
Essa semana fui conversar com a coreógrafa, intérprete, diretora de movimento e professora de dança contemporânea graduada pela Faculdade Angel Vianna no Brasil, integrante do Grupo Tápias desde 1998, no qual atua hoje como diretora. Estou falando, claro, de Flávia Tápias. Ela tem ainda em seu currículo a direção artística do Festival Tápias, e ainda é diretora e curadora junto à Giselle Tápias dos festivais internacionais de dança contemporânea Dança em Trânsito e Correios em Movimento, realizados no Brasil. Nos últimos anos se apresentou em Portugal, França, Itália, Bélgica, República Tcheca, EUA, Coreia do Sul, etc. Atou como diretora de movimento e coreógrafa em diversos eventos corporativos tais como: Rock in Rio, 201; Vet in RIO, 2019; Moda em Movimento, 2018; Verão no Rio ZOO, 2018; Prêmio Brasil Olímpico, 2017; Engie Innovation WEEK, 2018; Skol Summer ON, 2016; dentre muitos outros. Depois dessa apresentação mara, aproveitem nosso bate-papo que tá delicioso.
JP – Ao longo da sua trajetória, você construiu uma carreira que reúne a atuação como bailarina, coreógrafa, diretora e gestora cultural. De que forma essas diferentes experiências transformaram a sua maneira de criar e de pensar a dança?
Acredito que todas essas funções se alimentam mutuamente. Ser bailarina me ensinou a escutar o corpo e a compreender o processo de criação de dentro. Como coreógrafa, busco construir obras que dialoguem com diferentes culturas, territórios e modos de viver. Já a direção artística e a gestão cultural ampliaram meu olhar sobre a importância de criar oportunidades para que a dança aconteça. Hoje penso a dança não apenas como linguagem artística, mas como ferramenta de encontro, transformação e construção de redes.
O grande destaque desta 24ª edição é o Cena Brasil, uma plataforma criada para ampliar a visibilidade da dança contemporânea brasileira e fortalecer o intercâmbio internacional. Reunimos programadores e diretores de festivais de diversos países para conhecer de perto a produção nacional, criando oportunidades concretas de circulação para os nossos artistas.
A programação está bastante diversa, reunindo companhias brasileiras de diferentes regiões e importantes companhias internacionais que vêm se destacando nos principais festivais e circuitos da dança contemporânea. São trabalhos com estéticas muito variadas, que dialogam com diferentes linguagens e formas de pensar o corpo e o movimento.
O maior legado do Dança em Trânsito é ter construído pontes. Ao longo desses 24 anos, aproximamos artistas, cidades, países e públicos diversos. Muitos grupos brasileiros tiveram sua primeira experiência internacional por meio do festival, assim como artistas estrangeiros conheceram a riqueza da produção brasileira.
Outro legado muito importante é a circulação. O festival sempre teve o compromisso de levar a dança tanto para grandes centros urbanos quanto para cidades do interior e municípios que raramente recebem programação de dança contemporânea. Em muitos desses lugares, o Dança em Trânsito representa uma das poucas oportunidades de acesso a espetáculos de qualidade, promovendo encontros, formando plateias e despertando novos olhares para essa linguagem artística.
Também contribuímos para ampliar a presença da dança em espaços públicos, aproximando a arte de pessoas que talvez nunca tivessem entrado em um teatro. Acredito que essa democratização do acesso, aliada ao fortalecimento das redes de intercâmbio e circulação entre artistas brasileiros e estrangeiros, é uma das transformações mais significativas que o festival ajudou a construir ao longo de sua trajetória.
A rua democratiza o acesso à arte. Quando ocupamos praças, parques ou espaços urbanos, a dança encontra pessoas que não estavam procurando por ela. Isso transforma a relação entre artista e público. O espetáculo deixa de acontecer apenas para quem comprou um ingresso e passa a dialogar com a cidade, com sua arquitetura, seus sons e sua diversidade. É uma experiência viva e muito potente.
O Grupo Tápias nasceu do desejo de desenvolver uma pesquisa contínua em dança contemporânea, baseada na troca entre diferentes culturas, linguagens e formas de movimento. Nossa criação sempre esteve ligada à experimentação, ao diálogo entre tradição e contemporaneidade e à valorização do corpo como espaço de encontro. Esses princípios continuam orientando nosso trabalho.
Ter uma sede mudou completamente nossa atuação. O Espaço Tápias tornou-se um lugar permanente de criação, ensaio, formação e circulação artística. Além das atividades da companhia, conseguimos oferecer cursos, residências, oficinas, projetos sociais, ações de formação de público e acolher artistas de diferentes lugares do Brasil e do exterior. É um espaço vivo, que fortalece toda a cadeia da dança.
O Espaço Tápias reúne aulas regulares, cursos livres, oficinas, residências artísticas, ensaios, apresentações, festivais, intercâmbios internacionais e projetos sociais, como o Engenho das Artes. Também oferecemos aulas de manutenção para profissionais da dança. Nosso objetivo é criar um ambiente onde artistas em diferentes momentos da carreira possam aprender, pesquisar, criar e compartilhar experiências.

JP – Flávia, sua pesquisa coreográfica dialoga com diferentes linguagens, culturas e formas de movimento. Quais artistas, mestres ou correntes de pensamento mais influenciaram a construção da sua identidade artística?
Minha pesquisa foi construída a partir de muitos encontros. Tenho grande interesse pela mistura entre dança e teatro e pela investigação do que nos move como seres humanos. Mais do que buscar uma técnica específica, procuro compreender o corpo como lugar de memória, identidade, cultura e transformação.
Ao longo da minha trajetória, fui profundamente influenciada pelas experiências de intercâmbio que vivi em diferentes países, pelo contato com artistas de diversas culturas. Esses encontros ampliaram meu olhar e me ensinaram que a criação nasce do diálogo, da escuta e da troca.
Minha identidade artística foi sendo construída justamente nessa combinação entre diferentes linguagens, na valorização da diversidade e na busca por uma dança que estabeleça conexões verdadeiras entre pessoas, territórios e culturas.É essa curiosidade pelo outro e pelo que nos une que continua alimentando o meu trabalho como coreógrafa.
Continuo curiosa sobre os encontros que a dança pode provocar e sobre como o tempo transforma uma obra e também transforma quem a cria. Tenho muito interesse em aprofundar projetos de criação compartilhada, nos quais artistas de diferentes culturas possam construir juntos novos caminhos para a dança contemporânea.
Neste momento, estou profundamente dedicada à recriação de um projeto que marcou minha trajetória: 5 Coreógrafos e 1 Corpo. Esse trabalho foi um divisor de águas na minha carreira. Foi a partir dele que ampliei minha atuação internacional, estabeleci contato com artistas que influenciaram profundamente minha pesquisa e vivi experiências que transformaram meu olhar sobre a criação.
O projeto nasceu no Brasil e, posteriormente, a convite da curadora francesa Catherine, ganhou uma versão internacional. Dessa experiência surgiram dez solos que, há mais de vinte anos, tiveram uma excelente repercussão – alguns deles, inclusive,continuam em circulação até hoje.
O intercâmbio amplia repertórios, desafia certezas e cria novas possibilidades de criação. Quando artistas de diferentes países trabalham juntos, todos aprendem. Essa troca fortalece a produção brasileira, amplia oportunidades de circulação internacional e coloca nossos artistas em diálogo com diferentes contextos culturais, sem perder a identidade da nossa dança.
Os desafios continuam sendo a sustentabilidade financeira, a continuidade das políticas públicas, a formação de redes de circulação e o acesso a recursos que permitam um planejamento de longo prazo. A dança precisa de investimentos permanentes para que grupos possam pesquisar, criar e circular com qualidade. Apesar das dificuldades, vejo um setor muito resiliente e comprometido em construir caminhos coletivos.
É difícil escolher apenas um momento, porque foram muitos encontros transformadores. Mas sempre me emociono quando vejo alguém assistindo à dança pela primeira vez em um espaço público e se reconhecendo naquela experiência. Já ouvimos relatos de pessoas que nunca tinham entrado em um teatro, mas que, depois de assistir a uma apresentação do Dança em Trânsito na rua, passaram a acompanhar o festival e a frequentar espetáculos. Acho que esse é o maior impacto do nosso trabalho: aproximar pessoas da arte e mostrar que a dança pode acontecer em qualquer lugar, para qualquer pessoa.





