, fiscal e eleitoral. A intenção era atualizar as estruturas sociais e econômicas do país para que o crescimento viesse acompanhado de maior justiça social.
Naquela noite histórica, o comício ganhou um significado ainda maior quando o presidente João Goulart assinou o decreto que autorizava a desapropriação de terras improdutivas situadas às margens de rodovias, ferrovias e açudes federais, uma medida concreta dentro do projeto de reforma agrária defendido pelo governo.
Tratava-se de um primeiro passo para enfrentar a histórica concentração fundiária no campo brasileiro e estimular a utilização produtiva da terra. O decreto estabelecia que áreas superiores a 500 hectares, localizadas ao longo dessas faixas de infraestrutura, poderiam ser destinadas ao processo de reforma agrária conduzido pela SUPRA — Superintendência da Reforma Agrária. O governo também avançava em outras frentes das Reformas de Base. Entre as medidas defendidas estavam a encampação das refinarias privadas de petróleo, o fortalecimento da soberania nacional sobre setores estratégicos da economia e a regulamentação da remessa de lucros ao exterior, temas que provocavam intenso debate na sociedade brasileira daquele período. Naquele momento, meu pai, João Pinheiro Neto, desempenhava papel central nesse processo. À frente da SUPRA, participava diretamente da formulação e implementação das políticas que buscavam transformar em realidade o projeto de reforma agrária proposto pelo governo.
No dia seguinte ao comício da Central, João Goulart seguiu para São Borja. De lá, tomou uma decisão que revelava a dimensão pessoal de suas convicções. Comunicou a meu pai que suas próprias fazendas — a Fazenda Urutaí, em Goiás, e a Fazenda Maragata, em São Borja — deveriam ser incluídas entre as primeiras áreas a serem desapropriadas pelo decreto da SUPRA. Era um gesto simbólico e, ao mesmo tempo, profundamente concreto.
O presidente buscava demonstrar que as reformas que defendia deveriam começar pelo exemplo, alcançando inclusive propriedades pertencentes ao próprio chefe de Estado.
O comício da Central do Brasil representou o auge de um debate nacional sobre o futuro do país. De um lado estavam aqueles que acreditavam na necessidade de reformas estruturais para democratizar a economia e ampliar oportunidades.
De outro, setores que viam nessas mudanças uma ameaça à ordem estabelecida. O local escolhido também carregava forte simbolismo político. O ato ocorreu praticamente sob as janelas do Ministério do Exército, fato que muitos interpretaram, à época, como uma provocação em um ambiente político já profundamente polarizado.
Poucas semanas depois, esse confronto de visões culminaria na ruptura institucional que marcaria o Brasil por duas décadas. Passados 62 anos, o comício da Central permanece como um dos momentos mais emblemáticos da história republicana. Aquela multidão não estava apenas a ouvir discursos. Todos participaram de um momento em que o Brasil discutia, de forma aberta e intensa, como enfrentar desigualdades históricas e construir um país mais justo.
A história também se escreve nas praças. E, naquela noite de 13 de março de 1964, diante da Central do Brasil, mais de duzentas mil vozes — que hoje seriam milhões — pediam reformas.



