
Estreou Cícero – A Anarquia de um Corpo Santo, no Teatro do Centro Cultural da Justiça Federal (CCJF).
O texto de Samir Murad é um monólogo, biográfico, poético, emocionante, oscila momentos de humor e tensão, ancestral, crítico, reflexivo com imersões no campo da politica e religião, e contemporâneo. O autor produz uma narrativa crítica sobre a trajetória de Cícero, construindo e desconstruindo mitos e lendas que existem sobre o personagem, e apresentando-o no contexto em que viveu, no nordeste do Brasil, mais especificamente no Cariri, Ceará, na virada do século XIX para o XX. O texto
funciona como uma construção de memória pública em torno da figura do indivíduo .
Samir Murad tem uma apresentação emocionante e merecedora de elogios. É uma encenação concentrada na figura do ator e na valorização do texto narrado. Ele apresenta uma interpretação refinada, de qualidade, e emociona. Impressionante a capacidade do ator que interpreta com qualidade diversos personagens (cerca de quinze ou mais) para narrar a vida de Padre Cícero. Ele se transforma no palco, mudando de face e voz num instantâneo de tempo. Domina o texto, transmitindo com clareza, com retórica de primeira qualidade e linguagem acessível. Domina o palco, com movimentação intensa e dinâmica. Apresenta todo um trabalho corporal. Estabelece boa comunicação com o público. Portanto, uma atuação impecável, merecedora de muitos elogios.
A direção de Daniel Dias da Silva valorizou o texto e deixou Samir à vontade no palco, do jeito que ele gosta: livre para atuar e realizar sua exímia interpretação.
O figurino criado por Karlla de Luca é simples, original e facilita a movimentação do ator pelo palco.
A cenografia criada por Karlla de Luca é criativa. A cenógrafa estendeu um tapete vermelho para a “celebridade” padre Cícero dar o seu recado. O tapete é elevado até à parte superior do palco, remetendo à sua ida para o céu.
A iluminação criada por Russinho e Francisco Hashigushi apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação do ator. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo e dinamismo e complementando as falas de Samir.
A trilha sonora criada por André Poyart e Samir Murad
mistura ritmos do nordeste com orientais, dando uma sonoridade poética ao espetáculo.
Cícero é um monólogo que apresenta um texto crítico sobre a trajetória de padre Cícero, construindo e desconstruindo fatos da trajetória de vida do personagem; um ator com uma atuação de qualidade e merecedora de elogios; e cenografia e figurinos criativos e originais.
Excelente produção cênica!





