Para Ler na Rede: A violência nossa de cada dia
Aprisionamento de um grupo privilegiado de cidadãos. Essa foi uma das classificações de Paula Novais para a vida de boa parte da população – na qual se inclui – durante a pandemia, quando, com filhas pequenas, cumpriu rigorosamente o isolamento social. Do temor de morrer de Covid-19 nasceu “Gaiolas de concreto armado” (Dublinense, R$ 68 ), seu primeiro romance, que torna o Rio de Janeiro, com sua violência inerente ao cotidiano da população, quase um personagem opressor da vertiginosa ação apresentada no texto.
Tocada profundamente pela devastação de quem “não contava com o mesmo esteio social e afetivo” que sua família, Paula Novais precisou escrever para “elaborar simbolicamente esse trauma coletivo”. Vencedor do prêmio Caminhos da Palavra 2025, o romance apresenta, através da protagonista Nerissa, uma megalópole que acolhe quem está disposto a romper com qualquer tipo de valor em nome da sobrevivência. A cidade compreende as novas regras impostas pelo poder paralelo dos milicianos enquanto Nerissa, que perdeu o emprego e uma bolsa de mestrado, deixa de lado valores morais para saldar sua dívida com o condomínio do edifício onde mora.
Nesse ambiente onde qualquer aproximação pessoal pode significar a contaminação com um vírus poderoso, a aliança de Nerissa com a pouco convencional vizinha Alzira é a resistência aos condôminos conformados em obedecer a imposições nem sempre justas do síndico, um agiota, que controla a rotina de empregados e moradores. Nenhum dos bem-delineados personagens foi inspirado em algum conhecido da autora: “Mas posso dizer que se formaram a partir de um mosaico de experiências, cada personagem ganhando um fragmento desse mosaico carioca”, conta a escritora, que já havia lançado livros de contos e crônicas.
Transformar o Rio em elemento narrativo foi fruto de suas observações como moradora da cidade, onde a mineira Paula vive desde criança. “Eu precisava falar do Rio de Janeiro e, sobretudo, de Copacabana, esse bairro que, de fato, parece ter vida própria. Grande parte do que Narissa e Alzira enfrentam está atrelado às suas circunstâncias no contexto urbano. Fui criada no Rio de Janeiro, mas minha cultura familiar é mineira. Sempre dividi meu tempo entre os dois lugares, sobretudo na infância, esse chão que pisamos a vida inteira. Então, eu diria que sou híbrida, o que acredito ser muito bom para quem escreve. Justamente porque o forasteiro — ainda que um quase forasteiro — procura sempre ajustar o olhar, os ouvidos, para saber o que é necessário para se adaptar a uma cultura que não é a dele”, diz Paula.
A mineirice da escritora, que também trabalha como advogada, estaria em ser reservada, quase desconfiada, para alguns assuntos, mesmo havendo se apropriado da vivência carioca. Declara abertamente o amor pela exuberante natureza da cidade, pelo samba, botecos e o senso de humor, que alterna à angústia pelas notícias da violência urbana. “Ao mesmo tempo, já naturalizo algumas delas, o que é bem carioca”.
E é exatamente essa incorporação da violência ao dia a dia do morador da cidade grande que se torna rapidamente natural para os personagens. No prédio onde estão confinadas, Nerissa e Alzira percebem a agressividade dirigida aos que não podem ignorar os donos do poder. Brancas, de classe média, elas têm que contornar o incômodo cumprimento das ordens geralmente dirigidas apenas a quem vive nas favelas ou nos bairros mais distantes da Zona Sul. A pandemia é apenas mais uma prova de resistência diante de um presente tão incerto quanto o futuro.
Em tempos incertos sobre mercado profissional diante de tanta automatização de funções, “Líder de gente & agentes: como decidir quando pessoas e agentes de inteligência artificial trabalham juntos” (Escreva, R$ 119,90), de Alexandre Henrique Souza propõe uma nova perspectiva para gestores. O autor se debruça sobre a incorporação da inteligência artificial nos processos e estratégias de organizações públicas e privadas, propondo uma reflexão sobre escolhas, responsabilidade, discernimento e o papel humano diante da aceleração tecnológica. Para o autor, a velocidade do avanço tecnológico cria desafios que envolvem cultura, tomada de decisão, ética e gestão de pessoas, podendo ampliar a capacidade de análise e produtividade das empresas.
Sucesso nos palcos cariocas que se transformou em série de televisão e em fenômeno editorial, vendendo mais de 250 mil exemplares na década de 1990, “Confissões de adolescente” (Maquinaria Editorial, R$ 49,90) ganha nova edição 34 anos depois de seu lançamento. Baseado nos diários da hoje psicóloga Maria Mariana, a nova edição é um convite ao diálogo entre duas gerações. A adolescente dos anos 1990 é hoje mãe de adolescentes, e se propõe a colocar esses dois tempos lado a lado, provocando a reflexão sobre o que mudou e o que permanece igual quando o assunto é primeiro beijo, primeira transa, primeira tragada, primeiro contato com a morte. “Os anseios adolescentes sempre serão eternos, e a necessidade de diálogo continua sendo o maior desafio. O único fio que pode trazer união”, diz a autora.
“A pedra que sangra” (Tabla, R$ 80), do líbio Ibrahim Al-Koni, mistura mitologia, espiritualidade e tradição oral em uma narrativa de rara intensidade poética, que faz do deserto protagonista de uma história sobre liberdade, pertencimento e os limites da condição humana. Nas montanhas do Saara, Assuf vive em comunhão com o deserto, guardando um dos últimos muflões selvagens, animal sagrado para os tuaregues. Quando caçadores estrangeiros atravessam as dunas em busca de sua presa, desencadeiam um confronto entre duas formas irreconciliáveis de habitar o mundo. Nascido em uma comunidade tuaregue, Al-Koni tem livros traduzidos em mais de 35 idiomas, ele é apontado como o grande intérprete literário do Saara. Sua obra, frequentemente associada ao realismo mágico e à tradição sufi, ocupa um lugar singular na literatura universal.













