
Outro dia, caminhando pela praia, aconteceu uma coisa curiosa. De um lado, havia uma piscina natural, protegida das ondas, de águas tranquilas. Do outro, o mar aberto, revolto. Entre os dois, formara-se uma estreita faixa de areia por onde era possível passar. E foi por ali que resolvi seguir.
Eu me sentia bem naquele caminho entre duas águas. Foi quando vi uma moeda meio enterrada na areia, coberta por uma espécie de musgo. Peguei-a, limpei com os dedos e tentei descobrir quanto valia. Não consegui.
Uma senhora que estava por perto percebeu o que eu havia encontrado e perguntou: “Quanto vale?” Fingi não ouvir. Não sei exatamente por quê. Guardei a moeda no bolso e continuei.
Depois fiquei pensando naquela cena.
Há mais de vinte anos vivo nos Estados Unidos. Foi lá que trabalhei, lutei pelo meu espaço, construí minha vida profissional e realizei muitos dos sonhos que o trabalho me permitiu perseguir. Miami tornou-se parte de mim.
Miami é o mar aberto da minha vida. Movimento, trabalho, sobrevivência, conquista.
O Rio é diferente. Aqui estão minhas raízes, minha família, meus amigos e minhas lembranças. É onde diminuo a velocidade e reencontro uma parte de mim que a vida profissional muitas vezes deixa escondida.
Durante muito tempo achei que viver entre esses dois mundos fosse uma espécie de divisão. Quando estava em Miami, sentia falta do Rio. Quando estava no Rio, sabia que havia uma vida inteira me esperando do outro lado. Como se, em algum momento, fosse necessário escolher.
Hoje já não penso assim.
Aquela pequena faixa entre o mar revolto e a água tranquila talvez tenha me mostrado justamente o contrário. Meu lugar também pode ser o caminho entre os dois.
E talvez eu esteja compreendendo isso num momento muito especial da minha vida. Minha filha vai se casar. E me pediu que a leve ao altar.
Depois de tantos anos atravessando cidades, aeroportos e oceanos, em breve farei uma travessia diferente. Vou levá-la ao altar e entregá-la ao seu futuro marido. Talvez seja uma das caminhadas mais curtas da minha vida. E, certamente uma das mais importantes. Pode ter sido por isso que guardei aquela moeda.
Ainda não sei de onde veio. Não sei há quanto tempo estava ali. E continuo sem saber quanto vale.
Mas ela está comigo.
O tempo pode esconder um número, cobrir uma superfície e deixar suas marcas. Não consegue, porém, apagar uma história.
Hoje não me sinto dividido entre dois lugares. Carrego os dois comigo.
Uma margem guarda minhas raízes. A outra, a vida que construí.
E eu?
Continuo entre as duas margens.




