Contagem Regressiva: “Isso não dura quinze dias”
Por Henrique Pinheiro – Economista e Produtor Executivo de “Terra Revolta-João Pinheiro Neto” autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor” – Colunista convidado.
Rio de Janeiro, 31 de março de 1964.
O golpe já estava na estrada. No Palácio das Laranjeiras, João Goulart cochilava numa velha cama de bronze. Era um breve repouso no início de um dia que mudaria a história do Brasil.
No Palácio, alguns de seus colaboradores mais próximos aguardavam, em silêncio. Estavam ali Abelardo Jurema, ministro da Justiça; Expedito Machado, ministro da Viação e Obras Públicas; o general Osvino Ferreira Alves; o secretário da Presidência, Raul Ryff; Caillard, secretário particular de Jango; e meu pai, João Pinheiro Neto, presidente da SUPRA.
Em Minas Gerais, as tropas do general Olímpio Mourão Filho já haviam se rebelado.
Jango despertou.E, começaram os telefonemas. Virou-se para o general Osvino Ferreira Alves: ” General, já ligou para o I Exército?”
“O telefone não atende, Presidente.” Tentaram a Vila Militar. Nada.
E, o ministro da Guerra, general Jair Dantas Ribeiro?
Estava internado para uma cirurgia de próstata.
Jango ironizou: ” Que hora o general escolheu para ser operado!”
Restava a Aeronáutica.
Jango pegou o telefone e ligou para o brigadeiro Francisco Teixeira, comandante da Terceira Zona Aérea.
Queria saber se poderia contar com os aviões da Aeronáutica.
Ouviu a resposta. Desligou.
“O Brigadeiro Teixeira está me dizendo que o tempo não está bom para decolagem dos aviões.”
Fez uma pausa:
“Pois é. O Brigadeiro queixou-se da meteorologia.”
Logo veio uma notícia ainda pior: as tropas do general Luís Tavares da Cunha Melo, enviadas para conter o avanço das forças de Mourão Filho, haviam aderido aos revoltosos.
O dispositivo militar do governo começava a desmoronar.
Jango deixou o Palácio.
Meu pai saiu num Fusca com Abelardo Jurema e Expedito Machado. Foram para a Terceira Zona Aérea.
Ali, o brigadeiro Francisco Teixeira tentou tranquilizá-los:
“Conheço muito bem os milicos, sou um deles há mais de trinta anos.”
E, sentenciou: “Isso não dura mais que quinze dias.”
Décadas depois, ao contar aquela manhã em Jango: um depoimento pessoal, meu pai acrescentaria:
“Durou mais de vinte anos…”
Foto: Leonel Brizola recebe meu pai, João Pinheiro Neto, presidente da SUPRA, no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. Março de 1964, poucos dias antes do golpe. Arquivo pessoal da família.













