
Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária’, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
O casamento voltou.
Não estou falando da instituição, que nunca foi embora. Estou falando da cerimônia. Da igreja coberta de flores, da música clássica, da noiva entrando lentamente, dos padrinhos, fotógrafos e de uma quantidade impressionante de celulares apontados para o altar.
Nos anos 80 e 90, pelo menos no Rio em que vivi, era diferente.
Na minha geração, muita gente simplesmente ia morar junto. Casar no religioso, com toda aquela pompa, parecia coisa de outra época.
Quando me casei com minha primeira mulher, foi na casa da mãe dela. Apenas no civil, poucos amigos e muita família. Minha irmã também se casou em casa, na casa da minha avó.
Nada de três dias de comemoração. Nada de produção cinematográfica.
Talvez por isso eu observe com tanta curiosidade os casamentos cariocas de hoje.
Eles voltaram enormes.
Há comemorações que começam muito antes da igreja e terminam muito depois da festa. Dois, três dias de festejos. Jantares, encontros, cerimônia, festa e alguma coisa no dia seguinte para aqueles que sobreviveram.
Como aconteceu com o disco de vinil, certas tradições desaparecem apenas para voltar com força redobrada.
E o casamento religioso voltou quase monárquico.
Primeiro entram os pais. Depois começam os padrinhos. E são muitos.
Casais e mais casais atravessam lentamente a nave. A entrada deles já ocupa uma parte considerável da cerimônia, enquanto os convidados fotografam, filmam e tentam descobrir quem é quem.
Depois vêm as daminhas e os pajens.
Quase sempre crianças pequenas demais para compreender a responsabilidade que lhes deram, discretamente conduzidas por uma babá na esperança de que consigam chegar até o altar.
Algumas chegam.
Outras param no meio do caminho, choram, voltam ou simplesmente se recusam a continuar.
São, provavelmente, a parte mais espontânea de uma cerimônia em que quase tudo foi ensaiado.
Ultimamente, soube que até cães amestrados passaram a levar as alianças.
Sinal dos tempos.
Talvez sejam mais obedientes que os pajens e certamente precisam de menos ensaio.
Quando, finalmente, chega a vez do padre, compreende-se por que ninguém mais presta muita atenção nele.
O sermão, que teoricamente, deveria ocupar um lugar central numa cerimônia religiosa, ficou em terceiro plano. Poucos escutam. Quase ninguém filma. Os celulares descansam por alguns minutos. O padre virou figurante. Quase dispensável no espetáculo.
E, o Rio ajuda muito nessa encenação.
Poucas cidades oferecem cenário melhor. Temos igrejas belíssimas, algumas barrocas, altares dourados e séculos de história. Cobertas de flores e iluminadas para um casamento, parecem preparadas não para uma cerimônia, mas para a coroação de um casal real.
A música clássica ecoa pela nave.
A noiva entra.
Todos se levantam.
E, o sonho começa.Talvez seja, justamente, essa a palavra que diferencia o casamento da minha geração do casamento de hoje: espetáculo.
Vivemos num mundo em que tudo precisa ser registrado. Fotografado. Filmado. Publicado.
Às vezes tenho a impressão de que parecer tornou-se mais importante do que ser.
Os convidados também cumprem seu papel. Levantam os celulares e assistem à cerimônia pela pequena tela que têm nas mãos.
No dia seguinte, poderão assistir novamente ao que deixaram de ver ao vivo.
Mas seria injusto reduzir tudo à vaidade das redes sociais.
Há beleza naquele ritual. Há alguma coisa emocionante na música, nas flores, na família reunida e naquela breve sensação de que o tempo parou para duas pessoas.
Talvez seja exatamente isso que importa. Durante algumas horas, viver a fantasia.
Nos Estados Unidos, onde moro, e onde também frequentei alguns casamentos, sempre senti uma diferença.
Ali, a tradição protestante está muito mais presente.
Não há o padre católico celibatário diante do altar. Quem celebra, geralmente, é um pastor ou ministro, muitas vezes casado, com filhos, alguém cuja própria experiência familiar pode fazer parte de sua relação com os noivos.
E, há casos em que quem conduz a cerimônia é uma pessoa próxima, um amigo ou alguém da família habilitado para celebrar o casamento.Isso muda o tom. O discurso tende a ser menos solene, menos dogmático e mais próximo da vida cotidiana. Fala-se de convivência. De paciência. Das diferenças. Das dificuldades que virão. De dividir uma casa, criar filhos, envelhecer juntos. Há menos sonho e mais realidade. Talvez seja também uma diferença cultural.
O catolicismo que herdamos dos portugueses conhece muito bem o poder do ritual. O ouro, as imagens, as flores, a música, o altar, a solenidade.
O protestantismo americano nasceu de outra tradição. É mais sóbrio. Mais direto. Mais pragmático. A cultura americana, afinal, não tem muito tempo a perder. O casamento começa, alguém fala, os noivos fazem seus votos, trocam as alianças, beijam-se e vamos à festa.
No Rio, não. Antes, é preciso viver o espetáculo. E, confesso, que há alguma coisa fascinante nisso.
As nossas igrejas barrocas já são um cenário antes mesmo que cheguem as flores. Quando recebem iluminação, música e decoração, transformam o casamento numa pequena ópera.
Outra coisa me chama a atenção: essas grandes cerimônias já não pertencem apenas às famílias mais abastadas. Elas atravessaram as classes sociais. Mudam a igreja, o salão, o número de flores, o buffet e, evidentemente, a conta. O roteiro é praticamente o mesmo.
Depois da igreja começa a festa, também com roteiro próprio. Entrada dos noivos, música, discursos, fotografias, dança, bolo. Cada momento precisa acontecer. E, sobretudo, ser registrado.
Na minha geração, talvez estivéssemos preocupados demais em romper com as tradições. Esta parece empenhada em recuperá-las, fotografá-las e publicá-las. Não sei qual das duas estava certa. Talvez nenhuma.Ou, talvez, cada geração invente sua própria maneira de acreditar que o amor pode durar para sempre. Assisti, recentemente, ao filme The Invite e uma frase de Oscar Wilde, citada logo no início, ficou na minha cabeça: “Devemos estar sempre apaixonados. Essa é a razão pela qual nunca devemos nos casar.”
Meu pai talvez concordasse com Wilde, embora fosse ainda mais impiedoso. Costumava dizer: “Noventa por cento dos casamentos são infelizes. Os outros dez por cento não têm coragem de admitir.”
E, tinha outra: “Essas cerimônias duram mais que o casamento.”
Imagino meu pai hoje numa dessas igrejas cariocas. Não estaria sentado. Estaria em pé, impaciente, olhando para o relógio e esperando ansiosamente que as cortinas daquele imenso palco finalmente se fechassem. Mas até ele teria que admitir: o casamento está de volta.
E, voltou com pompa e circunstância.
Não estou falando da instituição, que nunca foi embora. Estou falando da cerimônia. Da igreja coberta de flores, da música clássica, da noiva entrando lentamente, dos padrinhos, fotógrafos e de uma quantidade impressionante de celulares apontados para o altar.
Nos anos 80 e 90, pelo menos no Rio em que vivi, era diferente.
Na minha geração, muita gente simplesmente ia morar junto. Casar no religioso, com toda aquela pompa, parecia coisa de outra época.
Quando me casei com minha primeira mulher, foi na casa da mãe dela. Apenas no civil, poucos amigos e muita família. Minha irmã também se casou em casa, na casa da minha avó.
Nada de três dias de comemoração. Nada de produção cinematográfica.
Talvez por isso eu observe com tanta curiosidade os casamentos cariocas de hoje.
Eles voltaram enormes.
Há comemorações que começam muito antes da igreja e terminam muito depois da festa. Dois, três dias de festejos. Jantares, encontros, cerimônia, festa e alguma coisa no dia seguinte para aqueles que sobreviveram.
Como aconteceu com o disco de vinil, certas tradições desaparecem apenas para voltar com força redobrada.
E o casamento religioso voltou quase monárquico.
Primeiro entram os pais. Depois começam os padrinhos. E são muitos.
Casais e mais casais atravessam lentamente a nave. A entrada deles já ocupa uma parte considerável da cerimônia, enquanto os convidados fotografam, filmam e tentam descobrir quem é quem.
Depois vêm as daminhas e os pajens.
Quase sempre crianças pequenas demais para compreender a responsabilidade que lhes deram, discretamente conduzidas por uma babá na esperança de que consigam chegar até o altar.
Algumas chegam.
Outras param no meio do caminho, choram, voltam ou simplesmente se recusam a continuar.
São, provavelmente, a parte mais espontânea de uma cerimônia em que quase tudo foi ensaiado.
Ultimamente, soube que até cães amestrados passaram a levar as alianças.
Sinal dos tempos.
Talvez sejam mais obedientes que os pajens e certamente precisam de menos ensaio.
Quando, finalmente, chega a vez do padre, compreende-se por que ninguém mais presta muita atenção nele.
O sermão, que teoricamente, deveria ocupar um lugar central numa cerimônia religiosa, ficou em terceiro plano. Poucos escutam. Quase ninguém filma. Os celulares descansam por alguns minutos. O padre virou figurante. Quase dispensável no espetáculo.
E, o Rio ajuda muito nessa encenação.
Poucas cidades oferecem cenário melhor. Temos igrejas belíssimas, algumas barrocas, altares dourados e séculos de história. Cobertas de flores e iluminadas para um casamento, parecem preparadas não para uma cerimônia, mas para a coroação de um casal real.
A música clássica ecoa pela nave.
A noiva entra.
Todos se levantam.
E, o sonho começa.Talvez seja, justamente, essa a palavra que diferencia o casamento da minha geração do casamento de hoje: espetáculo.
Vivemos num mundo em que tudo precisa ser registrado. Fotografado. Filmado. Publicado.
Às vezes tenho a impressão de que parecer tornou-se mais importante do que ser.
Os convidados também cumprem seu papel. Levantam os celulares e assistem à cerimônia pela pequena tela que têm nas mãos.
No dia seguinte, poderão assistir novamente ao que deixaram de ver ao vivo.
Mas seria injusto reduzir tudo à vaidade das redes sociais.
Há beleza naquele ritual. Há alguma coisa emocionante na música, nas flores, na família reunida e naquela breve sensação de que o tempo parou para duas pessoas.
Talvez seja exatamente isso que importa. Durante algumas horas, viver a fantasia.
Nos Estados Unidos, onde moro, e onde também frequentei alguns casamentos, sempre senti uma diferença.
Ali, a tradição protestante está muito mais presente.
Não há o padre católico celibatário diante do altar. Quem celebra, geralmente, é um pastor ou ministro, muitas vezes casado, com filhos, alguém cuja própria experiência familiar pode fazer parte de sua relação com os noivos.
E, há casos em que quem conduz a cerimônia é uma pessoa próxima, um amigo ou alguém da família habilitado para celebrar o casamento.Isso muda o tom. O discurso tende a ser menos solene, menos dogmático e mais próximo da vida cotidiana. Fala-se de convivência. De paciência. Das diferenças. Das dificuldades que virão. De dividir uma casa, criar filhos, envelhecer juntos. Há menos sonho e mais realidade. Talvez seja também uma diferença cultural.
O catolicismo que herdamos dos portugueses conhece muito bem o poder do ritual. O ouro, as imagens, as flores, a música, o altar, a solenidade.
O protestantismo americano nasceu de outra tradição. É mais sóbrio. Mais direto. Mais pragmático. A cultura americana, afinal, não tem muito tempo a perder. O casamento começa, alguém fala, os noivos fazem seus votos, trocam as alianças, beijam-se e vamos à festa.
No Rio, não. Antes, é preciso viver o espetáculo. E, confesso, que há alguma coisa fascinante nisso.
As nossas igrejas barrocas já são um cenário antes mesmo que cheguem as flores. Quando recebem iluminação, música e decoração, transformam o casamento numa pequena ópera.
Outra coisa me chama a atenção: essas grandes cerimônias já não pertencem apenas às famílias mais abastadas. Elas atravessaram as classes sociais. Mudam a igreja, o salão, o número de flores, o buffet e, evidentemente, a conta. O roteiro é praticamente o mesmo.
Depois da igreja começa a festa, também com roteiro próprio. Entrada dos noivos, música, discursos, fotografias, dança, bolo. Cada momento precisa acontecer. E, sobretudo, ser registrado.
Na minha geração, talvez estivéssemos preocupados demais em romper com as tradições. Esta parece empenhada em recuperá-las, fotografá-las e publicá-las. Não sei qual das duas estava certa. Talvez nenhuma.Ou, talvez, cada geração invente sua própria maneira de acreditar que o amor pode durar para sempre. Assisti, recentemente, ao filme The Invite e uma frase de Oscar Wilde, citada logo no início, ficou na minha cabeça: “Devemos estar sempre apaixonados. Essa é a razão pela qual nunca devemos nos casar.”
Meu pai talvez concordasse com Wilde, embora fosse ainda mais impiedoso. Costumava dizer: “Noventa por cento dos casamentos são infelizes. Os outros dez por cento não têm coragem de admitir.”
E, tinha outra: “Essas cerimônias duram mais que o casamento.”
Imagino meu pai hoje numa dessas igrejas cariocas. Não estaria sentado. Estaria em pé, impaciente, olhando para o relógio e esperando ansiosamente que as cortinas daquele imenso palco finalmente se fechassem. Mas até ele teria que admitir: o casamento está de volta.
E, voltou com pompa e circunstância.





