Começa a contagem regressiva. O comício que meu pai tentou evitar
Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
Rio de Janeiro, 25 de janeiro de 1964.
Quase cinquenta dias antes do Comício da Central, meu pai, João Pinheiro Neto, tocou a campainha do apartamento de João Goulart, no Edifício Chopin, ao lado do Copacabana Palace.
Essa história não conheci pelos livros.
Foi meu pai quem contou esse episódio, em seu livro, ” Jango: um depoimento pessoal”, publicado pela Editora Record em 1993.
Naquela noite, Jango estava reunido com dirigentes sindicais para discutir os decretos que pretendia anunciar ao país, entre eles o da SUPRA, Superintendência de Política Agrária, órgão responsável pela política agrária do governo e presidido por meu pai.
Foi ali que Jango lhe falou sobre o grande comício que pretendia realizar diante do Ministério da Guerra.
A princípio, meu pai não se opôs. Jango garantiu que o ministro da Guerra, general Jair Dantas Ribeiro, estava de acordo.
O problema veio depois.
Brizola, Miguel Arraes e outros líderes começaram a disputar quem falaria imediatamente antes de Jango.
Meu pai se inquietou.
Enquanto discutiam protagonismo, no palanque, ele enxergava um governo acuado e o golpismo avançando.
Chamou Jango, reservadamente, e sugeriu transferir a assinatura dos decretos para o Palácio da Alvorada, numa cerimônia em que apenas o presidente falaria.
Jango ouviu: ” Boa ideia.”
Meu pai voltou para casa acreditando que talvez o tivesse convencido.
Na manhã seguinte, abriu o jornal Última Hora.
O jornal convocava o povo para o grande Comício das Reformas de Base. Não havia mais volta.
Rio de Janeiro, 13 de março de 1964.
Entre 150 mil e 200 mil pessoas tomaram os arredores da Central do Brasil, proporcionalmente, algo próximo de 2 milhões no Brasil de hoje.
Legenda da foto: Comício da Central do Brasil, 13 de março de 1964. À esquerda, de perfil, meu pai, João Pinheiro Neto. Ao centro, Leonel Brizola e Miguel Arraes. Também na imagem, Clodesmidt Riani, vice-presidente do CGT. Jango anunciou à multidão que havia assinado o Decreto da SUPRA, resultado do trabalho que meu pai vinha conduzindo na reforma agrária. O comício que tentara evitar estava acontecendo. Faltavam 18 dias para o golpe.













