
Por Henrique Pinheiro – Economista e Produtor Executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor do livro “Crônica de um Mercado sem Pudor” – Colunista convidado.
Enquanto a política encena disputas visíveis, as estruturas que concentram renda, terra e influência permanecem intocadas — e a maioria da população segue pagando a conta. Não sou homem de esquerda nem de direita. Sou, antes de tudo, um humanista. Estou do lado dos que vivem à margem — dos que sobrevivem com um salário mínimo, dos invisíveis, dos sem terra, dos sem teto, dos favelados, da maioria silenciosa que sustenta o país sem jamais participar de suas decisões.
Nos últimos anos, o Brasil voltou a se dividir em torcidas apaixonadas, como se a política fosse um campeonato e não o destino de milhões de vidas. Enquanto isso, os verdadeiros centros de poder observam à distância, serenos, imunes à alternância de governos, crises ou escândalos. Em recente artigo na Folha de S.Paulo, o jornalista Joel Pinheiro da Fonseca argumenta que críticas da própria esquerda ao Supremo Tribunal Federal fortaleceriam o bolsonarismo. A tese parte da premissa de que o STF teria sido o grande bastião que impediu um golpe e preservou a democracia. É uma leitura confortável, mas incompleta. Nenhuma ruptura institucional se sustenta sem apoio — ou pelo menos tolerância — das forças econômicas dominantes.
Golpes não são apenas eventos jurídicos ou militares; são rearranjos de poder material. Negar que ministros do Judiciário possam ultrapassar limites, ter conflitos de interesse ou exercer protagonismo político é tratar instituições como entidades sagradas, acima de qualquer escrutínio. Democracia exige fiscalização permanente, não devoção. Também não se pode ignorar avanços reais do atual governo. O aumento real do salário mínimo é relevante e historicamente necessário — meu pai, João Pinheiro Neto, repetia que salário não gera inflação, gera consumo e dignidade. A proposta de isenção do Imposto de Renda até cinco mil reais vai na mesma direção. Mas esses gestos convivem com uma realidade mais dura: juros estratosféricos drenando recursos públicos para o sistema financeiro, como um tributo silencioso pago pelos mais pobres aos mais ricos. Em um país que transfere trilhões ao longo dos anos para credores da dívida, discutir apenas benefícios pontuais soa como administrar sintomas sem tocar a doença. A concentração fundiária permanece praticamente intacta, enquanto o êxodo rural empurra milhões para periferias cada vez mais precárias. O acesso à terra — tema central desde o século XIX — continua sendo tratado como questão secundária, quando é uma das raízes estruturais da desigualdade brasileira.
Nesse cenário, a narrativa dominante alterna personagens e conflitos, mas preserva o enredo. Escândalos surgem, indignações se inflamam, novas polêmicas ocupam o espaço público — e, logo depois, são substituídas por outras, sem que as bases do sistema sejam alteradas.
A política transforma-se em espetáculo contínuo. Debates complexos são reduzidos a slogans, análises profundas cedem lugar a memes, e o cidadão comum é convidado a escolher lados enquanto permanece excluído das decisões centrais. O resultado é uma sensação difusa de cansaço coletivo. A cada ciclo eleitoral, promete-se ruptura; a cada novo governo, entrega-se continuidade. Mudam os rostos, os discursos e as alianças, mas a engrenagem permanece a mesma.
Os verdadeiros donos do poder não disputam eleições nem aparecem em palanques. Estão nos fluxos de capital, nas estruturas econômicas, nos mecanismos que condicionam qualquer governo — de esquerda, direita ou centro — a operar dentro de limites estreitos. Quando um líder deixa de servir a esses interesses, torna-se descartável.
Quando uma instituição perde utilidade ou confiança, é substituída. O sistema preserva a si mesmo, não seus operadores. Enquanto isso, a população segue entretida por crises sucessivas, como espectadores de uma peça longa demais. O circo muda de cenário, os atores trocam figurino, mas o roteiro permanece surpreendentemente familiar.
Talvez a maior tragédia brasileira não seja a existência de elites poderosas — isso ocorre em todos os países —, mas a incapacidade histórica de construir mecanismos eficazes de distribuição de poder e oportunidade. Seguimos presos a um modelo que concentra renda, terra e influência, enquanto distribui discursos e esperanças intermitentes.
Migalhas caem do banquete, suficientes para evitar revoltas, insuficientes para promover transformação. O Brasil não é um país sem recursos, sem talento ou sem potencial. É um país onde as estruturas profundas resistem obstinadamente a qualquer mudança que ameace privilégios históricos. E assim avançamos, não em direção ao futuro, mas em círculos. A cada geração, promete-se que desta vez será diferente. A cada década, descobrimos que não foi. O espetáculo continua. A conta também.




