“Jogo de Vingança” em Cavalleria Rusticana
Teve início o IV Festival Oficina da Ópera no Theatro Municipal do Rio de Janeiro (TMRJ).
A ópera de abertura foi Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni.
Libreto de Giovanni Targioni-Tozzetti.
Ópera em um ato.
A Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro sob a regência de Natalia Salinas teve uma apresentação digna de elogios. Natalia regeu de forma segura e firme, fato que produziu um som ímpar e notável. Ademais, o coro, com uma atuação impecável, forte, potente, se apresentou afinado com a orquestra, numa comunhão perfeita.
Amor, traição, perda da honra, e vingança são os temas que atravessam a ópera. Esta se insere no chamado Verismo, sendo Mascagni o introdutor do movimento no campo da ópera italiana.
O elenco protagonista se apresentou de forma comovente e emocionante. Eles estavam unidos, entrosados, pulsantes e vibrantes.
Denise de Freitas interpretando Santuzza foi o grande destaque da noite. Ela faz a mulher traída, magoada, machucada, deixando transparecer uma intensa dramaticidade emocional. Ela mistura a técnica refinada, uma voz doce, meiga e pujante, e emociona. Ao final, o público a aclamou!
Outro destaque foi Alfio, interpretado por Inácio de Nonno. Ele deixa transparecer alegria, felicidade, apaixonado por sua esposa Lola, que acredita ser de infinita lealdade, até ser tomado por uma ira ao saber por Santuzza que o marido desta mantém relações íntimas com sua cônjuge. Realizou uma convincente apresentação, com boa voz e timbre afinado.
O personagem Turiddu foi realizado por Paulo Mandarino. O pivô da trama. Traiu Santuzza com Lola. Também teve uma boa atuação, mas menos evidente do que os outros dois cantores já comentados. O melhor momento da sua apresentação se dá quando canta a música relacionada ao vinho, o momento da embriaguez, como forma de superar a tristeza e alegrar os corações.
Lola interpretada por Lara Cavalcanti, e Mamma Lucia por Andressa Inácio tiveram atuações que mantiveram a qualidade do elenco.
Uma mulher do povo interpretada por Eliane Lavigne foi uma atuação mais interpretativa.
Portanto, um conjunto de cantores de qualidade e com atuações que mesclaram técnica e emoção.
O coro estava perfeito, forte, potente, entrosado com a orquestra e com os cantores.
A direção cênica de Daniel Salgado é dedicada, ousada, autêntica e emocionante, com marcações precisas que tornam o espetáculo dinâmico e bem conduzido, potencializando a qualidade das interpretações dos cantores líricos. Ele teve o mérito de transferir a ação da ópera de um pequeno povoado no interior da Sicília para uma cidade fictícia do interior de Minas Gerais, remetendo às cidades barrocas mineiras com sua forte religiosidade.
A cenografia criada por Vinícius Lugon é criativa, bem solucionada, e apresenta os elementos cênicos bem dispostos pelo palco.
A cenografia busca reconstruir uma praça, toda decorada com fitas coloridas, com uma igreja em ruínas e uma venda provisória para a celebração de Páscoa. Nesse ambiente se dá toda a encenação.
Convém sublinhar que a trama se passa no domingo de Páscoa. Em nosso ponto de vista, o momento da procissão se constitui o ápice da apresentação. Deixa transparecer a conexão entre o elenco, o coro e a orquestra. Além de ser um momento visualmente bonito.
Os figurinos criados por Fael di Rocca são de bom gosto, adequados ao contexto da época, apresentam uma bonita combinação de cores, e facilitam a locomoção dos cantores pelo palco.
A Iluminação criada por Jonas Soares apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação dos cantores. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo e dinamismo e complementando as interpretações do elenco.
Cavalleria Rusticana é uma ópera encenada com uma regência que conseguiu manter o equilíbrio entre o coro e a orquestra; uma direção competente e ousada; um elenco de qualidade, que associa técnica e emoção; figurinos de bom gosto e coloridos, e uma cenografia criativa e bem solucionada.
Excelente produção de ópera!













