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Através da história do meu pai, conheci outra dimensão da ditadura

Luiz Claudio de Almeida 28 de junho de 2026 4 minutes read
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Redes Sociais
           
 Por Henrique Pinheiro –  Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor” e filho do ex-ministro do Trabalho e ex-presidente da Superintendência da Reforma Agrária no Governo Jango, João Pinheiro Neto.
 A história do meu pai sempre fez parte da minha vida.
 Poucos dias depois do golpe de 1964, aos 33 anos, ele foi preso e cassado.  Voltou para casa, mas nunca voltou a ser o mesmo homem. Cresci vendo, pouco a pouco, desaparecer o brilho dos seus olhos. Foi convivendo com essa realidade que aprendi que a violência de um regime não termina quando se abre a porta da prisão. Ela permanece dentro das famílias.
Ultimamente, venho publicando uma série de histórias sobre pessoas presas, mortas, torturadas ou desaparecidas durante a ditadura militar.
No início, meu foco estava nas vítimas.  Mas logo percebi que muitos comentários repetiam frases como “mereceram”, “eram terroristas”, “eram comunistas” ou simplesmente negavam que aqueles fatos tivessem acontecido.
Foi então que compreendi que precisava mudar a forma de contar essas histórias.
Passei a deixar as vítimas em segundo plano e colocar no centro aqueles que continuaram vivendo com uma ausência que nunca terminou: mães, pais, irmãos, esposas e filhos.
Descobri que, quando falamos da dor de uma família, os rótulos perdem força e a humanidade ocupa o primeiro lugar.
A história do meu pai me ensinou o que significa conviver com as consequências de uma prisão e de uma cassação política. Mas, ao ouvir mães, pais, irmãos e filhos de desaparecidos, conheci outra dimensão daquele período.
Meu pai voltou para casa.
Muitas dessas famílias jamais tiveram essa oportunidade.
Escrever essas histórias tem sido um exercício de memória e, muitas vezes, de angústia. Cada texto me faz voltar à infância e adolescência e imaginar o sofrimento de quem nunca pôde abraçar novamente um filho, um irmão ou um pai.
Ao mesmo tempo, milhares de pessoas passaram a me escrever dizendo que nunca tinham ouvido falar dessas histórias. “Nunca aprendi isso na escola.” “Obrigado por compartilhar.” “Não fazia ideia de que isso aconteceu.”
Essas mensagens me convenceram de que preservar a memória continua sendo necessário.
Nunca tive interesse em transformar minhas publicações numa arena de disputa política.
Não escrevo para defender partidos nem para atacar adversários.
Minha posição política é secundária diante da dor dessas famílias.
O que me move é um sentimento de humanidade.
Por isso procuro responder, nas mídias sociais, praticamente a todos os comentários sobre minhas publicações, com respeito, paciência e educação. Não para vencer discussões, mas para abrir diálogo. Aprendi que uma história humana tem muito mais força do que qualquer argumento político.
Foi exatamente isso que aconteceu há poucos dias.
Depois de publicar a história de Dona Elzita Santa Cruz, que passou 45 anos procurando notícias do filho Fernando Santa Cruz, entre centenas de comentários um deles me emocionou profundamente.
Era assinado por Maria Auxiliadora Santa Cruz Coelho, a Dora.
Só depois percebi que ela era irmã de Fernando Santa Cruz e filha de Dona Elzita.
Naquele instante compreendi que essa série havia encontrado seu verdadeiro sentido.
Não escrevo para reabrir feridas.
Escrevo para que elas não sejam esquecidas.
Porque governos passam.
As disputas políticas passam.
Mas a dor das famílias permanece.
Depois de ler a mensagem da Dora, percebi que qualquer conclusão escrita por mim seria desnecessária.
 Reproduzo, abaixo  suas palavras na íntegra.
 “Eu me chamo Maria Auxiliadora Santa Cruz Coelho (Dora) e sou irmã de Fernando Santa Cruz e filha de Elzita Santa Cruz (Dona Zita). O desaparecimento de Fernando trouxe para todos nós, familiares, uma dor incomensurável. Só agora, durante a Comissão da Verdade, através do depoimento do delegado e torturador Cláudio Guerra, que confessou ter levado os restos mortais de Fernando, dentro de um saco preto, da Casa da Morte para a Usina Cambahyba, em Campos, onde foi incinerado no forno desta usina. É muito triste. Infelizmente, nem o torturador foi punido. Obrigada, Henrique Pinheiro, pela matéria divulgada.”
Ao terminar de ler essa mensagem, tive a certeza de que esse trabalho precisa continuar.

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