
Descendente de italianos, Edwin Frederico Luisi iniciou sua carreira de ator quando entrou na Escola de Arte Dramática, da Universidade de São Paulo. Estudou História da Arte e também o idioma francês, enquanto morava na França. Ficou mundialmente conhecido, quando deu vida ao romântico Álvaro na novela “Escrava Isaura” na Rede Globo, em 1976. Atuou também em “Marquesa de Santos” e “Dona Beija” na extinta Manchete; e na minissérie “Mad Maria” (2005) e a novela “Sinhá Moça” 2006, ambas na Rede Globo. Em 1996, atuou em “Colégio Brasil”, no SBT. No teatro atuou em peças como “À Margem da Vida”, “Freud e Amadeus”. Em 2006, atuou em “Um Marido ideal” e em “Triunfo Silencioso”. Em 2010 está em cartaz com a comédia “Tango, Bolero e Cha Cha Cha” com direção de Eloy Araújo. Tudo isso é apenas a pontinha do iceberg de uma carreira muitíssimo bem sucedida na TV, Teatro e Cinema. Edwin também coleciona prêmios e hoje conversa comigo e faz um balanço da carreira, fala da personagem Charlotte da peça “Eu Sou Minha Própria Mulher” e muito mais. Confira!

JP – Olá Edwin! Qual é o balanço que você faz da sua trajetória como ator?
Eu vejo de uma forma muito positiva. Comecei numa escola de teatro, numa profissão que não tinha muito futuro, porque na época eu podia fazer qualquer coisa. Fiz o científico, o clássico, na época (hoje não sei mais como chama) para seguir profissões como advogado, médico. E, de repente, eu resolvi ser ator. Meus pais concordaram e eu tive que demonstrar para eles que eu teria um futuro legal, porque a preocupação dos pais é essa: será que meu filho vai conseguir sobreviver por meio de uma profissão tão instável. Mas, já dentro da escola de teatro, eu já fiz um certo nome, quando eu saí da escola. Os professores gostaram muito. Eu me formei com uma média muito alta. Entrei em primeiro lugar. De trinta e três alunos só sobraram dez. E eu me formei com louvor. Então, eu logo fui assimilado pelo teatro de São Paulo. Em seguida, o Gilberto Braga viu uma das minhas peças, e me convidou para fazer novela. E fiz a Escrava Isaura. Daí em diante, tudo foi mais fácil começar. Os primeiros dez anos foi muito fácil. Fui trabalhando, trabalhando, conquistando meu espaço e conquistando muitos prêmios. O mais difícil é se manter na profissão. Como eu estou até hoje com quase oitenta anos, vou fazer ano que vem, continuo com o futuro incerto é claro, mas eu acho que adquiri meu espaço pelo menos no teatro, que é o que me interessa, o que eu gosto, a minha vida. Então, eu vejo uma carreira que foi muito feliz. Deu para sobreviver, viver muito bem. Comprei apartamento, comprei minhas coisas, viajei. Enfim, eu tive uma vida bastante confortável. Sobretudo eu tive a sorte ou o faro de escolher boas peças, bons diretores, bons colegas de cena, bons teatros. E eu estou até hoje. Eu acredito que sou um dos atores que mais trabalhei em teatro sem parar, juntamente com audiovisual. As vezes eu vejo o meu currículo, e visualizo tanta coisa, que eu não sei como eu tive tempo para fazer tudo isso. Uma carreira longa. Eu tenho muito orgulho, porque eu sou uma pessoa da Moca, de uma família humilde, que não possuía nenhuma veleidade artística. Então, de repente, eu saí daquele meio, e me tornei hoje um ator respeitado e conhecido, com uma folha de serviço bastante importante. Então, a minha carreira, a minha trajetória, me deixam muito feliz.
JP – Como você encontrou a personagem Charlotte da peça Eu Sou Minha Própria Mulher?
Essa peça, como eu faço muitos personagens, eu tive que partir primeiro pela forma, para depois ir pelo conteúdo. Porque não dava para eu buscar a parte emocional antes. Eu saio de um personagem para outro em questão de segundos. Então eu tive que dar um desenho formal para cada personagem, o gestual, o tipo de voz, de inflexão, de atuação, para cada personagem. Depois de ter feito esse desenho, eu fui mergulhando na parte interna das personagens. Charlotte é um personagem encantador! Ela, apesar de ter vivido uma vida muito difícil, foi uma travesti nos anos 1930, atravessou a Segunda Guerra Mundial, e vivenciou a instalação do comunismo na Alemanha Oriental, sendo perseguida. Ainda assim, ela tinha uma alegria de vida tão grande, bem humorada, criativa. Ela construiu um museu que existe até hoje, em Masdorf, a cidade onde ela nasceu, e ainda fez uma boate clandestina no porão desse museu para encontros com a comunidade LGBTQIA+, que na época era perseguida. A peça tem muitos momentos de humor e de muita tragédia. Eu tive que mergulhar muito profundamente, sair de um personagem e entrar em outro, já lá em cima. Então, não dava muito para mim partir pelo sentimento para eu começar. Tive que partir pela forma.
JP – Na peça acima referida você interpreta diferentes personagens com distintas vozes. Como se deu a sua preparação vocal e interpretativa?
Eu fiz uma belíssima escola de teatro, EAD – Escola de Arte Dramática da Universidade São Paulo. E, durante três anos, nós tivemos aula de dicção, aonde eu tive uma belíssima professora que nos ensinou todas as técnicas vocais. Ao mesmo tempo, eu sempre fui muito observador. Eu gostava de imitar pessoas, trejeitos de pessoas, vozes de pessoas. Então, quando eu tive que fazer essa peça e tive que achar vários tons de voz, vozes diferentes, eu ficava sozinho em casa, enquanto eu ensaiava, com o Herson. A noite eu ficava sozinho em casa, buscando essas vozes, e encontrei várias. Aí depois, o drama todo era saber qual voz que eu iria usar, de todas essas que eu levantei, que eu busquei, aonde fica melhor para cada personagem. Eu não podia fazer dois personagens grudados um no outro com o mesmo registro vocal, mesmo que eu diferenciasse um pouco, senão o público talvez não percebesse. Então eu tive que fazer um jogo. Eu coloco uma voz aguda, depois eu coloco uma grave, depois uma média. Aí depois eu lembro de algumas pessoas que eu conheci ao longo da minha vida e que eu devia imitar. E foi assim. Eu fui montando como se fosse um quebra-cabeça. E, as vezes, durante os ensaios, eu tinha que mudar. Eu pegava a voz que eu estava fazendo o personagem, punha para outro, pegava do outro, punha para o outro, para ir montando esse quebra-cabeça. Não foi fácil! O grande problema que eu tenho hoje é de ter um foco muito agudo para eu não entrar num personagem com a voz de outro. Esquecer, porque no calor da emoção, eu posso sem querer entrar com o registro vocal errado. Então, é uma peça que eu tenho que ter um foco enorme, uma atenção muito grande que me dá um trabalho imenso. Eu faço uma ballet de vozes. Eu trabalho o texto como se fosse uma partitura musical. Eu escrevi não só o registro vocal, mas também o tipo de inflexão doada para cada personagem. Um trabalho insano! Eu fui contemplado com todos os cinco prêmios para os quais eu fui indicado. Independente desse fato, o que importa é o público ficar atento, emocionado, se divertindo, e, sobretudo, refletindo sobre essa vida tão rica e criativa como a da Charlotte. Eu falo da Charlotte porque é o personagem principal, mas tem mais dezenove que eu faço, com muita importância. O autor inclusive é um personagem da peça, e eu faço com a minha própria voz, personagem que mais se parece comigo, em termos vocais e corporais.
JP – Qual é a importância da referida peça para a sua trajetória?
A importância da peça na minha trajetória eu acredito que seja um coroamento de tudo aquilo que eu fiz. Hoje eu estou com quase com oitenta anos, como já informei. Eu acredito que só um ator com a bagagem cultural, teatral, emocional, de inteligência cênica que eu adquiri ao longo da minha carreira que me possibilita realizar um personagem dessa magnitude. Eu não sei se um ator mais jovem, menos experiente, conseguiria fazer. Eu acredito que não. Pelo menos do jeito que eu faço. Então, eu acho que todas as pessoas que assistem percebem que eu estou num momento da minha carreira muito bonito. E o que é bonito para mim é ver o respeito e a admiração da própria classe teatral. As pessoas lidam comigo hoje como uma referência. E eu fico muito feliz, muito grato. E foi para isso que eu vivi. Eu não vivi para fama, celebridade, rejeitei muito, nunca liguei para isso. Se ligasse, eu estaria fazendo televisão. Eu queria o que consegui: o respeito dos meus pares, das pessoas que me importam. Importa é a minha classe, estar bem cotado entre os meus pares. E, ao mesmo tempo, o respeito do público. Muita gente me diz: eu só vim assistir a peça porque é você quem trabalha. Porque tudo aquilo que você faz é muito bom, muito bem cotado. Então, onde você vai, eu vou atrás. Isso é uma delícia para um ator.
JP – Você atuou em diversas produções da rede Globo de televisão. Qual foi a importância da emissora para a sua carreira de ator?
Foi a emissora onde eu trabalhei mais na minha vida: oitenta por cento do que eu fiz foi na TV Globo. Foi de uma importância incomensurável porque o Brasil é muito grande e não daria para atingir todas as pessoas se fosse só com o teatro. A televisão abriu muitas portas para mim, para a minha carreira. Me tornei uma pessoa nacionalmente conhecida em pouquíssimo tempo. Eu estreei no ano de 1976, em dezembro. Alguns dias depois eu não podia nem sair à rua. Naquela época era um outro tipo de approach que o público tinha com o ator. Era muito mais complicado. As pessoas seguiam. As pessoas não me deixavam em paz. Não deixavam ninguém em paz. E, naquela época, confundiam muito o ator e o personagem. Isso foi de uma extrema importância porque abriu todas as portas para eu poder fazer o teatro sendo conhecido. A medida que eu entrava numa peça e viajava pelo Brasil, o público tinha muito interesse em assistir a peça com aquele ator que viu na novela. Então, para mim, foi muito bom. E até hoje é muito bom. Cada vez que nós fazemos uma participação em novela ou algum coisa assim, nós sentimos na rua, logo que sai. Eu vou ao mercado, à feira, todos os lugares. E quando eu estou fazendo a novela já fica um pouco mais difícil. Isso é bom porque dá uma mexida na nossa carreira. O ator precisa da televisão. Nós podemos não gostar, mas é necessário fazer. O que é no Brasil sobretudo a importância das novelas. Sobretudo numa época em que as novelas eram muitos melhores, mais bem feitas, que ainda não tinham chegado as redes sociais. Então você não podia se expressar, a não ser fazendo novela. Porque hoje na rede social você pode fazer filmes, mil coisas, e as pessoas continuam te acompanhando. Naquela época não tinha. Era você ser bom ou ruim. Tinha que ser bom, porque senão não dava certo. Eu estou com cinquenta e tantos anos de carreira, e a televisão me traz lembranças maravilhosas, viagens maravilhosas. A Escrava Isaura, e outras tantas novelas que eu fiz naquele começo, na década de oitenta, elas eram vendidas para o mundo inteiro, sobretudo Escrava Isaura. Então eu viajei muito por causa de novela. Isso também é uma delícia. Trabalhei em Portugal quatro vezes, em função de eu ser um ator muito conhecido por diversas novelas que eu fiz.
JP – Como você reflete sobre a questão do etarismo?
A questão do etarismo é muito complicada mesmo. Por que eu me lembro quando eu era mais jovem, todos os atores da geração de Mario Lago, Norma Geraldi, Paulo Gracindo, todos trabalhavam normalmente. Ninguém falava é velho, não é velho. Trabalhavam. Sempre precisou de pais e avós em novelas. Papéis bons. Hoje é muito complicado sim. Na televisão é muito complicado. As pessoas não estão chamando atores mais velhos. Eu mesmo não recebo convite a muito tempo para trabalhar. Mas, como eu tenho teatro, eu estou levando. Só que as vezes no teatro não tem papel para fazer uma pessoa de setenta ou oitenta anos é mais difícil. Porque os grandes conflitos são de poder, ou são de amor, de traição. Mais difícil de acontecer com pessoas de mais idade. Mais fácil de acontecer naquela faixa de quarenta ou cinquenta. Então fica difícil. Na literatura antiga muito difícil. Porque os papéis de pessoas mais velhas têm, só que em peças com doze, treze ou quatorze atores. Tipo Shakespeare, Moliére, e várias outras peças mais clássicas. Os elencos são enormes e não dá mais para fazer. Não dá mais para fazer cenário porque se você tiver que viajar não tem como transportar. Então você monta peças de no máximo quatro personagens. É difícil! Mas nós vamos…Quem pode ou tem um pouco de tino, de inteligência, vai contornando na criatividade mesmo e vai fazendo. Tem vários atores com bastante idade que continuam trabalhando. Fora que nós temos o problema de decorar, que fica mais difícil sim. Então alguns atores têm que fazer com ponto eletrônico, têm mais dificuldade nos ensaios. Eu estou muito bem cuidado. Minha saúde está muito boa, minha memória está excelente. Tanto que eu faço uma peça com vinte personagens, duração de uma hora e quinze em cena, com um texto avassalador. E eu estou perfeito. Tranquilo. Vamos ver o futuro. Eu acredito que no futuro será muito bom ainda.
JP – Atualmente observamos a incorporação de atores não profissionais, como os influencers, em produções na televisão, ocupando o espaço de artistas reconhecidos e experimentados. Como você vê essa questão?
Essa é uma questão muito complicada. Há muitos anos que eu não vejo novelas. Então, eu não sei quem está trabalhando. Eu assisto streamings, muitos filmes. Não vejo essas pessoas que são incorporadas. Não sei se tem gente boa ou ruim. Mas, de qualquer forma, eu considero que isso empobrece muito. É a mesma coisa que você pegar um médico que não fez escola de medicina. Pegar um pintor que não tenha feito escola de belas artes. Não que não possa surgir um auto didata. Pode, claro que pode. Mas me parece que está muito sem critério, porque todo mundo que nos escreve, cada vez que eu posto uma foto, fala a mesma coisa, muita gente. Não é pouco não. É muita gente. Não vejo mais novelas, porque não tem atores mais como você. O público reclama muito. E esse público migrou para outras experiências. Hoje acredito que as gerações mais novas nem assistem televisão. Eu acho que a televisão ficou como antigamente a rádio AM e a FM. A televisão ficou antigamente que era um programa FM. E hoje em dia ficou AM. A televisão se popularizou demais. É um caminho. As mini séries ficaram a FM da história. E as novelas ficaram a AM. Então coloca qualquer coisa lá. Fala, decora o texto. Mas, eu vejo amigos meus que são excelentes atores que continuam atuando na televisão. Então, eu considero que está meio misturado. Só que me parece que o grande problema hoje são as boas histórias. Está difícil aparecer um bom roteiro. A época de ouro dos grandes dramaturgos de televisão acabou. Hoje a dramaturgia está mais complicada porque você também tem que colocar as minorias na televisão. Acho louvável, mas está meio sem critério. Eu não paro muito para refletir sobre essas coisas. O que me interessa é trabalhar, escolher um bom texto, ensaiar uma boa peça. Se eu for ficando me debruçando sobre os problemas da televisão, da qual eu não faço, eu acredito não ter interesse algum de entrar nesse mérito.
JP – Quais são os seus projetos futuros?
Eu normalmente não faço planos para o futuro. Eu fico procurando peça de teatro para fazer. Eu leio. Discuto com os amigos as possibilidades. E assim eu vou. O que está me interessando muito agora, nesse ano de 2026, e no próximo inteiro de 2027, viajando com a minha peça, Eu Sou Minha Própria Mulher. O Brasil é muito grande. E considero ser muito importante levar a mensagem dessa peça para todos os lugares onde queiram ouvir. Onde queiram fazer uma parceria, porque eu estou sem patrocínio. Então, eu preciso que os lugares, as cidades, os Estados, através da secretaria de cultura, ou de um produtor local, nos convide para ir. Por enquanto, eu estou indo. Eu estou com a minha agenda fechada até o final de fevereiro. E o meu sonho é ficar mais o outro ano em cartaz. Aí vamos ver o que acontece. Se eu me aposento. Já vou ter oitenta mesmo. Farei oitenta em fevereiro! Eu não acredito em aposentadoria para mim. Enquanto eu tiver essa memória que eu tenho, saúde corporal, flexibilidade, eu vou continuar trabalhando! Mas não tenho nenhum problema também se eu sentir que eu estou mais debilitado ou ficar debilitado e vou me aposentar numa boa, tranquilo, viver a minha vida com a minha família, que eu amo de paixão. E serei um espectador. Vou ao teatro como público.




