
Por Henrique Pinheiro – Economista , produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
Brasília, 1963.
Naquele ano, a convite do presidente João Goulart, meu pai, João Pinheiro Neto, então com apenas 34 anos, foi chamado para assumir a presidência da SUPRA, Superintendência de Política Agrária.
Chegava àquela missão depois de ter exercido, em 1962, o cargo de ministro de Estado do Trabalho e Previdência Social durante o governo parlamentarista de João Goulart.
A SUPRA era a autarquia federal encarregada da política agrária do governo. Em termos atuais, guardadas as enormes diferenças institucionais, exercia funções que poderíamos comparar às de um Ministério da Reforma Agrária.
A missão que Jango lhe entregava era gigantesca: ajudar a formular e executar um projeto nacional de reforma agrária para o Brasil.
A reforma agrária era uma das principais Reformas de Base e, entre todas elas, aquela que provocava a reação mais imediata e explosiva.
O Brasil se industrializava rapidamente. As cidades cresciam. Uma nova classe operária surgia nos grandes centros urbanos.
Mas, no campo, permanecia praticamente intacta uma estrutura fundiária marcada pela enorme concentração da propriedade.
Milhões de trabalhadores rurais viviam sem acesso à terra e, em grande parte do país, ainda sem direitos sociais semelhantes aos conquistados pelos trabalhadores urbanos.
Reformar essa estrutura significava muito mais do que distribuir hectares.
Significava mexer em poder.
Antes de aceitar o convite de Jango, porém, meu pai resolveu procurar Juscelino Kubitschek.
JK havia sido seu mentor político e era o homem com quem ele iniciara sua trajetória na vida pública em Minas Gerais.
Diante de uma missão daquela dimensão, queria ouvir Juscelino antes de tomar a decisão.
JK foi curto e objetivo.
“João”, perguntou, “você leu O Príncipe, de Maquiavel?”
Meu pai respondeu:
“Sim, presidente. Leitura antiga, ainda do ginásio.”
Juscelino então fez uma reflexão que meu pai jamais esqueceria:
“Então vou lhe lembrar o capítulo em que ele fala da terra. Mexa com a honra do homem, mexa com a mulher do homem, mexa com o dinheiro do homem, mas não mexa com a propriedade e com a terra.”
E silenciou.
Meu pai ficou esperando.
Juscelino então completou:
“Mas, como não sou de chatear ninguém, vá enfrentar.”
Meu pai saiu daquela conversa assustado.
Tinha apenas 34 anos.
Sabia que a missão seria difícil, mas ainda não fazia ideia do tamanho do vespeiro em que estava se metendo.
Mesmo assim, aceitou.
João Pinheiro Neto não ouviu Maquiavel.
Décadas mais tarde, ele próprio contaria essa conversa diante das câmeras.
O depoimento está no documentário Terra Revolta, que produzi em 2022 e que hoje está disponível no Canal Curta!.
Pouco tempo depois de assumir a SUPRA, meu pai começaria a compreender perfeitamente o tamanho do alerta que havia recebido.
A reforma agrária não mexia apenas com hectares, propriedades ou produção agrícola.
Mexia com uma estrutura econômica, social e política construída ao longo de séculos da história brasileira.
A concentração da terra significava também concentração de renda, influência política e poder local.
Era por isso que, entre todas as Reformas de Base, a reforma agrária se tornaria o alvo mais fácil para mobilizar a oposição ao governo.
Para seus defensores, significava modernizar o campo, ampliar o mercado interno e criar uma nova classe de pequenos e médios proprietários rurais.
Para seus adversários, porém, representava uma ameaça direta ao direito de propriedade e à ordem econômica existente.
Era exatamente nesse conflito que meu pai acabava de entrar.
A advertência de Juscelino não era apenas uma frase espirituosa inspirada em Maquiavel.
Era uma leitura do poder.
JK conhecia o Brasil.
Sabia que tocar na estrutura fundiária significava enfrentar alguns dos interesses econômicos e políticos mais antigos e poderosos do país.
Meu pai também aprenderia isso.
Da maneira mais dura.
Pouco mais de um ano depois, João Goulart seria derrubado pelo golpe de 1964.
Meu pai seria preso, cassado e afastado da vida pública.
O projeto de reforma agrária que ajudara a construir seria interrompido.
Naquele encontro de 1963, porém, nada disso havia acontecido ainda.
Havia apenas um homem de 34 anos diante de uma das missões mais difíceis de sua vida.
O vespeiro estava diante dele.
João Pinheiro Neto decidiu enfrentar.
Naquele ano, a convite do presidente João Goulart, meu pai, João Pinheiro Neto, então com apenas 34 anos, foi chamado para assumir a presidência da SUPRA, Superintendência de Política Agrária.
Chegava àquela missão depois de ter exercido, em 1962, o cargo de ministro de Estado do Trabalho e Previdência Social durante o governo parlamentarista de João Goulart.
A SUPRA era a autarquia federal encarregada da política agrária do governo. Em termos atuais, guardadas as enormes diferenças institucionais, exercia funções que poderíamos comparar às de um Ministério da Reforma Agrária.
A missão que Jango lhe entregava era gigantesca: ajudar a formular e executar um projeto nacional de reforma agrária para o Brasil.
A reforma agrária era uma das principais Reformas de Base e, entre todas elas, aquela que provocava a reação mais imediata e explosiva.
O Brasil se industrializava rapidamente. As cidades cresciam. Uma nova classe operária surgia nos grandes centros urbanos.
Mas, no campo, permanecia praticamente intacta uma estrutura fundiária marcada pela enorme concentração da propriedade.
Milhões de trabalhadores rurais viviam sem acesso à terra e, em grande parte do país, ainda sem direitos sociais semelhantes aos conquistados pelos trabalhadores urbanos.
Reformar essa estrutura significava muito mais do que distribuir hectares.
Significava mexer em poder.
Antes de aceitar o convite de Jango, porém, meu pai resolveu procurar Juscelino Kubitschek.
JK havia sido seu mentor político e era o homem com quem ele iniciara sua trajetória na vida pública em Minas Gerais.
Diante de uma missão daquela dimensão, queria ouvir Juscelino antes de tomar a decisão.
JK foi curto e objetivo.
“João”, perguntou, “você leu O Príncipe, de Maquiavel?”
Meu pai respondeu:
“Sim, presidente. Leitura antiga, ainda do ginásio.”
Juscelino então fez uma reflexão que meu pai jamais esqueceria:
“Então vou lhe lembrar o capítulo em que ele fala da terra. Mexa com a honra do homem, mexa com a mulher do homem, mexa com o dinheiro do homem, mas não mexa com a propriedade e com a terra.”
E silenciou.
Meu pai ficou esperando.
Juscelino então completou:
“Mas, como não sou de chatear ninguém, vá enfrentar.”
Meu pai saiu daquela conversa assustado.
Tinha apenas 34 anos.
Sabia que a missão seria difícil, mas ainda não fazia ideia do tamanho do vespeiro em que estava se metendo.
Mesmo assim, aceitou.
João Pinheiro Neto não ouviu Maquiavel.
Décadas mais tarde, ele próprio contaria essa conversa diante das câmeras.
O depoimento está no documentário Terra Revolta, que produzi em 2022 e que hoje está disponível no Canal Curta!.
Pouco tempo depois de assumir a SUPRA, meu pai começaria a compreender perfeitamente o tamanho do alerta que havia recebido.
A reforma agrária não mexia apenas com hectares, propriedades ou produção agrícola.
Mexia com uma estrutura econômica, social e política construída ao longo de séculos da história brasileira.
A concentração da terra significava também concentração de renda, influência política e poder local.
Era por isso que, entre todas as Reformas de Base, a reforma agrária se tornaria o alvo mais fácil para mobilizar a oposição ao governo.
Para seus defensores, significava modernizar o campo, ampliar o mercado interno e criar uma nova classe de pequenos e médios proprietários rurais.
Para seus adversários, porém, representava uma ameaça direta ao direito de propriedade e à ordem econômica existente.
Era exatamente nesse conflito que meu pai acabava de entrar.
A advertência de Juscelino não era apenas uma frase espirituosa inspirada em Maquiavel.
Era uma leitura do poder.
JK conhecia o Brasil.
Sabia que tocar na estrutura fundiária significava enfrentar alguns dos interesses econômicos e políticos mais antigos e poderosos do país.
Meu pai também aprenderia isso.
Da maneira mais dura.
Pouco mais de um ano depois, João Goulart seria derrubado pelo golpe de 1964.
Meu pai seria preso, cassado e afastado da vida pública.
O projeto de reforma agrária que ajudara a construir seria interrompido.
Naquele encontro de 1963, porém, nada disso havia acontecido ainda.
Havia apenas um homem de 34 anos diante de uma das missões mais difíceis de sua vida.
O vespeiro estava diante dele.
João Pinheiro Neto decidiu enfrentar.
Foto: João Pinheiro Neto, aos 34 anos, ao lado de Juscelino Kubitschek, seu mentor político, a quem procurou para se aconselhar antes de aceitar o convite de João Goulart para presidir a SUPRA.





